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A Economia Criativa na América Latina. Da gestão da Propriedade Intelectual à resiliência territorial e tecnológica

 


Elayne C. Bione de Lima
Elayne C. Bione de Lima

  

 

Autora: Elayne C. Bione de Lima

 

Biografia: Jornalista pernambucana pela Uninassau; Mestre em Economia Criativa: direção de empresas criativas e desenvolvimento urbano sustentável pela Universidad Rey Juan Carlos, Madrid-ESP. Especializada em Empreendedorismo Criativo e Cultural na América Latina, Diplomada em Inteligência Artificial, PowerPitch Method.

 

 

Resumo: Este artigo pretende analisar o papel das Indústrias Culturais e Criativas (ICCs) como motor do desenvolvimento sustentável regional, a partir de uma abordagem de empreendedorismo como modelos de desenvolvimento humano, soberania cultural e mobilidade econômica de artistas e criativos da América Latina de língua espanhola. O conteúdo também busca abordar como a evolução do setor, entre os anos de 2013 e 2026, reconhecendo a integração de metodologias de inovação, avanço discursivo sobre o paradigma tradicional de um produto estático para a construção de uma Unidade Criativa (UC) sustentada por uma Proposta de Valor Emocional (PVE) e uma análise sobre o uso de sofisticados modelos de negócio.


Resumen: Este artículo pretende analizar el papel de las Industrias Culturales y Creativas (ICC) como motor del desarrollo sostenible regional, desde una perspectiva del emprendimiento orientada a modelos de desarrollo humano, soberanía cultural y movilidad económica para los artistas y profesionales creativos de la América Latina hispanohablante. El contenido también examina la evolución del sector entre 2013 y 2026, reconociendo la incorporación de metodologías de innovación, el avance discursivo desde el paradigma tradicional del producto estático hacia la construcción de una Unidad Creativa (UC), sustentada en una Propuesta de Valor Emocional (PVE), y la utilización de modelos de negocio más sofisticados.


Abstract: This article examines the role of the Cultural and Creative Industries (CCIs) as a driver of regional sustainable development, adopting an entrepreneurship-based perspective focused on models of human development, cultural sovereignty, and economic mobility for artists and creative professionals in Spanish-speaking Latin America. It also explores the evolution of the sector between 2013 and 2026, acknowledging the incorporation of innovation methodologies, the discursive shift from the traditional paradigm of a static product toward the development of a Creative Unit (CU) supported by an Emotional Value Proposition (EVP), and the adoption of more sophisticated business models.

 


2. Evolução conceitual e transições institucionais

 

2.1 O impacto da ‘Economía Naranja’ na Colômbia

 

Criar uma terminologia técnica no ecossistema criativo funciona como um eixo de governança que determina uma identidade para a natureza dos projetos artísticos e culturais, como também uma arquitetura de financiamento e legitimidade social nos territórios. Um marco fundador é a definição de “Economía Naranja” adotada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que fundamentou o valor do setor na gestão da propriedade intelectual e do patrimônio (Buitrago & Duque, 2013).

 

Entre 2018 e 2026, a Colômbia percorreu uma trajetória pendular em relação a esse marco conceitual. Durante o quadriênio 2018-2022, o termo alcançou seu maior auge institucional sob uma lógica de investimento, rotas de fomento e robustez legislativa. No entanto, a gestão administrativa subsequente, de 2022 a 2026, marcou uma reorientação semântica para os conceitos de “economía popular” e “culturas para la paz”, refletindo uma busca estatal pelo enraizamento patrimonial e uma resistência territorial à percepção de mercantilização do fazer artístico.

 

Apesar dessas migrações discursivas no âmbito nacional, o padrão técnico cunhado pelo BID persiste até hoje como referência de resiliência nos organismos multilaterais, servindo de base para a modelagem de instrumentos de empreendedorismo, financiamento e fortalecimento dos encadeamentos produtivos regionais. Esse marco institucional encontra sua validação definitiva na materialidade dos indicadores macroeconômicos que confirmam o peso estratégico do setor.

 


3. Análise macroeconômica latino-americano

 

3.1 Casos exemplares latino-americanos de impacto econômico

 

Os indicadores econômicos funcionam como a base de legitimação necessária para conferir sustentabilidade às políticas de Estado em setores historicamente percebidos como periféricos à matriz produtiva tradicional.


Os dados consolidados pela Ernst & Young em 2015 já apontavam a magnitude do ecossistema das artes e das culturas, que representava 2,2% do Produto Interno Bruto (PIB) continental e gerava 1,9 milhão de empregos diretos. Esse dinamismo encontrou um caso paradigmático de referencial, no programa Chile Creativo, da CORFO — Corporação de Fomento da Produção do Chile —, que, ao completar dez anos de trajetória em 2026, evidencia a expansão do tecido empresarial, que de quase 35 mil empresas passou para mais de 55 mil empresas registradas, além de um crescimento das exportações de serviços criativos, que passaram de 45 milhões para 98 milhões de dólares.


A consolidação estende-se por diversos ecossistemas, como o México, que articulou sua tradição artesanal dos alebrijes com uma sofisticada indústria de Sportainment impulsionada pela Copa do Mundo da FIFA de 2026, ou a Argentina, que projeta suas capacidades de produção audiovisual para o horizonte da Copa do Mundo de 2030. Também se destaca o modelo de soberania cultural do povo Guna, no Panamá, onde a Lei de Turismo para os Povos Originários permite que a comunidade exerça soberania narrativa sobre seu patrimônio vivo, evitando a banalização de seus rituais e o risco de uma fixação imutável de sua cultura para o consumo externo. Entretanto, essa expansão das ICCs enfrenta atualmente desafios críticos diante do avanço da automação global.

  

 

4. Disrupção tecnológica e inteligência artificial

 

4.1 Riscos e resiliência

 

O atual progresso tecnológico cria uma tensão crescente com a soberania digital das nações latino-americanas*, caracterizando a expropriação de valor cultural por algoritmos de Inteligência Artificial generativa como um novo desafio de natureza extrativista.


Segundo o relatório da UNESCO de 2026, a brecha digital Norte-Sul manifesta-se em disparidades alarmantes: enquanto 67% da população do Norte Global possui competências digitais essenciais, apenas 28% da população do Sul Global tem acesso a essas capacidades.


Esse desequilíbrio soma-se ao chamado “muro dos vistos”, fenômeno em que 96% dos países desenvolvidos facilitam a mobilidade artística de seus cidadãos para o exterior, mas apenas 38% permitem a entrada de criadores provenientes de países em desenvolvimento (Bakhshi, Benedikt, & Osborne, 2015).


Esse cenário traduz-se em projeções financeiras críticas para 2028, com perdas de receita estimadas em 24% para o setor musical e em 21% para o audiovisual, devido à irrupção de conteúdos gerados por máquinas. Entretanto, o estudo da agência Nesta sugere que as atividades criativas apresentam uma taxa de proteção contra a automação entre 86% e 87% (Bakhshi, Benedikt, & Osborne, 2015).


Esse paradoxo indica que, embora o emprego criativo seja intrinsecamente resiliente por sua natureza humana, a estabilidade financeira dos profissionais está sob ameaça sistêmica devido à opacidade algorítmica (Bakhshi, Benedikt, & Osborne, 2015). Consequentemente, a resposta estratégica reside na inovação dos modelos de negócio que priorizem o território e a identidade em vez do produto estático.

 


5. Metodologias de sustentabilidade econômica

 

5.1 A metodologia da Estratégia Radial® e o conceito da Comunidade Mínima Viável (CMV)

 

Para garantir a sobrevivência comercial no setor criativo, alguns ecossistemas de escolas de empreendedorismo criativo na região têm tratado de superar a abordagem convencional do Produto Mínimo Viável (MVP), que costuma se concentrar em soluções de inovação, funcionais ou heurísticas, e adotar modelos que reconheçam e assimilem a natureza das iniciativas e projetos culturais e criativos. A evolução teórica que transita da Matriz 360 de Sustentabilidade Econômica (2015) até a obra Diversificação de produtos (2020), que propõe o método da Estratégia Radial® como uma ferramenta pioneira de implementação de estratégias de sustentabilidade para os criativos e criativas na América Latina.


Esse modelo fundamenta-se na criação de uma Proposta de Valor Emocional (PVE) capaz de construir uma Comunidade Mínima Viável (CMV), na qual o público, seguidor, fã ou cliente consome identificação, pertencimento e conexões intangíveis, em vez de mera utilidade ou funcionalidade (Paredes Lazo, A. 2020).

 

A estratégia completa-se por meio da diversificação do portfólio em pelo menos cinco ofertas distintas baseadas em uma mesma Propriedade Intelectual Transetorial (PIT), permitindo que as empresas e empreendimentos criativos superem o “vale da morte” dos cinco anos. Para executar essa diversificação sem exigir grandes capitais iniciais, o modelo articula um banco de talentos que fomenta a cooperação horizontal e o intercâmbio de serviços como moeda social, transformando a competição individual em sinergia produtiva.


A validação prática desses conceitos materializou-se por meio de programas de intervenção direta em mais de quinze países latino-americanos, que demonstram a eficácia de estruturar uma economia a partir da identidade, patrimônio territorial e talento humano.

 

  

6. Resultados de impacto

 

6.1 O Projeto-piloto: “Ruta de Emprendimiento Naranja” executado para PNUD Colômbia

 

A cooperação internacional, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), tem sido fundamental para reduzir as lacunas de acesso a oportunidades econômicas em territórios isolados por meio da inclusão produtiva. O desenvolvimento do projeto-piloto “Ruta de Emprendimiento Naranja”, que integra uma “Cartilla Naranja” permitiu fortalecer empreendedores em municípios colombianos de Quibdó, Leticia e Mitú, no ano de 2018, aplicando uma estrutura pedagógica integral de dez módulos formativos e uma fase final de validação e encerramento técnico.


Essas três cidades que personificam a periferia estratégica e os horizontes identitários da Colômbia com territórios onde a desconexão dos eixos viários e as assimetrias de infraestrutura condicionam o desenvolvimento humano das comunidades afrodescendentes e indígenas.


A execução de marcos de inclusão produtiva tornou-se estratégico para mitigar a precariedade sistêmica e fortalecer a soberania nacional nas fronteiras, permitindo que a densa riqueza megabiodiversa se traduza em encadeamentos sustentáveis. Assim, o empreendedorismo criativo baseado na rota da Economia Laranja conformada pela metodologia da Estratégia Radial® foi considerada capaz colaborar com salvaguardar o patrimônio vivo diante dos riscos anteriormente mencionados.


Os resultados quantitativos do programa validam a efetividade de tal metodologia. Com a aplicação da Estratégia Radial®, registrou-se um aumento de 164% na diversificação dos portfólios de serviços e um crescimento sustentado das vendas diretas entre 38% e 39% por parte dos empreendimentos criativos participantes do programa. Além disso, as unidades produtivas conseguiram triplicar o volume de suas alianças comerciais estratégicas e atrair 41% mais novos clientes. Esses indicadores demonstram que os modelos econômicos concebidos a partir do reconhecimento do talento local, do patrimônio e da biodiversidade puderam preservar a identidade dos territórios e seus saberes, constituindo também ativos financeiros viáveis e seguros que mitigam os riscos do Sul Global. Os resultados obtidos ressaltam que a articulação entre o saber tradicional e a gestão empresarial moderna pode ser o caminho para uma prosperidade econômica inclusiva.


7. Conclusões

 

O avanço das Indústrias Culturais e Criativas na América Latina depende de uma articulação sofisticada entre governança heterogênea e horizontal, inovação e empreendedorismo. A transição de modelos econômicos extrativistas para ecossistemas de proteção de ativos intangíveis é o único caminho para assegurar a resiliência diante da automação global e das disparidades do mercado. Ao integrar a densidade teórica das políticas públicas à fluidez das respostas territoriais e às ferramentas empresariais, a região poderá transformar suas atuais assimetrias em oportunidades de prosperidade compartilhada e soberania cultural duradoura.

 

8. Referências Bibliográficas

 

Bakhshi, H., Benedikt, C., & Osborne, M. (2015). Creativity vs. Robots: The creative economy and the future of employment. Londres. Nesta.

Buitrago, F. & Duque, I. (2013). La economía naranja: una oportunidad infinita. Washington D.C.: Banco Interamericano de Desarrollo.

Ernst & Young. (2015). Cultural Times: The first global map of cultural and creative industries.

Paredes Lazo, A. (2015). Prácticas de emprendimiento creativo y cultural en América Latina y el Caribe.

Paredes Lazo, A. (2020). Diversificar: Ingresos múltiples para artistas y creativos.

Paredes Lazo, A. (2026). Apostar por el turismo creativo: Creatividad que se convierte en destino.

PNUD Colombia. (2026). Ruta Naranja: Metodología de inclusión productiva y fortalecimiento creativo. Bogotá: PNUD.

UNESCO. (2026). Repensar las políticas para la creatividad: Relatório Global 2026. París: UNESCO.

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