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A Lua Ainda nos Espera

 David Gertner, Ph.D.
 David Gertner, Ph.D.

Houve um tempo em que o céu não era limite.

Era convite.


O homem olhou para cima — não para conquistar, nem para dominar —

mas para imaginar.

E imaginar, naquele momento da história, era um gesto coletivo.


Foguetes rasgavam o céu como setas de desejo.

Sputniks giravam em silêncio,

pequenos corações metálicos pulsando fora da Terra.

A Lua deixava de ser metáfora

e passava a ser destino.


Flutuar sem gravidade era mais do que um fenômeno físico.

Era promessa.

A suspeita de que talvez pudéssemos, por alguns instantes,

nos libertar do peso que sempre nos puxa para baixo —

o peso do medo, da repetição, da mesmice.


Quando o homem pisou na Lua,

não foi apenas um corpo que tocou outro solo.

Foi a imaginação humana que descobriu

que o impossível podia ser atravessado.


A Lua — morada de deuses, poetas e loucos —

recebeu pegadas frágeis, quase tímidas,

como quem pede licença ao mistério.


E então, voltamos.


Voltamos com rochas, fotos tremidas, transmissões em preto e branco.

Voltamos heróis por um instante.

Voltamos certos de que o futuro seria maior, mais ousado, mais alto.


Mas algo se perdeu no caminho de volta.


Seguimos avançando em tecnologia,

mas encolhemos no sonho.


Hoje lançamos satélites, sondas, algoritmos.

Mapeamos galáxias, calculamos órbitas, simulamos universos.

Mas já não falamos da Lua como promessa —

apenas como dado.


O espaço virou planilha.

O futuro, atualização.

A imaginação, um luxo improdutivo.


Onde foi parar aquela sensação de flutuar?

A coragem infantil de apontar para o céu e dizer:

“Vamos.”


Talvez os sonhos não tenham ido embora.

Talvez tenham sido empurrados para o fundo,

soterrados por urgências, por telas,

por um mundo que exige eficiência —

não assombro.


Talvez ainda estejam lá, orbitando em silêncio,

como antigos satélites esquecidos,

esperando que alguém olhe para cima sem pressa.


Porque viajar ao espaço nunca foi apenas sobre sair da Terra.

Foi sobre sair de nós mesmos —

das fronteiras mentais,

dos medos herdados,

da gravidade do “sempre foi assim”.


A Lua continua lá.

O espaço continua vasto.


E os sonhos…

talvez estejam apenas esperando

que a gente volte a chamá-los pelo nome.


Não para conquistá-los.

Mas para escutá-los.




David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade





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