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DIFERENTES


​A lua de mel nas Bahamas foi o coroamento do início de um casamento que daria o que falar. "A Tina e o Lélis foram feitos um para o outro", era o comentário geral.


​A festa no Iate Clube foi manchete em todas as colunas de fofoca. Quem passou pela rua no dia da festa, se tivesse alguma percepção, notaria que a concentração de Mercedes-Benz e BMW indicava gente de dinheiro velho, tradicional. Gente que não caiu na modernidade dos grandes SUVs ou dos elétricos, fossem chineses ou da Tesla — apesar de doar rios de dinheiro para causas ambientais e humanitárias. Gente que prefere Paris às cidades modernas e esquia mais na Suíça do que em Aspen ou Bariloche.


​A Tina era a ovelha vermelha da família. Estudou sociologia na Federal, era vegana, fez mochilão pela América Latina e era vista, desde muito jovem, em manifestações de esquerda no centro da cidade. Foi voluntária em campanhas importantes, ajudou refugiados e praticamente sustentou colegas pobres na universidade com a mesada parruda que recebia do pai industrial. Ele mesmo não era conservador e ria das peripécias da filha. O conservadorismo na família vinha da mãe e influenciou muito os três irmãos mais velhos da Tina, todos engenheiros e trabalhando na grande companhia da família — liberais na economia e conservadores nos costumes.


​O Lélis era funcionário do pai da Tina. Garoto também de família tradicional e amiga, era filho de políticos. Pai e mãe tinham mandatos em partidos de centro. Se não se alinhavam com a extrema direita delirante, para onde tendiam os irmãos da Tina, também não chegavam a gostar das pautas da esquerda. Sonhavam com algo como a ressurreição do PSDB.


​O Lélis tinha cursado economia na mesma universidade da Tina e, durante o curso, tinha perfil parecido com o dos irmãos dela. O sonho era ser CEO de uma grande companhia ou banqueiro; não imaginava o futuro sem um grande sucesso financeiro e individual. Foi um imprevisto em sua vida planejada que o fez cair nos braços da Tina. A amizade das famílias era formal — políticos são amigos de todo mundo, e muitos têm preferência por empresários bem-sucedidos.


​O Lélis foi ao campus onde a Tina estudava com a intenção de pegar, na biblioteca, um livro fundamental, esgotado e indisponível na biblioteca do centro em que ele estudava. Na entrada do campus, viu a menina loura de tranças rastafári e bolsa peruana distribuindo panfletos que anunciavam uma assembleia universitária. Lélis nunca tinha ido a nenhuma e se orgulhava disso. Não ia perder tempo com aqueles "estudantes profissionais". Tinha que resolver a vida e sair logo da universidade. O mercado estava à espera dele!


​Mas a menina veio até ele, puxou assunto e fez com que ele desabasse logo que ouviu a voz doce e harmoniosa da Tina. E ela tinha consciência do impacto que causava. Sua voz já tinha sido protagonista em outras situações envolvendo gente insensível, especialmente policiais e professores em situações de protestos estudantis ou atividades acadêmicas.


Além da argumentação bem fundamentada de quem teve, desde cedo, acesso aos melhores centros de formação, a voz incrivelmente bonita desconcertava quem a ouvia. Como se não bastasse, a Tina era muito bonita e espontaneamente sedutora. O Lélis foi presa fácil. Não demorou e estava na assembleia universitária ouvindo coisas com as quais jamais concordara, mas de olhos fixos na Tina.


​Trocaram telefones. Descobriram afinidades. O Lélis custou a ligar, mas tomou coragem e o fez.

​Marcaram uma praia. Ela morava a duas quadras. Ele morava em outro bairro, mas também com praia, a três quadras. A praia dela era melhor.


​Ele, na economia, queria juntar elementos da sociologia e da filosofia para dar corpo a um trabalho sobre a origem e “sustentabilidade” do neoliberalismo. Ela queria combater o neoliberalismo e fundamentar tudo o que fizesse nas ciências sociais em Marx. Riram das diferenças, mas continuaram se encontrando: no bar, no samba, na praia, no restaurante, na trilha.


​A voz e o talento acadêmico da Tina se impuseram com relativa facilidade, e ela planejou o futuro do Lélis. Um pouco antes de se graduar em economia, ele foi contratado pelo já então sogro. Em paralelo, foi conquistado também ideologicamente pela Tina. Ela, sem perder a doçura e o jeito leve que conquistaram o Lélis, foi aos poucos se radicalizando politicamente. Tornou-se a líder de um grupo que defendia o fim da extrema direita sem negociação. Mas, curiosamente, manteve as boas relações com a família e os amigos mais chegados aos pais, ainda funcionando como uma espécie de Robin Hood e auxiliando na manutenção de gente menos favorecida.


​A conclusão dos cursos de graduação coincidiu com um emocionado pedido de casamento do Lélis, conhecedor da radicalidade política da Tina e até defensor de ideias semelhantes, mas sem abdicar de seu trabalho de economista — mais avançado e com perspectiva mais distributivista do que os colegas, mas ainda assim operador do mercado financeiro em nome da companhia da família da Tina, agora também sua.


​Alguns percalços teóricos confundiram a vida do casal. Mais de uma vez a Tina apareceu com roupas de grifes caras, normalmente presentes do pai, em reuniões realizadas em locais secretos — um exagero de um grupo que se considerava clandestino. Lélis, em função da conversão rápida, não raramente investia em companhias ligadas à extrema direita americana, por exemplo. Ou, involuntariamente, fazia crescer ainda mais o poder de seus inimigos mais poderosos.


​Aos poucos essas contradições foram sendo eliminadas.

​A Tina passou a usar roupas de costureiras populares, MEIs indicadas por colegas do grupo. Comprava orgânicos do MST e de produtores familiares conhecidos para o apartamento que alugou com o Lélis. Ele, por adesão, suspendeu a compra de ternos italianos e passou a usar os de alfaiates de comunidades próximas.


​O grupo político da Tina, ainda militando na ilusão de uma clandestinidade inexistente, resolveu realizar um grande ato para marcar o que seria sua dissolução. Em vez de um ato público, decidiram eliminar, secretamente, uma liderança da extrema direita. A Tina, mesmo tendo assumido a liderança dos radicais, não tinha convicção sobre o que poderia acontecer a partir dali. E se fossem todos presos? E se houvesse reação e mortes desnecessárias?


Derrotada em suas argumentações, entendeu que deveria continuar com o grupo, ainda que discordando da forma de terminar as atividades. Já afeiçoada ao grupo, defendia quase todas as teses, mas seguia sendo a doce Tina, meio romântica, apesar da veemência de suas argumentações.


​Então marcou o casamento.


​O Lélis foi surpreendido pelos preparativos da festa. Candelária? Iate Clube? Lua de mel nas Bahamas? Onde estava a cabeça da revolucionária? O sogro ria e concordava com tudo. A mãe finalmente apoiou as decisões da filha alternativa. Os irmãos não sentiram vergonha pela primeira vez.


​Alguns colegas do grupo foram convidados até, mas já tinham agendado uma leitura conjunta da obra de Marx e preferiam ver as manchetes no dia seguinte, não sem uma ponta de ironia.

​A família não sabe, até hoje, que, na semana anterior, o casal fez a festa que efetivamente queria, num sítio lotado em Mauá, com todo o grupo. E que a festa para a high society era apenas uma espécie de despedida, com medo de que alguma coisa desse errado na ação clandestina.


​Foi exatamente no final da festa no sítio, sob o efeito de drinks alternativos baratos e cerveja — ou eventualmente de outras substâncias apuradoras da razão —, que decidiram, em assembleia, suspender a ação radical.


Ficou para uma próxima conjuntura. A discussão mais difícil foi a que confirmou a hibernação do grupo, pois uma pequena parte dos membros estava convicta de que deveriam radicalizar as ações.


​A Tina virou professora universitária depois de um mestrado e um doutorado no exterior. O Lélis segue na empresa. E a empresa banca, com a anuência do pai da Tina, eventuais ações de comunicação do grupo.


​Simples assim.


Rio de Janeiro, maio de 2026.

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