A roda reinventada?
- Luiz Inglês

- há 6 dias
- 3 min de leitura

Não sei bem porque mas buscamos soluções sempre baseadas na intenção de ir além do já conhecido. Lembro de meu pai com um canivete abrindo uma laranja para chuparmos. Começava no topo da laranja e ia circundando a fruta até chegar ao fundo, tentando não cortar a casca sinuosa que ia se formando. Quando terminava sorria confiante como só um expert faria.
Para mim era o máximo! Meu pai descascava laranjas com paciência e destreza até chegar ao final com a casca fina e comprida que se enrolava toda. As meninas jogavam a casca no chão por trás dos ombros e a letra que se formava seria a do ente amado. Carlos? Samuel? Osvaldo? Tudo dependia da imaginação das gurias. Mas se a paixão fosse um Tadeu ou Manoel, dificilmente a casca da laranja formaria aquelas letras...
Com o advento da Internet, surgiram diversas maneiras de se abrir uma laranja. Todas criativas, manuais ou com aparelhinhos elétricos modernos. Mas sempre a casca ficava fina (ou grossa) demais ou a lâmina escapava e o processo tinha que ser repetido. O método do meu pai era imbatível.
Até que um dia, na casa de um vizinho aqui na roça, onde moro, meu amigo me aparece com várias laranjas limas – que eu adoro – e começa a cortá-las para chuparmos as frutas. Para minha surpresa, com uma faca maior que o pequeno canivete do meu pai, ele rapidamente fez dois cortes cruzados no topo da fruta (como um X) e separa quatro gomos lembrando o sorriso do gato na árvore do filme Alice, de Walt Disney. Com os dois polegares em cada ponta do gomo, apertando com os indicadores,faz um rápido gesto para baixo e libera instantaneamente aquela porção da fruta. Voilá! Prontinha para saborearmos! Meu querido pai ainda estaria começando a rodear o topo da fruta na sua paciente execução para não dividir a casca em dois pedaços. Perdeu o encanto? Sim, mas a rapidez da execução de uma manobra tão antiga me surpreendeu.
De outra feita fui tomar um expresso na sorveteria da cidade, único local onde se saboreia um machiatto mas tinha dado um problema na máquina e todos os clientes ficamos sem nosso expresso. Corremos para a padaria onde saboreamos um café coado saídinho na hora e ainda veio com um pão de queijo recém saído do forno. Mais um exemplo que às vezes a roda não precisa ser reinventada.
Tempos depois outro exemplo veio me confirmar que temos que dar atenção à experiência dos que vieram antes de nós. Vejo, por exemplo, os tais “neo-rurais” (falo sem pudor pois já fui um deles) com suas certezas. Neo-rurais são aquelas pessoas que se encantaram com a vida na roça e vem para a zona rural, cheias de certezas aprendidas no Globo Rural, na Internet ou em conversas na beira da piscina de alguma casa de campo. Sem desmerecer pois, como já disse, já fui uma dessas pessoas, mas os neo-rurais são importantíssimos pois este é o primeiro estágio de quem entendeu o verdadeiro caminho que é sair da cidade grande e se estabelecer em cidades pequenas para dividir seu expertise com a comunidade carente de soluções.
Mas vamos ao exemplo. Vejo as construções das casas com seus lindos gramados e jardins. A intenção é manter aquele tapete verde bem cuidado, espelhando a beleza e o capricho dedicado. Os caminhos que rodeiam são bem acabados com sinuosidades elegantes através de lajotas de pedras bem arquitetados e planificados.Tudo lindo, só que, os funcionários não seguem esta premeditação de andarilho que o patrão dispõe em seus fins de semana de lazer. O jardineiro, o caseiro e qualquer um busca a linha reta, já que é a menor distância entre dois pontos. Aí fica aquele belíssimo gramado com uma trilha de terra batida em linha reta atravessando o espaço, entregando o caminho natural e óbvio.
Aproveitando a deixa me veio à lembrança uma história que me foi contada recentemente. Um neo-rural empolgado com a beleza da propriedade recém-adquirida, trouxe engenheiro, e agrimensor mais dois peões. Saltaram da pick-up comprada para esta nova etapa da vida e começaram a trabalhar e transportar equipamentos para o alto do morro. O funcionário local que tomava conta do terrenos admirado com tanta azáfama, se chegou perto do novo patrão e perguntou o que significava tudo aquilo. “Ora Tião, é para traçar a estrada que vou fazer, por que?”. O funcionário tímido respondeu meio sem graça: “É proque aqui, nóis solta o burro e vai atrás”.
Como disse, às vezes não dá para reinventar a roda.
Luiz Inglês
Abril 2026
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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