DIFERENTES
- Leo Viana

- há 49 minutos
- 6 min de leitura

A lua de mel nas Bahamas foi o coroamento do início de um casamento que daria o que falar. "A Tina e o Lélis foram feitos um para o outro", era o comentário geral.
A festa no Iate Clube foi manchete em todas as colunas de fofoca. Quem passou pela rua no dia da festa, se tivesse alguma percepção, notaria que a concentração de Mercedes-Benz e BMW indicava gente de dinheiro velho, tradicional. Gente que não caiu na modernidade dos grandes SUVs ou dos elétricos, fossem chineses ou da Tesla — apesar de doar rios de dinheiro para causas ambientais e humanitárias. Gente que prefere Paris às cidades modernas e esquia mais na Suíça do que em Aspen ou Bariloche.
A Tina era a ovelha vermelha da família. Estudou sociologia na Federal, era vegana, fez mochilão pela América Latina e era vista, desde muito jovem, em manifestações de esquerda no centro da cidade. Foi voluntária em campanhas importantes, ajudou refugiados e praticamente sustentou colegas pobres na universidade com a mesada parruda que recebia do pai industrial. Ele mesmo não era conservador e ria das peripécias da filha. O conservadorismo na família vinha da mãe e influenciou muito os três irmãos mais velhos da Tina, todos engenheiros e trabalhando na grande companhia da família — liberais na economia e conservadores nos costumes.
O Lélis era funcionário do pai da Tina. Garoto também de família tradicional e amiga, era filho de políticos. Pai e mãe tinham mandatos em partidos de centro. Se não se alinhavam com a extrema direita delirante, para onde tendiam os irmãos da Tina, também não chegavam a gostar das pautas da esquerda. Sonhavam com algo como a ressurreição do PSDB.
O Lélis tinha cursado economia na mesma universidade da Tina e, durante o curso, tinha perfil parecido com o dos irmãos dela. O sonho era ser CEO de uma grande companhia ou banqueiro; não imaginava o futuro sem um grande sucesso financeiro e individual. Foi um imprevisto em sua vida planejada que o fez cair nos braços da Tina. A amizade das famílias era formal — políticos são amigos de todo mundo, e muitos têm preferência por empresários bem-sucedidos.
O Lélis foi ao campus onde a Tina estudava com a intenção de pegar, na biblioteca, um livro fundamental, esgotado e indisponível na biblioteca do centro em que ele estudava. Na entrada do campus, viu a menina loura de tranças rastafári e bolsa peruana distribuindo panfletos que anunciavam uma assembleia universitária. Lélis nunca tinha ido a nenhuma e se orgulhava disso. Não ia perder tempo com aqueles "estudantes profissionais". Tinha que resolver a vida e sair logo da universidade. O mercado estava à espera dele!
Mas a menina veio até ele, puxou assunto e fez com que ele desabasse logo que ouviu a voz doce e harmoniosa da Tina. E ela tinha consciência do impacto que causava. Sua voz já tinha sido protagonista em outras situações envolvendo gente insensível, especialmente policiais e professores em situações de protestos estudantis ou atividades acadêmicas.
Além da argumentação bem fundamentada de quem teve, desde cedo, acesso aos melhores centros de formação, a voz incrivelmente bonita desconcertava quem a ouvia. Como se não bastasse, a Tina era muito bonita e espontaneamente sedutora. O Lélis foi presa fácil. Não demorou e estava na assembleia universitária ouvindo coisas com as quais jamais concordara, mas de olhos fixos na Tina.
Trocaram telefones. Descobriram afinidades. O Lélis custou a ligar, mas tomou coragem e o fez.
Marcaram uma praia. Ela morava a duas quadras. Ele morava em outro bairro, mas também com praia, a três quadras. A praia dela era melhor.
Ele, na economia, queria juntar elementos da sociologia e da filosofia para dar corpo a um trabalho sobre a origem e “sustentabilidade” do neoliberalismo. Ela queria combater o neoliberalismo e fundamentar tudo o que fizesse nas ciências sociais em Marx. Riram das diferenças, mas continuaram se encontrando: no bar, no samba, na praia, no restaurante, na trilha.
A voz e o talento acadêmico da Tina se impuseram com relativa facilidade, e ela planejou o futuro do Lélis. Um pouco antes de se graduar em economia, ele foi contratado pelo já então sogro. Em paralelo, foi conquistado também ideologicamente pela Tina. Ela, sem perder a doçura e o jeito leve que conquistaram o Lélis, foi aos poucos se radicalizando politicamente. Tornou-se a líder de um grupo que defendia o fim da extrema direita sem negociação. Mas, curiosamente, manteve as boas relações com a família e os amigos mais chegados aos pais, ainda funcionando como uma espécie de Robin Hood e auxiliando na manutenção de gente menos favorecida.
A conclusão dos cursos de graduação coincidiu com um emocionado pedido de casamento do Lélis, conhecedor da radicalidade política da Tina e até defensor de ideias semelhantes, mas sem abdicar de seu trabalho de economista — mais avançado e com perspectiva mais distributivista do que os colegas, mas ainda assim operador do mercado financeiro em nome da companhia da família da Tina, agora também sua.
Alguns percalços teóricos confundiram a vida do casal. Mais de uma vez a Tina apareceu com roupas de grifes caras, normalmente presentes do pai, em reuniões realizadas em locais secretos — um exagero de um grupo que se considerava clandestino. Lélis, em função da conversão rápida, não raramente investia em companhias ligadas à extrema direita americana, por exemplo. Ou, involuntariamente, fazia crescer ainda mais o poder de seus inimigos mais poderosos.
Aos poucos essas contradições foram sendo eliminadas.
A Tina passou a usar roupas de costureiras populares, MEIs indicadas por colegas do grupo. Comprava orgânicos do MST e de produtores familiares conhecidos para o apartamento que alugou com o Lélis. Ele, por adesão, suspendeu a compra de ternos italianos e passou a usar os de alfaiates de comunidades próximas.
O grupo político da Tina, ainda militando na ilusão de uma clandestinidade inexistente, resolveu realizar um grande ato para marcar o que seria sua dissolução. Em vez de um ato público, decidiram eliminar, secretamente, uma liderança da extrema direita. A Tina, mesmo tendo assumido a liderança dos radicais, não tinha convicção sobre o que poderia acontecer a partir dali. E se fossem todos presos? E se houvesse reação e mortes desnecessárias?
Derrotada em suas argumentações, entendeu que deveria continuar com o grupo, ainda que discordando da forma de terminar as atividades. Já afeiçoada ao grupo, defendia quase todas as teses, mas seguia sendo a doce Tina, meio romântica, apesar da veemência de suas argumentações.
Então marcou o casamento.
O Lélis foi surpreendido pelos preparativos da festa. Candelária? Iate Clube? Lua de mel nas Bahamas? Onde estava a cabeça da revolucionária? O sogro ria e concordava com tudo. A mãe finalmente apoiou as decisões da filha alternativa. Os irmãos não sentiram vergonha pela primeira vez.
Alguns colegas do grupo foram convidados até, mas já tinham agendado uma leitura conjunta da obra de Marx e preferiam ver as manchetes no dia seguinte, não sem uma ponta de ironia.
A família não sabe, até hoje, que, na semana anterior, o casal fez a festa que efetivamente queria, num sítio lotado em Mauá, com todo o grupo. E que a festa para a high society era apenas uma espécie de despedida, com medo de que alguma coisa desse errado na ação clandestina.
Foi exatamente no final da festa no sítio, sob o efeito de drinks alternativos baratos e cerveja — ou eventualmente de outras substâncias apuradoras da razão —, que decidiram, em assembleia, suspender a ação radical.
Ficou para uma próxima conjuntura. A discussão mais difícil foi a que confirmou a hibernação do grupo, pois uma pequena parte dos membros estava convicta de que deveriam radicalizar as ações.
A Tina virou professora universitária depois de um mestrado e um doutorado no exterior. O Lélis segue na empresa. E a empresa banca, com a anuência do pai da Tina, eventuais ações de comunicação do grupo.
Simples assim.
Rio de Janeiro, maio de 2026.
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