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OLHOS


Já não sabia mais quantas vezes tinha lido Dom Casmurro. Sabia diversas partes de cor, mas fazia questão de reler. Mais que isso: sabia que ainda o leria de novo e de novo.


No frenesi da leitura, já tinha condenado e absolvido Capitu em inúmeras ocasiões, a depender do estado de espírito no momento da leitura. Aquilo tinha se tornado um misto de obsessão e terapia. O que atraía e atormentava Loreta, no entanto, não era a dúvida clássica dos leitores do romance. O que inquietava seu cérebro a cada leitura eram os olhos de ressaca da protagonista.


Vivia o permanente impasse de julgar se a ressaca dos olhos era aquela derivada de uma bebedeira da véspera, com os consequentes olhos cansados e as indefectíveis olheiras, ou a ressaca do mar agitado, que se refletiria em olhos com vigor, brilho e alguma fúria. O extremo oposto.


Divagava sobre a interpretação de Machado de Assis às seis da manhã de uma segunda-feira, enquanto tentava se arrumar para ir ao trabalho. O vestido amarfanhado da noite anterior era a testemunha silenciosa do porre que só terminaria — se é que terminaria — agora, no despertar. Sabia qual era a sua ressaca naquela hora. A de Capitu é que ainda suscitava dúvida.

Precisava se recuperar durante o café da manhã para voltar à vida normal.


Ao contrário de Capitu, não tinha um Bentinho para si. Sentia-se livre, desimpedida e tinha um círculo próximo de cinco amigos homens, com os quais podia ou não, se quisesse, estabelecer relações mais íntimas. Mas não era a regra. Diante deles, não raro comportava-se fazendo vista grossa para uma ou outra atitude machista. Quando passavam do ponto, ela os repreendia, mas era mais tolerante com eles do que com machistas desconhecidos ou não tão próximos.


Sabia-se desejada, e a forte amizade permitia que falassem disso abertamente. Mas também sabia que o estabelecimento de um vínculo com algum deles podia fazer balançar a relação com os demais. Era uma mulher entre um bando de homens amigos, solteiros e jovens. Nunca tinham se afastado desde a faculdade de engenharia. Reconhecia que ela mesma tinha ciúmes quando um dos amigos arranjava uma namorada e entendia o que eles sentiam quando ela se envolvia com alguém, mesmo que fosse um deles. Homens...


Naquela manhã, sentia o tempo passar mais rapidamente do que o normal. Os movimentos lentos, apesar de certa agilidade mental, tinham no relógio o seu principal inimigo. A cada minuto, via mais distante a possibilidade de chegar na hora marcada. Agora já admitia mesmo faltar ao compromisso. A partir de certo momento, sentia as duas ressacas em si. Os olhos baixos espelhavam o corpo cansado, mas a mente fervia em formulações diversas. A noite tinha sido muito mais que um porre com os amigos. Tinha saído diferente daquele encontro.


Juntaram-se para pensar, em conjunto, um projeto apresentado a ela por um amigo arquiteto. Amigo, mas não tão próximo quanto o pequeno "núcleo duro", como ela e os parceiros apelidaram a si mesmos ainda na faculdade. O projeto era muito desafiador, e a confiança mútua que tinham era a chave para o sucesso. Acreditava que, sozinha, não daria conta. E aproveitaria a reunião para contar um segredo que vinha guardando dos amigos há alguns meses.


Reuniram-se no apartamento do Bosco, que era maior e mais equipado.

Discutiram, discordaram e concordaram em muitos pontos, avançaram sensivelmente na concepção dos cálculos do projeto, mas sem chegar a um consenso final.

Só então começaram a beber e celebrar a amizade, como sempre faziam quando estavam juntos. Em mais alguns encontros terminariam tranquilamente o projeto, que era complexo e extenso, mas não era urgente: a duplicação de uma ponte e o reforço estrutural do trecho existente. Eram todos reconhecidamente competentes para participar da empreitada.


Um pouco de história:

Bosco vinha de uma família rica. Foi contra a vontade dos pais que decidiu estudar na universidade federal. Eles consideravam aquilo um antro. Era particularmente culto e tinha viajado por grande parte do mundo quando apareceu na turma, de cabelo raspado e chinelo de dedo. Nunca perdeu o hábito dos chinelos, encheu-se de tatuagens e se negou a assumir a empresa de engenharia do pai. Com o peso do sobrenome, montou a sua própria. Só calçava sapatos ou botas se precisasse visitar uma obra ou viajar para encontrar um cliente. No escritório, vestia-se como se tivesse acabado de chegar da praia. Mantinha algumas roupas para emergências. E não eram muitas. Nem as roupas nem as emergências, para sorte dele. O grande apartamento foi comprado sem a ajuda dos pais, depois dos primeiros grandes projetos de que participou.


Vito era amigo desde o colégio. Foi Loreta quem o convenceu a estudar engenharia. Ele queria matemática pura. Não gostava de praia; seu negócio era futebol, churrasco e cerveja. Era um suburbano convicto e, mesmo depois do sucesso profissional, seguia morando onde nasceu, num bairro da Zona Norte considerado distante pela maior parte dos amigos. Tinha se especializado em grandes obras de infraestrutura e era muito requisitado pelas grandes empreiteiras. Tinha sua assinatura em hidrelétricas, pontes, túneis e aeroportos.


Lucas era do interior. Criado na fazenda, quando chegou à universidade quase foi vencido pela timidez e pela sensação de não pertencer àquele universo. Foram longos meses de adaptação até conhecer Loreta, que sempre foi popular. Esbarraram-se em uma aula prática e nunca mais se descolaram. No fim, acabou especializado em concreto e, a exemplo dos outros, montou empresa e resolveu trabalhar sozinho, prestando serviços a outras empresas ou governos. Adorava essas propostas da Loreta. Para ele, eram como os trabalhos em grupo do tempo da faculdade. Vencida a timidez, ia sempre bem nas apresentações.


Marcelo vinha da favela. Criado num morro da Zona Sul, escapou da miséria pela educação. Passou a vida no gueto, mas levou a escola a sério. Foi assediado pelo tráfico, pela polícia e pela igreja. Escapou de todos e topou o desafio de se formar. Fez cursinho na ONG do morro, vendeu picolé na praia ainda adolescente, jogou futebol e quase se profissionalizou, mas um joelho não deixou. Ficou amigo de todos rapidamente. Era "safo", inteligente e comunicativo. Foi o primeiro namorado de Loreta na faculdade. Tornou-se engenheiro de uma multinacional e fazia longas viagens ao exterior para construir terminais logísticos. Mas também passava longas temporadas em casa, o que possibilitava os trabalhos com Loreta.


Por fim, Hugo era diferente de todos. Além de engenheiro, era artista plástico, mas um gênio da gestão de projetos e braço direito de Loreta quando ela aparecia com uma dessas propostas. Veio da caatinga, do interior de um estado nordestino. Perdeu cedo os pais e teve na educação o consolo de que precisava. Não quis voltar a seu estado natal por causa das lembranças tristes. Acabou ficando e montando um escritório de gestão que se tornou muito requisitado.


Sua casa era um consulado nordestino, com comidas, artesanato, roupas, quadros e cheiro de Nordeste. Era lá que todos se reuniam para comer um baião de dois, uma galinha à cabidela ou uma boa moqueca baiana. Quando ficava nervoso, o sotaque e o vocabulário vinham fortes, como se estivesse cortando mandacaru para dar às cabras.


A chegada de cada um para a apresentação do projeto foi curiosa. Loreta chegou ao apartamento do Bosco num momento em que ele próprio não estava lá, mas tinha deixado a chave com o porteiro.


Ela subiu e aguardou. Então chegou Vito. Não se viam havia algum tempo, e o abraço — e, mais ainda, o olhar que trocaram — foi de encanto. A ponto de ambos se sentirem surpresos com o que aconteceu. Hugo também chegou, e Loreta foi fazer as honras e abrir a porta. Novo olhar impactante. O clima era visivelmente estranho. Quando Bosco chegou, voltando do mercado com pães e queijos, os três pareciam diferentes. E ele foi o terceiro a sentir o poder daquela troca de olhares. Claro que o mesmo aconteceu com Lucas e Marcelo. A sensação de inadequação dominava o ambiente, sem que cada um soubesse o motivo do outro. Apenas Loreta imaginava estar entendendo alguma coisa, sem certeza. Mas, nesse mesmo momento, já com os cinco no local, abriu um sorriso ao receber uma mensagem de texto que não mostrou aos outros. Havia alguma coisa diferente naquele encontro, naquele dia.


Depois de atualizarem a conversa, contarem pequenos acontecimentos recentes, rirem um pouco, houve a apresentação da ideia do projeto e os primeiros rascunhos e discussões. Só então abriram a primeira garrafa de vinho.


Tinham tomado duas quando Loreta encontrou Vito na porta do banheiro principal, e ele disse que tinha uma coisa importante para lhe dizer, mas que não podia ser ali.

Na cozinha, cruzou com Bosco, que falou alguma coisa parecida.


Hugo, discretamente, fez o mesmo num momento em que os outros saíram da sala para ver uma cena pela janela do quarto de Bosco.

Marcelo, já meio bêbado, cochichou sua frase no ouvido dela, cuidando para que os outros não ouvissem.


Lucas era um caipira bom de pinga, mas às vezes o gatilho da timidez era acionado. Foi o caso. Colocou sorrateiramente no bolso de Loreta um bilhete com o que queria dizer. Exatamente o que os outros tinham dito.


Beberam até quase perderem os sentidos, embalados por um desconforto coletivo que cinco pessoas ali consideravam individual.


No final, apesar de seu incômodo multiplicado por cinco, Loreta era a pessoa menos bêbada naquele lugar. O suficiente para colocar quatro deles em diferentes carros de aplicativo, rumo de casa, e colocar Bosco na cama antes de sair. Cada um deles recebeu uma mensagem de WhatsApp, escrita com dificuldade, sob o efeito de muito vinho, marcando a próxima reunião e avisando que estavam todos convidados para o seu casamento com Estela, colega que ela conheceu num curso de cálculo estrutural que fez no Canadá.


Naquela manhã de segunda-feira, outros dez olhos de ressaca talvez vertessem lágrimas.

Ou talvez sorrissem.

O que se sabe é que nada seria mais como antes.


Rio de Janeiro, julho de 2026.


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