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SUMIÇO



A família do Marinho era tão grande que havia uma dificuldade para a observação individual das crianças. Eram dezenas de primos, tios, todo mundo muito prolífico, tudo muito misturado. Casais com 5, 6, 7 filhos.


A casa dos bisavós, enorme e luxuosa, era o ambiente ideal para reunir aquele mundo de gente nas ocasiões especiais: batizados, casamentos, Natal. Não mais que isso, diante do risco de transformar o reduto dos velhinhos em casa de festas e fazer crescer o já notável descontentamento dos vizinhos, que, aliás, nem eram tão próximos.


Marinho era dos netos mais novos. Sua geração, a maior da família até aquele momento, já começava a ter filhos quando ele ainda entrava na adolescência.


Pois foi em um daqueles natais, em que se distribuía uma quantidade industrial de presentes e se agendava a programação do ano seguinte, quase como uma grande fábrica ou repartição pública, com filas, logística própria e gestão de pessoas, que alguém notou a falta de Marinho.


A casa, construída havia gerações, ficava no limite da cidade, junto a um grande parque natural, no final de um loteamento que a legislação ambiental atual não aprovaria. Por dentro do grande quintal, quase também um parque, passava um rio que descia da floresta e formava um pequeno lago, de onde saía a água que abastecia a piscina da casa, após uma filtragem simples. Um pequeno canal devolvia a água para o rio alguns metros abaixo. Atrás da casa, árvores centenárias marcavam o limite entre o grande lote e a floresta.


Importante dizer que, naquele Natal, Marinho já tinha completado 14 anos. Os pais eram herdeiros de impérios da construção civil: a mãe vinha da família da qual falamos aqui e o pai, de outro clã igualmente rico e igualmente numeroso.

Marinho era o caçula dos cinco irmãos de casa e um dos mais novos entre os primos. Na entrega dos presentes, na noite anterior, houve uma contagem informal das crianças, e todos estavam lá.


A manhã do dia 25 era geralmente uma caótica sequência de eventos. Os horários não eram coordenados, e a enorme sala de jantar, arrumada ainda durante a madrugada por empregados diligentes, mas levemente impacientes, começava a funcionar no início da manhã, com a atividade se estendendo até o início do churrasco, por volta das três da tarde.


Crianças e adultos acordavam em horários distintos; alguns iam embora cedo, outros alimentavam a esperança de permanecer por mais uns dias, o que era impedido pelos velhos moradores, que não gostavam de hóspedes fora dos já rumorosos eventos da família.


Com diversos turnos de café, ocorriam muitos desencontros, e era impossível para cada grupo saber exatamente quem já tinha passado pela sala ou comido o quê. Café, leite, ovos, pães, frutas, frios e queijos revezavam-se na mesa quase sempre cheia. Como em um hotel de alta rotatividade, apesar do requinte de talheres e cristais.


Os primos de Marinho, muitos adolescentes como ele, correram para a piscina logo após tomarem doses cavalares de iogurte e comerem uma impressionante quantidade de pães. Foram eles que notaram a falta de Marinho. Tinha virado tradição fazerem uma pirâmide humana, com os mais velhos embaixo e o caçula no topo. Marinho já não era mais o topo da pirâmide, mas, como era baixo e forte, ocupava um lugar importante.


Um dos mais novos foi ao andar dos quartos procurar e voltou sem notícia. Gritou pelo andar todo, bateu em todas as portas e não teve resposta.


No portão da mansão, um motorista desconhecido tocou a campainha, informando ter vindo buscar a sobrinha. Ela viera, apesar da resistência dos pais, passar a noite de Natal com um colega da escola: Marinho.


O empregado que abriu o portão era dos poucos que tinham notado uma adolescente diferente a mais na noite de Natal, mas não sabia nada ainda sobre o desaparecimento, que começava a causar algum rumor entre os primos, impedidos de completar a pirâmide.

Foi montada uma espécie de força-tarefa de primos, namorados e namoradas. A quantidade de cômodos da casa e de recantos no terreno obrigava a uma varredura detalhada. Os adultos foram informados, mas trataram como uma brincadeira de adolescentes, sem exceção. A avó apenas pontuou que, quando a fome batesse, ele reapareceria.


O motorista aguardava pacientemente na porta, sem aflição. Entendia que, numa casa daquele tamanho, chegar até o portão podia envolver algum tempo de deslocamento.

A demora começou a causar desconforto no motorista. O empregado também não voltava com alguma informação ou com a menina.


Um grupo de primos passou pelo portão, e o motorista os interpelou sobre a sobrinha e sobre Marinho. Disse que aguardava a garota. Os primos se entreolharam maliciosamente e, como também não tinham notado a namoradinha de Marinho, apenas disseram que estavam em busca do primo sumido.


O motorista não se desesperou, mas achou calma demais a atitude dos adolescentes.

Alguns adultos começavam a descer para a piscina, já na expectativa do início da movimentação para o churrasco, quando notaram que todos os adolescentes estavam empenhados na busca por Marinho.


Um primo de 17 anos, Alvinho, foi quem primeiro pareceu encontrar alguma pista. No portão de uma grande casa abandonada, no terreno imediatamente anterior ao da mansão da família, ele encontrou um dos cachorros dos bisavós. A casa tinha diversos cães, todos muito mansos e acostumados ao movimento de muita gente. O cachorro não teria saído sozinho. Os idosos mantinham todos sob estrita vigilância.


Como o loteamento já tinha um sistema de vigilância para todas as casas, com guaritas nas ruas e guardas que circulavam, a casa abandonada não era objeto de vigilância especial. Alvinho e a namorada entraram.


Na antecâmara da sala de estar, com vidros quebrados e móveis cobertos por uma poeira grossa, encontraram a menina sentada, com o olhar meio perdido. Na sala, Marinho, sem camisa e suando muito, sujo de fuligem e com teias de aranha no cabelo, olhava assustado para o primo e para o teto, alternadamente. 


Um certo ar de frustração também envolvia os dois adolescentes. A saída pela mata na madrugada envolvia desejos que acabaram não sendo consumados.

Chegaram de volta sob o olhar incrédulo dos primos e quase indiferente dos adultos. A menina foi fortemente advertida pelo motorista/tio, que prometeu não contar a seus pais, mas ficou nervoso.


Foi então que um dos tios mais novos — CEO precoce de uma das empresas da família e tido como conservador pelos mais velhos — desceu correndo dos quartos, de cueca e descabelado, gritando que haviam roubado seu envelope com LSD.

Os primos repetiram o risinho malicioso.Os adultos não prestaram atenção.E a vida continua.

Rio de Janeiro, abril de 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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