Carta à Memória
- David Gertner

- há 1 hora
- 6 min de leitura

Há coisas que gostaríamos de esquecer. Mas, sem memória, esqueceríamos também quem somos.
Por David Gertner, Ph.D.
Querida Memória,
Nem sempre fui justo com você.
Muitas vezes reclamei quando chegou sem ser chamada. Quando trouxe de volta um rosto que eu já havia conseguido afastar, uma palavra que ainda doía, uma despedida que preferia acreditar encerrada. Quando me fez ouvir novamente frases que me feriram, reencontrar pessoas que gostaria de esquecer, reviver experiências que me envenenaram por muito mais tempo do que mereciam permanecer comigo. Houve momentos em que desejei que fosse menos persistente. Que aprendesse a fechar algumas portas. Que entendesse que certas gavetas existem justamente para permanecer fechadas.
Mas você nunca foi muito obediente.
Às vezes basta uma música, um cheiro, uma fotografia encontrada por acaso, o nome de uma rua, uma comida que não provávamos havia décadas. E então você chega, sem pedir licença, e estamos novamente em uma casa que talvez nem exista mais, sentados à mesa com pessoas que morreram, caminhando por uma cidade que mudou, ouvindo vozes que o tempo silenciou, mas que você, por alguma razão misteriosa, decidiu conservar.
É difícil não se comover com o seu poder. Mas também é difícil perdoá-la por algumas coisas.
Você guarda demais. Guarda o abraço, mas guarda também a ausência. Conserva o amor e, com uma competência igualmente impressionante, preserva a rejeição. Arquiva aquilo que dissemos quando deveríamos ter ficado calados e aquilo que calamos quando deveríamos ter falado.
Que estranha bibliotecária você é. E ainda por cima desorganizada.
Coisas importantes desaparecem. Nomes que conhecíamos perfeitamente começam a se esconder. Datas se confundem. Rostos perdem detalhes. Enquanto isso, acontecimentos aparentemente insignificantes permanecem intactos: uma frase ouvida há cinquenta anos, a cor de uma parede, uma canção tocando numa festa, o desenho de uma toalha sobre uma mesa.
Talvez você possua critérios que jamais compreenderemos. Ou talvez sua função nunca tenha sido simplesmente registrar o passado.
Durante muito tempo imaginamos a memória como um arquivo. Mas você se parece mais com uma oficina. Cada vez que recordamos alguma coisa, mexemos um pouco nela. Mudamos a luz, deslocamos personagens, suavizamos certas dores, aumentamos outras. Duas pessoas podem ter vivido o mesmo acontecimento e, décadas depois, carregarem histórias diferentes sobre aquilo que aconteceu.
Talvez nenhuma delas esteja mentindo. Talvez seja apenas você trabalhando.
O passado permanece passado. A lembrança, porém, continua viva. E tudo o que permanece vivo se transforma.
Por isso, às vezes você nos engana. Mas seria injusto condená-la, porque, apesar de todas as suas imperfeições, há algo que somente você consegue fazer: impedir que o tempo vença completamente.
O tempo leva as pessoas, derruba casas, modifica cidades, apaga fronteiras, transforma crianças em adultos e adultos em fotografias. Você vem atrás, recolhendo o que consegue. Nunca salva tudo. Mas salva alguma coisa.
É assim que pessoas que já não existem continuam participando discretamente da vida dos vivos. Não estão mais aqui, mas permanecem numa expressão que repetimos sem perceber, numa história contada pela centésima vez, numa maneira de preparar uma comida, num conselho que só compreendemos muitos anos depois de tê-lo recebido.
Talvez seja também por isso que não podemos pensar em você apenas como uma propriedade individual. Povos também lembram. Sociedades também esquecem. E, quando esquecem demais, correm o risco de imaginar que aquilo que aconteceu nunca aconteceu — ou, ainda pior, que não poderia acontecer novamente.
Sem memória, cada geração poderia começar o mundo com a perigosa inocência de quem acredita estar cometendo erros inéditos. Guerras seriam apenas guerras. Perseguições não teriam antecedentes. Vítimas desapareceriam duas vezes: primeiro quando fossem destruídas, depois quando deixassem de ser lembradas.
Por isso construímos monumentos, preservamos fotografias, escrevemos livros, guardamos cartas, registramos testemunhos. São maneiras de prolongá-la para além da duração de uma vida.
Talvez escrever seja também isso: uma pequena rebelião contra o desaparecimento.
Mas existe outra razão pela qual precisamos de você. Sem memória não existe identidade. Somos feitos não apenas daquilo que somos agora, mas de tudo aquilo que fomos deixando pelo caminho: a criança que já não existe, o jovem que acreditava saber muito mais do que sabia, as escolhas que nos trouxeram até aqui, os lugares de onde partimos, as pessoas que atravessaram nossa vida e deixaram alguma coisa antes de seguir adiante.
Apagar tudo o que doeu poderia parecer uma bênção. O problema é que talvez não fosse possível apagar apenas isso.
Para eliminar as cicatrizes, teríamos de apagar também parte das histórias que as produziram. Não se pode conservar inteiramente o amor e eliminar a possibilidade da saudade. Não se pode guardar todos os encontros e abolir todas as despedidas. Você não nos oferece esse privilégio.
E talvez seja melhor assim.
Porque há uma injustiça que cometemos frequentemente com você: lembramo-nos de sua existência principalmente quando traz de volta aquilo que gostaríamos de esquecer. Raramente agradecemos pelo contrário.
Pelas pessoas que amamos e ainda podemos reencontrar mesmo quando estão longe. Pelos filhos que cresceram, mas que você nos permite visitar quando ainda eram pequenos. Pelos amigos, pelas viagens, pelas descobertas, por certos dias que terminaram há muito tempo e, no entanto, continuam disponíveis em algum lugar dentro de nós.
Talvez uma vida não seja feita apenas do que conseguimos viver, mas também do que conseguimos conservar daquilo que vivemos.
Você nos oferece, nesse sentido, um privilégio extraordinário: algumas coisas acontecem uma vez e podem ser vividas muitas.
Não exatamente como foram. Você já nos ensinou isso. A lembrança modifica, escolhe, acrescenta, apaga. Ainda assim, alguma coisa permanece.
E talvez seja suficiente.
Existe, porém, uma forma de esquecimento diante da qual todas as pequenas falhas que lhe atribuímos parecem insignificantes.
Um dia, para algumas pessoas, não é apenas um nome que desaparece ou uma data que se confunde. As gavetas começam a se esvaziar. Rostos familiares deixam de encontrar seus nomes. Lugares conhecidos tornam-se estranhos. Histórias contadas durante uma vida inteira perdem o caminho de volta. Pouco a pouco, aquilo que fomos deixando dentro de você começa a desaparecer.
Chamamos isso de demência.
Talvez poucas coisas revelem de maneira tão cruel a sua importância.
Passamos a vida desejando esquecer algumas lembranças: as humilhações, os fracassos, as perdas, as pessoas que nos fizeram mal, os dias que gostaríamos de retirar de nossa biografia. Mas, quando a memória começa realmente a desaparecer, percebemos que não existem apenas lembranças dispensáveis.
Porque somos também aquilo que doeu.
Somos os amores e as separações, os acertos e os erros, as alegrias e os arrependimentos, aquilo que gostaríamos de repetir e aquilo que juramos nunca mais fazer. Retire tudo isso e talvez ainda permaneça um corpo, uma voz, um nome. Mas alguma coisa essencial começa a faltar.
Por isso, querida Memória, retiro parte das minhas reclamações.
Continue desorganizada. Confunda algumas datas. Esconda um nome de vez em quando. Traga de volta, se for inevitável, algumas pessoas que eu preferiria esquecer.
Mas fique.
Porque o pior não é carregar uma vida com lembranças boas e ruins.
O pior é vê-las desaparecer e deixar, no lugar de uma vida vivida, apenas o vazio de uma vida que já não conseguimos lembrar que foi nossa.
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, democracia, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, e prepara o lançamento de seu novo livro, A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim). Mais em www.davidgertner.com
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