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Amor Divino e a Carne Metafísica


 Eleonora Duvivier
 Eleonora Duvivier

 

Quando eu tinha uns oito anos, minha família fazia as refeições com meus avós paternos, que moravam na casa ao lado. No fim de um daqueles almoços, eu mesma fui pegar a correspondência que tinha chegado do correio. Ao entregar o que era endereçado a meu avô, cheirei o envelope antes que ele o recebesse de mim. “Essa menina cheira tudo!” ele exclamou num tom de surpresa indignada. Só então, me dei conta de que realmente eu cheirava tudo com que tinha contacto físico.


Principalmente quando eram pessoas e animais de quem eu gostava. Era como se o tato por si só não me desse algo significativo daquele ser ou objeto, e fosse só um convite para que eu sentisse o seu cheiro e fosse mais dentro deles. Eu adorava esconder meu rosto no pescoço de minha mãe, sentir o seu calor enquanto respirava seu perfume. Chegava a visualizar uma piscinazinha azul-turquesa entre a saboneteira e o ombro dela, e queria ficar longos momentos sentindo-me diluir ali. Mamãe ficava meio impaciente. Dizia que eu grudava, igual a um chiclete. Como eu amava chiclete, a comparação não me ofendia.


Os gatos que tive resolviam a situação. Eu ficava respirando o cheiro deles como que comungando com todo seu ser, enquanto beijava suas barriguinhas redondas, ou suas cabeças. Chegava mesmo a botar o focinho deles dentro da minha boca por poucos segundos, e curtir os seus miados abafados. Sou alérgica a gatos e nem sabia. Pensava que os espirros constantes e a coceira no meu nariz que eles provocavam e atravessava os meus dias de manhã à noite era por causa de pelos que eu devia ter respirado.


Quando eu estudava filosofia, tive um namorado francês que era professor da mesma, mas em outra faculdade. Ele, que era facilmente irritável, uma vez me disse, no mesmo tom com que meu avô chamou a atenção da família para o fato de que eu cheirava tudo: “Ce que tu veux c'est la chair metaphysique, c’est ça!” (O que você quer é a carne metafísica, é isso!). Pensei que ele acabava de inventar uma qualificação para um tipo de afeto, pois ainda não sabia que vários filósofos trabalharam com o conceito de “carne metafísica”.


Algumas décadas depois, eu e meus filhos fomos visitar a tribo dos ashaninka brasileiros, localizada na floresta amazônica entre Brasil e Peru. Tínhamos chegado a uma aldeia de indígenas peruanos, já catequizados, e vestidos com roupas tristemente “civilizadas”, que deixavam transparecer não só a subnutrição da maioria deles, como denunciavam a pobreza geral. A tal aldeia, que alcançamos através de um pequeno avião de umas seis pessoas, seria o último ponto antes de termos de fazer o resto do percurso numa pequena canoa, cruzar o limite entre os dois países que citei dentro do rio, parar em dois municípios brasileiros para passar uma noite em cada um, e finalmente pegar outra canoa em que, depois de cinco horas rio acima, chegar na aldeia ashaninka.


O que me deu coragem de me lançar naquela aventura foi o fascínio espiritual que inspirava o líder daquela tribo, pajé conhecido e ativista ecológico, que eu tinha encontrado no Rio de Janeiro um ano antes. Quando primeiro o vi e o ouvi falar, jurei a mim mesma que levaria meus dois filhos para conhecê-lo, mesmo que fosse a última coisa que eu fizesse na vida. Ele transmitia fé, determinação, foco inabalável, e poder de fazer curas xamânicas para diversos tipos de aflições. Além de tudo isso, também demonstrou clarividência.


Na manhã do dia em que embarcamos de Los Angeles para Lima, eu estava tão nervosa que vomitei, de um momento pra outro. Quando antecipava de que modo iria suportar a falta de confortos básicos da civilização, como contar com água corrente, banheiros, camas, e privacidade, tendo de dormir em redes que colocaríamos sabe-se lá onde, me parecia claro ter decidido dar um passo maior do que a perna. Mas era o único jeito. A vez em que encontrei o líder magnético no Rio tinha sido uma grande exceção, pois ele não gosta de ir às cidades no Brasil.


Para conseguir sair do estado de ansiedade que me petrificava, me forcei a só pensar no momento de encontrá-lo. Isso funcionou até a tal vila dos indígenas catequizados. Quando saímos do aviãozinho, já rodeado pelo povo local que viera assistir à chegada de tal inseto tecnológico nos trazendo lá do alto do céu, o sol bateu tão forte na minha cabeça que me pareceu derreter a minha alma. Como a vila era grande, perguntei a alguém, entre os “espectadores”, onde eu poderia encontrar um banheiro. Quando ouvi “Aqui não tem banheiro, é no ‘natural’ mesmo”, senti meus joelhos prestes a ceder. E o que ainda estava pela frente? E o percurso de trinta horas dentro de uma canoazinha? E “isso”? e “aquilo”? Deus, onde fui me meter?


Foi então que, sob aquele calor sem precedente, antes que um total estupor tomasse conta de mim, avistei um cachorrinho, filhotinho branco e rebelde, se debatendo nos braços de uma mulher, entre as pessoas que rodeavam o nosso avião. O esforço que aquele serzinho fazia para se libertar e tomar conta do mundo, na liberdade da sua inocência e pureza, o tornava irresistível. Esqueci todos os fantasmas de dificuldades e pedi licença pra segurar ele por alguns momentos. O animalzinho ainda esperneava, quando o alojei entre meu rosto e pescoço e comecei a beijá-lo e respirá-lo, enquanto a sua zanga fofa me enternecia ainda mais.


Finalmente, tive de devolvê-lo, mas ele me fez renascer. A ideia de que poderia achar outro filhotinho daqueles, na aldeia dos ashaninka, me fez esquecer até mesmo o líder magnético. Isso me fez questionar quem eu era, afinal, para trocar uma forte motivação espiritual, pelo contato físico, maternal, e visceral, com um cãozinho.


Relendo São João da Cruz há pouco tempo, a ficha caiu. Além dos filósofos nos quais vim a ler sobre a carne metafísica, penso que mesmo sem defini-la como tal conceito filosófico, São João a expressa melhor enquanto inquietude mística, na qualidade visceral do amor entre a alma e Deus. Na ferida da distância do Amado, ela é a busca frenética por Ele, o movimento que vai da Sua ausência para o pertencimento mútuo. Ela é flama viva, paradoxo de queimar e curar ao mesmo tempo.


Se o professor de filosofia estava certo e eu vinha mesmo buscando a carne metafísica, não sei. Mas com o devido respeito a São João da Cruz e às suas restrições quanto ao apego às criaturas em prol do Criador, devo confessar que aquela criaturazinha animal me botou no paraíso, e o amor que despertou em mim, na aldeia peruana, me curou de todo medo, ansiedade e insegurança para prosseguir viagem. Na liberdade de sua inocência e pureza, bendito seja o cachorrinho.



Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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