Raízes que Nos Sustentam, Asas que Nos Elevam
- David Gertner
- há 13 horas
- 3 min de leitura

Há uma frase que atravessa o tempo como se fosse antiga como as árvores: dar aos filhos raízes e asas. Costumam atribuí-la a Johann Wolfgang von Goethe, embora talvez ele nunca a tenha escrito. Algumas ideias sobrevivem porque cabem dentro de muitas vidas.
Sou filho caçula.
Minhas raízes não foram lugares. Foram pessoas.
Meu pai me ensinou integridade — não como discurso, mas como postura. Havia algo inegociável em sua maneira de atravessar a vida. Certas linhas não se cruzavam. Certas escolhas não se faziam.
Minha mãe ensinou dedicação e amor à família, não como sacrifício, mas como escolha diária. Um tipo de presença que não precisava de anúncio.
Meu irmão mais velho me mostrou uma generosidade silenciosa — daquelas que não procuram reconhecimento.
Minha irmã mais próxima sempre foi sinônimo de apoio e lealdade. Uma presença firme, constante, sem teatralidade.
Essas foram minhas raízes.
Não me prenderam ao solo.
Deram-me chão.
Depois eu parti.
Uma mala. Um aeroporto. Um idioma que não era o meu. A sensação física de estar longe. O passado ficou em outro território — mas aquilo que era essencial viajou comigo.
Descobri que raízes verdadeiras não dependem de geografia. Tornam-se consciência. Tornam-se critério. Tornam-se limite interno.
E então vieram meus filhos.
Também criaram asas. Também partiram. Escolheram caminhos próprios, horizontes próprios. São independentes. Procuram-nos pouco — como é natural quando o voo é autêntico.
Há um momento delicado na vida de todo filho — quase sempre na adolescência — em que precisa deixar de ser como nós para descobrir quem é. Imitam primeiro. Depois negam. Questionam. Desmontam. Às vezes rejeitam aquilo que fomos.
É doloroso. Mas é necessário.
Ninguém constrói identidade permanecendo réplica.
O que sempre desejei era simples — e exigente: que fossem melhores do que eu.
Mais amplos.
Mais preparados.
Mais livres.
Que suas asas crescessem além das minhas.
Que alcançassem alturas que não estiveram ao meu alcance — ou sequer no meu sonho.
E quando os vejo tão longe — geograficamente, existencialmente — procuro as raízes.
Procuro na ética com que escolhem.
Na humanidade com que se posicionam.
Na solidariedade discreta.
No desejo de contribuir para tornar o mundo um pouco melhor.
E ali reconheço o que foi plantado.
As raízes não ficaram no solo da minha infância.
Viajaram comigo.
E agora viajam com eles.
Talvez esse seja o destino mais sereno da paternidade: aceitar que a proximidade diminui, que o protagonismo muda, que o centro se desloca.
Raízes são o que permanece quando já não somos referência constante.
Asas são a prova de que fizemos o suficiente.
No fim, não se trata de manter os filhos perto.
Trata-se de saber que, mesmo longe, carregam dentro de si um chão invisível.
E que esse chão — se for sólido — sustenta qualquer voo.
David Gertner, Ph.D.
Professor aposentado e Ph.D. pela Northwestern University, é escritor e ensaísta. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, prepara dois novos livros com lançamento previsto para breve. Escreve sobre identidade, memória, ética e a condição humana.
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