A Ilusão da Borracha: Por que o Passado não Pode ser Editado
- David Gertner

- há 3 horas
- 2 min de leitura

Há momentos em que o passado parece um quarto fechado. A porta está trancada, as luzes apagadas, mas algo ali dentro continua respirando. Dorme, talvez. Ou apenas espera.
Chamamos isso de memória.
A ideia de “passar uma borracha” no passado seduz porque promete alívio. Apagar dores, culpas, perdas, erros. Recomeçar sem peso. Como se a vida pudesse ser editada — um parágrafo cortado, uma página arrancada, um capítulo esquecido.
Mas o passado não é um texto externo. Ele habita o corpo, o afeto, o modo como olhamos o mundo.
Algumas memórias adormecem com o tempo. Não porque desapareceram, mas porque perderam o poder de nos comandar. O que antes doía deixa de ocupar o centro. O que definia já não define. Não é esquecimento — é deslocamento.
Outras, no entanto, não aceitam a borracha.
Apenas fingem dormir.
São experiências que se infiltram no presente: nas reações automáticas, nos medos difusos, nas culpas sem nome, nos silêncios que se repetem. Quando tentamos apagá-las à força, retornam de forma mais opaca — e mais insistente.
O erro não está em lembrar.
Está em acreditar que esquecer é apagar.
O que não pode ser apagado precisa ser integrado.
O que não pode ser esquecido precisa encontrar um lugar na narrativa — ainda que imperfeito, ainda que fragmentado.
A fantasia do recomeço absoluto costuma ser uma armadilha. Não queremos apagar o que aconteceu. Queremos apagar o que sentimos. Mas sentimentos ignorados não desaparecem. Apenas mudam de forma.
Talvez a pergunta não seja se é possível passar uma borracha no passado, mas como deixar de ser governado por ele.
Não se trata de rasgar páginas, mas de reler com outra maturidade.
Não de negar feridas, mas de impedir que elas escrevam sozinhas os próximos capítulos.
Há memórias que continuarão ali, respirando no quarto escuro. A diferença é se entramos em pânico ao ouvi-las — ou se aprendemos, pouco a pouco, a abrir a porta sem medo.
Amadurecer talvez seja isso: não apagar o passado, mas aprender a caminhar com ele sem se perder.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
Sobre o autor
David Gertner, Ph.D. pela Northwestern University, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tecnologia, silêncio, tempo e a condição humana no mundo contemporâneo. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David.


















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