Carlos Monte lembrou Romildo, o ‘escravo da música’
- Lais Amaral Jr.

- há 11 minutos
- 5 min de leitura

Semana passada o Tuninho Galante, da Cedro Rosa, reuniu no Colégio Brasileiro de Altos Estudos – UFRJ, no Flamengo, um grupo de especialistas em várias áreas do pensamento, da cultura e da tecnologia para lançar a plataforma Criativos - Pensar e Fazer. Um espaço capaz de estimular a reflexão estruturada, apoiar projetos estratégicos e contribuir para o desenvolvimento cultural e intelectual do país, interagindo com instituições e iniciativas afins.
Foi uma tarde instigante, vibrante e emocionante. Fora os pensadores e representantes de instituições de ponta, estavam presentes dois artistas que mexem comigo: Luiz Cláudio Ramos, violonista e maestro da banda que acompanha Chico Buarque e Carlos Monte, autor do clássico e essencial livro sobre a ‘Velha Guarda da Portela’, escrito em parceria com João Baptista M. Vargens. E o brilhante pai de Marisa Monte (sua obra principal), citou Romildo, compositor de grandes sucessos de Clara Nunes e falecido em 1990, aos 48 anos. Convivi com ele por um breve tempo.
Em homenagem a Carlos Monte, seguem trechos do meu texto publicado na Criativos e mais tarde no meu livro Show de Estrelas. ‘Romildo Bastos – personagem emblemático do mundo do Samba’:
Assim que saltei do ônibus em frente ao Portelão, Beto Branco ao meu lado cumprimentou alguém de forma estridente e pouco usual: Romildo, seu safado! E o cidadão “ofendido” respondeu em forma de samba: "Beto, escuta essa aqui, que já-já vai ser sucesso no rádio". E cantarolou batucando na caixa de fósforo: Ê fuzuê, parede de barro não vai me prender / Ê fuzuê parede de barro não vai me prender. E não demorou muito a profecia do sambista se confirmava com mais um grande sucesso na voz da Clara Nunes.

Meu também saudoso amigo Beto Branco, era uma figura daquelas desconcertantes, que falava duas vezes antes de pensar. Pós-graduado em porrinha, torcedor da dupla Fla-Flu (torcia para os dois) e um copo insaciável. Ele me apresentou ao Romildo, que eu já admirava a distância dos sucessos gravados pela mineira guerreira. E aquela foi uma das últimas disputas de samba enredo que Romildo participou na Portela. Chegava nas finais da escolha com sambas belíssimos, mas não levava. Eram os tempos de um tsunami chamado Davi Correia que, bom de quadra, arrastava tudo. Romildo acabou se bandeando para a Mocidade Independente e pouco depois emplacou, junto com Edson Show, o seu Muambeiro na agremiação de Padre Miguel (...).
A última do Romildo
Voltando um pouco no tempo, antes do desfecho do texto anterior e, bem antes de Romildo virar nome de rua em Mesquita. Passado o desfile vitorioso da Leão de Nova Iguaçu, o tempo deu aquelas pedaladas que costuma dar, e eu já estava morando longe. Um amigo disse que Romildo não estava bem de saúde. Parece que sofria de algum mal nos rins ou no fígado e que por isso teria ido parar num hospital. Fiquei apreensivo.
Certa noite numa fuga rápida para matar saudades, eu fui reencontrar amigos no ‘Bafo da Cobra’, um querido bloco carnavalesco em Nova Iguaçu. Estavam todos lá: Luciano Roxo, Rodelson, Claudinho do Cartório, Robson Azeredo, Jairo Bráulio, Mário Carabina e muitos outros. Eu passava entre as mesas na pequena, mas animada quadra, quando senti alguém me segurar o braço. Era ele, Romildo Bastos. Me olhou zombeteiro do seu jeito e lançou suas setas em forma de palavras, humoradamente sarcásticas, como de hábito:
- “Passando sem me ver? Pensou que eu tinha morrido? Nada compadre, não sou um fantasma, não. Estou aqui, vivinho da silva”.
Nem preciso descrever a satisfação que tive. Puxei uma cadeira e quis saber como ele estava e, anedoticamente, como era seu estilo, contou, que realmente esteve muito mal e que morrera, sim. Mas chegando no céu, São Pedro na portaria perguntou pelo seu nome e foi conferir na lista de mortos, segundo ele, em ordem alfabética. São Pedro correndo o dedo: “Rô, Rô...não, aqui não tem Romildo. Só tem um Ronildo. Pode voltar pra Terra que ainda não chegou a sua hora”. Gargalhei às bandeiras despregadas.
No dia seguinte retornei para Angra dos Reis onde estava morando. A alma até mais assanhada por rever o amigo, bem vivo e com o senso de humor em dia. Naquela noite ele me cobrara uma letra. Há muito tempo planejávamos compor algo. E eu sonhava com aquela parceria. Mas o que brotava não me convencia. Não considerava à altura do Romildo. Estavam longe, por exemplo, da inspirada letra de Partilha do Sérgio Fonseca, sucesso na voz do grande, Roberto Ribeiro.
A labuta diária pela sobrevivência na Rádio Angra, no Jornal Maré e como correspondente de O Globo na Costa Verde, parece que não permitia muito espaço à inspiração. Ela vinha minguada, não me convencia. Nossa parceria foi mais uma vontade que ficou pra trás, como cantou João Nogueira no seu Espelho.
Epílogo: Infelizmente, não muito tempo depois daquela noite feliz no ‘Bafo da Cobra’, chegou a hora de Romildo se reencontrar com São Pedro e aí sim, constar da lista de falecidos. Num domingo festivo e de homenagens, um infarto tirou o formidável sambista boêmio, o “escravo da música”, do nosso convívio.
Imagino a cena no céu: São Pedro falando pra ele ao chegar: “Eu já não te conheço?” e Romildo respondendo com seu jeitão: “Certamente. Estive aqui dia desses, Pedrão. Já sou da casa e, amigo da Clara. Cadê a Mineira?”
Estou ouvindo a playlist A música, os compositores e os artistas da Baixada Fluminense.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
Inclui parcerias de Romildo com Evandro Lima e Sergio Fonseca.
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