ALEMANHA
- Leo Viana

- 18 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 21 de mai. de 2025

Saí da Alemanha pela terceira vez há alguns dias. Na primeira vez, em 2007, fomos de Bruxelas comprar equipamento de áudio em Colônia. Na segunda, em 2016, fui com os amigos beber cerveja na Oktoberfest de Munique . Nesta terceira fui ao extremo norte levar mamãe pra visitar uma prima querida. Pra quem, como eu, nasceu na segunda metade do século XX, não é pouca coisa. Como quem me conhece sabe, não sou historiador, mas cometo umas análises, muitas vezes equivocadas, nesse campo. Vamos lá! A Alemanha, não é segredo pra ninguém, foi talvez o que houve de pior na primeira metade do século XX. O pangermanismo do início do século a levou a criar confusão com todos os vizinhos mais próximos e à óbvia, mas sofrida, derrota em 1918. Alguns anos depois o psicopata de bigodinho, cujo nome não precisamos citar, fez o que fez, incluindo o inominável holocausto, também na defesa de um maior “espaço vital” para o “desenvolvimento” do povo alemão.
E olha que é a terra de Hegel, Marx, Heidegger, da Escola de Frankfurt, da Bauhaus e de outros ícones formadores do que há de melhor na sociedade planetária...
Os movimentos colonialistas, no entanto, nem sempre tiveram essa forma.
O Império Romano, e eu começo nele pra não criar uma linha do tempo grande demais, começou pelas beiradas, mas se entendeu até regiões distantes, numa ânsia territorial e cultural sem fim, só contida depois de muito por Aníbal e seus elefantes de guerra (antepassados, pra mim óbvios, dos tanques: corpo forte e uma tromba...) e pelos visigodos e ostrogodos que vieram do norte e do leste, com técnicas novas de guerra e línguas muito estranhas, capazes de confundir definitivamente a futura italianada, que já devia falar alto e gesticulando naquela época.
Muitos anos depois, Portugal e Espanha abriram os olhos para o Atlântico, deram a volta na África e pegaram pra si a América, a costa da África, o Índico e outras partes do mundo, no que foram seguidos por Inglaterra e França, que um pouco mais tardiamente, também saíram explorando gente e terras em outros continentes. A Holanda foi um pouco menos incisiva neste campo, masnão deixou de tomar o Suriname ali no limite entre o caribe e a Amazônia e de mandar muita gente pra África do Sul, inclusive pra iniciar o apartheid. A Alemanha, apesar das desgraças que fez depois, na contemporaneidade ficou praticamente só com a mal sucedida colonização da Namíbia, que teve entre outras passagens trágicas, o genocidiodos povos hararo e nama, que resultou em mais de 70 mil pessoas mortas por soldados alemães entre 1904 e 1908.
A tardia investida da Alemanha no sudoeste da África, em busca de recursos naturais e poder geopolitico como todas as demais iniciativas colonizantes, não ofusca o padrão histórico alemão de, ao modo do império romano, investir principalmente na perturbação do sossego dos vizinhos, como fez nas duas grandes guerras do século XX.
De uns tempos pra cá, apesar do passado abjeto, que obviamente não inclui a totalidade de seu povo, as instituições alemãs e principalmente seus governos esforçam-se diuturnamente pra apagar a péssima impressão e minar a desconfiança do entorno, que em outra época sentiu o punhal germânico, geralmente pelas costas. A Alemanha de hoje foi mais rápida que o resto da Europa na mudança da matriz energética, o que inclusive a prejudicou por causa dos cortes russos do gás. De repente, a dispensa da energia nuclear ficou parecendo um tiro no pé. Não entendo assim! A visão dos grandesparques eólicos e das fazendas de energia solar me parecem um bom caminho. A ver...
Simultaneamente, foi o país que mais recebeu refugiados no continente, num momento especialmente marcado pela xenofobia, em que até portugueses, célebres pelas voltas ao mundo no século XVI, agora fazem biquinho para os estrangeiros que chegam (especialmente os mais pobres, claro!).
Como eu disse, não sou historiador, não sou cientista político e nem tampouco estrategista ou analista político, apesar da ousadia. Mas vejo, do alto da minha desqualificação, a Alemanha se mantendo no papel de puxadora da Europa por muito tempo.
Não me perguntem porque. Eu não sei. Também não tive nenhuma premonição. Na minha concepção absolutamente deformada, é simples: o passado menos colonialista da Alemanha – sem desculpa ou minimização por todas as merdas que eles fizeram – depõem a favor dela e a ajudam na capacidade interna de construir relações de estado mais sólidas que os vizinhos, com consequente reflexo na geopolítica europeia e mundial. Ou seja, fazem política – de maneira geral – tão bem quanto fazem motores.
Enfim. Saí vivo da Alemanha, fiquei muito contente por haver conseguido; vi uma festa bonita, inclusiva e diversa no Porto de Hamburgo, a cerveja lá é sempre excelente e recomendo a visita. Não me parece, sob nenhum aspecto, que eles tenham, como Estado, a intenção de provocar alguém como fizeram no passado.
Na dúvida, no entanto, é melhor ir ver logo.
Bruxelas, maio de 2025.
Um grande sambista: Didu Nogueira.
Mulheres no Samba, escute na Spotify / Cedro Rosa.


















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