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Aparências *

 


 

Aparências *

 

O homem escolheu uma mesa próxima da janela. O restaurante é simples com características medievais. O mobiliário é austero, de madeira escura. A luz natural é insuficiente para impedir o aspecto quase sombrio e as luminárias incandescentes tornam o ambiente ainda mais pesado.


O homem, que veste preto, pede o prato do dia e repara na garçonete quando esta traz o pedido. Ela é branca, algo robusta, tem cabelos louros, possivelmente artificiais. Notou uma marca de cor vinho arroxeada no lado esquerdo do pescoço. ‘Um beijo mais exagerado’ especulou o homem consigo mesmo. Mas o que reparou na expressão da mulher, que o levou a conjecturar mais concretamente sobre o ocorrido, foi àquela tristeza no olhar. Olhos claros e tristes. Que pareciam olhar para dentro dela própria.


            Observador atento do mundo ao redor, o homem imagina o enredo a partir dos olhos tristes da garçonete. Enquanto mastiga devagar seu almoço frugal, anota mentalmente algumas coisas. Outras impressões, prefere escrever num pequeno caderno espiralado que tira da bolsa. A mulher foi possuída a força. E não foi pelo marido. Não é casada, ela não usa aliança. Foi pelo seu senhorio, o proprietário da quitinete em que mora, num subúrbio da periferia. O homem fora cobrar o aluguel atrasado e descontrolado diante de mais um pedido de tolerância - ela ainda não tinha o suficiente para quitar o aluguel - partiu pra cima da mulher aos impropérios e com ameaças de colocá-la pra fora do apartamento.


Num misto de fúria e lascívia, submeteu a mulher, ali mesmo na sala. A mulher cedeu sem muita resistência. Humilhada e conformada e se julgando digna de alguma punição devido a seu erro. Ao sugar-lhe o pescoço com força o homem ainda insinuou um acordo: “te dou mais quinze dias para conseguir o dinheiro”. O baixo salário que recebe no restaurante e as despesas inesperadas com a doença da irmã fragilizavam as economias da mulher. Por isso o atraso do aluguel. Tinha motivos para estar triste a garçonete.


               Mas o senhorio que pelo ocorrido não merece nenhuma forma de perdão, também não é nenhum monstro destemperado. O ato indesculpável não condiz totalmente com sua conduta habitual. Sua própria inquilina e, vítima, a garçonete, se surpreendera com a reação exagerada e inexplicável do homem. Por quem até nutria uma distante e camuflada atração. É que a cabeça dele anda em chamas, consequência do convívio deteriorado com sua mulher. A cada dia ela se torna mais estressada. Em casa não há mais conversas amigáveis e ela vai ficando cada vez mais fria e insensível. Está sempre a reclamar da excessiva pressão que sofre no serviço. A nova chefe da repartição parece ter o prazer de persegui-la. ‘É coisa pessoal. Só pode ser’, diz ela. Segundo a mulher, sua chefe a está enchendo de responsabilidades, muitos compromissos para ela que não é sequer uma subchefe.


Não tem as costas largas para tanto peso de responsabilidades e para tomar decisões no departamento de água e esgoto. São atribuições excessivas. São cobranças demais, e ela acaba sendo obrigada a assumir posturas que podem expô-la perante o alcaide. Teme que por alguma falha seja punida com uma transferência para algum setor fora de sua área de domínio profissional. É como se caminhasse sobre o fio da navalha. Os nervos estão à flor da pele. Dias e dias assim, o que reflete fortemente na deterioração da vida conjugal.  

Não é correto para ninguém em cargo de chefia, descarregar suas frustrações ou problemas pessoais, sobre seus subalternos. E a mulher do senhorio da garçonete é vítima disso. Sua superiora descarrega nela os traumas que traz de casa, consequência do casamento que terminou abruptamente há bem pouco tempo. O marido, um médico obstetra, a largou depois de que uma profunda crise de depressão o tornou um farrapo humano. Ao errar durante um parto e provocar um dano irreparável no recém-nascido ele passou a viver um verdadeiro inferno pessoal. Deprimido, definhou fisicamente sob o peso da culpa. E some-se a isso o fato de ter que aturar a mãe da menina que constantemente, e algo enlouquecida, passou visitar o consultório para insultá-lo, aos gritos e, cobrar uma solução para o mal provocado pelo fórceps na mandíbula do bebê. Tudo isso acabou por arranhar sua reputação e comprometer seu futuro profissional. O homem abandonou o hospital, a esposa, a cidade e, ninguém mais soube dele.


A mãe da criança deficiente devido ao parto mal feito, coitada, tinha razões de sobra para querer colocar para fora toda a amargura que lhe afogava. Por isso os tais escândalos. As consequências daquele parto complicado refletiram no casamento dela também, e de forma definitiva. O marido, que é representante comercial, primeiro, já não queria ter filhos. Justificava com sua profissão instável que o faz ficar muito tempo fora de casa. Depois, apesar de se conformar com a gravidez indesejada - não tinha outro jeito, se opôs a vontade da mulher que queria fazer o parto normal, quando já se dispunha da novidade da cesariana e coisa e tal. A mulher insistiu no parto normal para honrar uma tradição de família. Ele a culpou pelo parto desastrado. O casamento ficou estremecido o que levou a mulher a um desequilíbrio emocional. Desequilíbrio esse que encontrava alguma atenuante, nas frequentes idas ao consultório do médico, para fazer todo aquele banzé. 


     E o marido, desiludido com a vida a dois e a frágil felicidade prometida na sentença “até que a morte os separe”, passou a ensaiar uma mudança de foco em sua vida. Em suas andanças de representante comercial, cuja essência é apresentar novidades na área de eletrodomésticos aos comerciantes, passou por vezes, pela cidade, em que existe um restaurante meio esquisito, com cara medieval e de aspecto sombrio, embora limpo e que oferece comida boa e barata. É lá que ele vai fazer suas refeições. Que são sempre muito demoradas. Finge estar sempre revendo anotações em seu bloco de papel.


Na verdade está apreciando a garçonete, uma loura gordinha. Sente mesmo uma grande atração por ela. Admira sua personalidade sóbria. Sempre muito calada, ela o trata como aos demais fregueses, com cordialidade, mas sem atenções exageradas. Agora mesmo ela passa por sua mesa, com seu olhar triste e aquela marca de chupão no lado esquerdo do pescoço muito branco. Passa e parece não notar sua presença. Está levando o prato dia, salada e coxa de frango cozida, a um homem vestido de preto que está sozinho em uma mesa próxima da janela. O homem faz anotações num pequeno caderno em espiral. O representante comercial pensa com seus botões, ‘será que foi aquele canalha que deixou essa marca no pescoço da lourinha?’

 

·      Do meu livro ‘Chico Buarque no Olho Mágico’ – contos

Chiado Books – 2021


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