Da criptoarte ao metaverso: ecossistemas museais interativos e o Museu XYZ
- Redação

- há 5 horas
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Menos de dez anos depois de William Gibson, em seu emblemático romance Neuromancer, ter incluído em nosso vocabulário o ciberespaço, outro expoente do cyberpunk, Neal Stephenson, apresentou-nos, em 1992, no romance Snow Crash, ao metaverso — um mundo de realidade virtual.
A visão de Stephenson de um mundo digital completo dialogou com uma geração de codificadores, implementadores de ambientes virtuais, artistas e pensadores na imaginação de uma versão do metaverso para além da ficção. Na perspectiva de ambientes virtuais imersivos de diferentes configurações, que estabelecem interações humanas em seus aspectos sociais, culturais e econômicos, estaríamos caminhando a passos largos em direção ao metaverso registrado na ficção científica?
"Ele não está vendo pessoas de verdade, claro. Isso é tudo parte da ilustração em movimento desenhada por seu computador segundo especificações transmitidas pelo cabo de fibra óptica. As pessoas são programas de software chamados avatares. Elas são os corpos audiovisuais que as pessoas utilizam para se comunicar umas com as outras no Metaverso." Snow Crash.
Em Snow Crash, o acesso ao metaverso se dá via avatares. Além do metaverso, Stephenson foi responsável pela popularização do uso do termo avatar para designar corpos virtuais online. Em um mundo com uma reorganização social em corporações e franquias, o avatar torna-se recurso fundamental para a navegação entre contextos sociais singulares. Esse panorama e imaginário apresentados por Stephenson eclodem novamente em 2020.
A aceleração digital impulsionada pela pandemia de COVID-19 transformou radicalmente a interação social e cultural, mediada por experiências em ambientes digitais e impondo novos desafios aos museus e espaços culturais. Nesse contexto, emergiu o conceito de metaverso não apenas como uma plataforma tecnológica, mas como um novo modo de experimentar e viver em sociedade, onde a persistência e a interoperabilidade de mundos virtuais 3D permitem um senso de presença e continuidade de dados.
A ideia de metaverso traz uma mudança na forma como a arte é criada, curada e experienciada, criando espaços virtuais imersivos e interativos que transcendem as limitações dos ambientes físicos tradicionais.
O Museu XYZ, uma iniciativa brasileira criada no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Mídias Criativas da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2021, é um museu nativo digital pioneiro.
O museu utiliza os mundos virtuais para superar os limites físicos de museus e exposições e abrigar a arte digital em blockchain (criptoarte), Non-Fungible Tokens (NFTs), em códigos, algoritmos e outras experimentações computacionais, além de tecnologias como XR (Realidade Estendida), Inteligência Artificial (IA) e ferramentas da Web3, permitindo que a instituição, seus artistas e coletivos repensem a criação e o acesso à arte na cultura digital.
O Museu XYZ foi concebido, a partir da pesquisa-criação, como um espaço virtual para experimentação em arte, educação e cultura digital brasileiras. A pesquisa-criação desafia as formas tradicionais de produção, integrando componentes estéticos experimentais, trabalhos artísticos ou processos criativos nos resultados da pesquisa, sendo frequentemente associada à experimentação em novas mídias.
O museu tem operado por meio da colaboração entre artistas e coletivos desde o seu início, configurando-se como um distrito criativo que fortalece a comunidade de arte digital do Brasil, com diversos artistas brasileiros distribuídos por vários países.
Para estruturar os processos colaborativos do Museu XYZ, trabalhamos com o estudo Collective Wisdom: Co-Creating Media for Equity and Justice, desenvolvido pelo MIT Open Documentary Lab sob a liderança de Cizek e Uricchio. Esse estudo desafia a noção romântica do autor solitário, propondo a cocriação como uma alternativa ética e prática para a produção de mídia em um mundo complexo.
A atuação do museu configura-se a partir de três núcleos:
exposições, festivais e eventos;
educativo;
acervo e memória.
As exposições articulam um ecossistema curatorial distribuído que, a partir de 2022, passou a combinar, no Distrito XYZ, a Galeria Genesis — acervo dos pioneiros da criptoarte brasileira — com espaços de artistas e coletivos residentes.
No âmbito do Museu XYZ, a cocriação é analisada em três eixos principais, adaptados do modelo do MIT: a cocriação dentro da comunidade, onde se estabelece uma relação simbiótica em um processo de reunião e escuta com o movimento CriptoArteBr e coletivos diversos; a cocriação entre disciplinas, a partir da dissolução das fronteiras entre o arquiteto, o artista, o programador, o curador e o educador — no metaverso, tanto artistas e pesquisadores quanto os "metarquitetos" atuam como curadores do espaço e designers de interação, propondo a experimentação com tecnologias emergentes em uma relação obra-processo; e a cocriação com sistemas não-humanos, que reconhece que a cocriação no metaverso envolve uma parceria com algoritmos, IA, dispositivos generativos, plataformas e infraestruturas tecnológicas de programação e modelagem, que impõem regras e agências sobre o resultado criativo.
A partir desses três eixos, constatamos a mediação como ação política e pedagógica, com desdobramentos em processos de literacia midiática e no "onboarding" de artistas em tecnologias emergentes. A mediação como ação política traz a ideia de mediação militante, ou seja, o papel desempenhado pelas instituições como locais de aprendizagem e como protagonistas da aproximação entre arte e públicos — e, no caso do Museu XYZ, entre arte e cultura digital a partir do uso de tecnologias emergentes como IA e XR.
A atuação é orientada por critérios de acesso, persistência, participação e democratização, e por experiências síncronas de mediação e formação. Esse arranjo busca ampliar o alcance e o engajamento, consolidando o Museu XYZ tanto como distrito criativo quanto como laboratório criativo.
A criação do Distrito XYZ permitiu a implementação de uma lógica de "vizinhança planejada" ou "bairro criativo": as galerias não estão isoladas; elas compartilham pátios, passarelas, programação, eventos e áreas de convivência.
Distrito XYZ - https://www.youtube.com/watch?v=LJkD70x30tI
O acervo e a coleção do museu são pensados em duas perspectivas: como patrimônio contemporâneo digital e memória, e como o próprio design das exposições do museu enquanto obra artística e acervo. O Museu XYZ abriga e incuba coletivos, fomentando processos que primam pela curadoria descentralizada, por mais criatividade e mais diversidade. Esse ecossistema curatorial funciona como um "minitutorial" para quem quer entrar nesse universo.
Vinculada a esses aspectos, destaca-se a ideia de que várias das exposições do Museu XYZ são em si criações em NFT, cuja modelagem é livre para ser recriada a cada exibição ou até mesmo durante sua realização. Cada projeto expositivo traz sua configuração estética desenvolvida a partir da experimentação criativa, artística e tecnológica.
Estamos trabalhando nas frestas e na tecitura de ideias, buscando "condensar fatos a partir dos vapores de nuances", como diria Juanita para Hiro na ficção de Stephenson (1992). O Museu XYZ busca a construção de novas relações a partir de processos mais justos, que incluam e fortaleçam as pessoas, as comunidades e seus bens artísticos e culturais.
Como plano em desenvolvimento, o Museu XYZ avança no eixo de investigação com a próxima exposição na plataforma WebXR Hyperfy, onde um novo Distrito XYZ está sendo construído explorando novas capacidades de interatividade por meio de Inteligência Artificial (IA), XR, avatares e outras funcionalidades e tecnologias que a plataforma oferece.
A arte digital oferece um terreno fértil para repensar a criação, a propriedade intelectual e as experiências culturais compartilhadas, impulsionando uma nova era de museus interativos. É possível pensar, a partir dos artistas, coletivos e sistemas, em uma autoria em rede, ou ainda em autorias distribuídas.
O Museu XYZ torna-se, assim, um ecossistema dinâmico que não apenas exibe, mas também atua política e culturalmente, reinventando o museu como uma plataforma aberta, comunitária e em constante transformação para a era digital, onde o futuro da arte digital brasileira se constrói junto.
Visite, explore e colabore: museu.xyz
Ana Cunha , Marlus Araujo e Marcio Hirokazu Shimabukuro (Shima)
Ana Cunha é doutoranda em Engenharia de Produção (PEP/COPPE/UFRJ), mestre em Mídias Criativas (PPGMC/ECO/UFRJ) e em Bens Culturais e Projetos Sociais (CPDOC/FGV/RJ), com especializações em Gestão Cultural (Itaú Cultural/Unesco). Atua no desenvolvimento de projetos e programas que articulam arte, tecnologia, educação e memória. Gestora cultural do Museu XYZ.
Marlus Araujo é artista e pesquisador, mestre em Mídias Criativas (PPGMC/ECO/UFRJ). Autor do relatório Metaverso, Sítios 3.0 e Economia em Mundos Virtuais Persistentes (diVerso/ITS Rio), atua na interseção entre arte digital, mundos virtuais e NFTs. Um dos fundadores do movimento CriptoArteBr e diretor criativo do Museu XYZ.
Marcio Hirokazu Shimabukuro (Shima) é artista e gestor cultural, com formação em Desenho Industrial e pós-graduação em Gestão Cultural Contemporânea. Polímata indígena uchinanchu nipo-brasileiro, realiza encontros formativos de pesquisa, produção, curadoria e crítica em Arte Contemporânea para ações afirmativas. Gestor cultural e de comunicação do Museu XYZ.
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