Os Sapatos à Beira do Rio

Há lembranças que preservamos porque foram belas. Outras, porque jamais deveriam ter existido. Esquecer qualquer uma delas é perder uma parte de quem somos.
Por David Gertner, Ph.D.
Há coisas que guardamos para não esquecer. Fotografias, cartas, objetos, uma música, o brinquedo de uma criança, uma pedra trazida de uma viagem. Pequenas âncoras lançadas contra o tempo. Sabemos que os dias passam, que as pessoas partem, que os lugares mudam e que até nossas lembranças se transformam. Por isso guardamos coisas. Tentamos dar alguma permanência ao que, por natureza, está condenado a desaparecer.
Em Budapeste, às margens do Danúbio, há sessenta pares de sapatos feitos para que ninguém esqueça.
São de ferro. Sapatos masculinos e femininos, botas, saltos, pequenos calçados de crianças. Estão espalhados junto ao rio como se seus donos os tivessem retirado por alguns minutos e fossem voltar para buscá-los. Mas ninguém volta.
O memorial Sapatos às Margens do Danúbio, criado pelo diretor Can Togay e pelo escultor Gyula Pauer e inaugurado em 2005, recorda judeus assassinados naquele lugar pela milícia fascista da Cruz Flechada nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. As vítimas eram levadas até a margem do rio, obrigadas a retirar os sapatos — bens valiosos em tempos de guerra — e executadas. Seus corpos desapareciam nas águas do Danúbio.
Os sapatos ficavam.
Talvez seja isso que torne o memorial tão perturbador. Ele não representa propriamente a morte. Representa aquilo que existia um instante antes dela.
Alguém caminhou com sapatos como aqueles. Alguém os escolheu, amarrou seus cadarços pela manhã, reclamou que apertavam, mandou consertar uma sola. Uma criança correu com um par parecido. Uma mulher os calçou para visitar alguém que amava. Um homem caminhou com eles para o trabalho. Antes de serem vítimas, eram pessoas.
É uma distinção que a memória histórica nem sempre consegue preservar. Quando falamos em milhares ou milhões de mortos, seres humanos inevitavelmente se transformam em números. Os números são necessários para compreender a dimensão das tragédias, mas também podem nos proteger delas. É difícil imaginar um milhão de pessoas. Diante de um pequeno par de sapatos infantis vazio, a abstração desaparece.
A memória devolve nomes aos números, rostos às estatísticas e vidas à História.
Mas não lembramos apenas daquilo que foi terrível. A vida também é construída pelas lembranças que desejamos conservar: a casa onde crescemos, a voz dos pais, os filhos pequenos, um jantar entre amigos, uma viagem, um amor, uma gargalhada que ninguém gravou, uma conversa aparentemente banal que, muitos anos depois, descobrimos ter sido importante.
Talvez grande parte da felicidade humana exista duas vezes: primeiro quando acontece e depois quando é lembrada.
A memória permite que pessoas ausentes continuem, de alguma maneira, presentes; que lugares aos quais nunca voltaremos permaneçam habitáveis dentro de nós; que versões anteriores de nós mesmos sobrevivam à pessoa que nos tornamos. É por meio dela que carregamos conosco aquilo que o tempo inevitavelmente leva.
Mas há também uma memória muito menos confortável: a daquilo que preferiríamos que nunca tivesse acontecido. Guerras, escravidão, genocídios, ditaduras, perseguições, expulsões, massacres e torturas. Pessoas transformadas em inimigos simplesmente por sua origem, religião, raça, nacionalidade ou por aquilo em que acreditavam.
Essas lembranças não existem para nos proporcionar conforto. Existem para nos incomodar. E precisam incomodar.
Toda sociedade escolhe o que recordar e o que esquecer. Constrói monumentos para algumas pessoas, derruba os de outras, celebra determinadas datas e silencia outras. Com o passar das gerações, surge inevitavelmente a tentação de suavizar aquilo que incomoda. Os responsáveis desaparecem, as testemunhas morrem, os sobreviventes se tornam poucos. O horror vira capítulo de livro, depois uma página, finalmente uma frase. Até que o inimaginável se torna abstrato — e aquilo que se torna abstrato corre o risco de voltar a parecer possível.
Talvez seja esse o ponto em que a memória individual e a memória coletiva se encontram. Guardamos fotografias de quem amamos e construímos memoriais para aqueles que não conhecemos pela mesma razão fundamental: recusamo-nos a aceitar que o desaparecimento de uma pessoa signifique também o desaparecimento de sua existência. Uma lembrança familiar e um monumento público pertencem a dimensões diferentes, mas ambos desafiam o esquecimento.
A função mais profunda da memória, portanto, talvez não seja preservar o passado. O passado não precisa de nossa memória. Já aconteceu e não pode ser modificado. Quem precisa dela é o futuro.
Lembrar não significa transmitir culpas eternamente, nem responsabilizar filhos pelos crimes dos pais ou povos inteiros pelos atos de seus governos. Significa preservar a consciência de que determinadas coisas aconteceram porque seres humanos foram capazes de fazê-las a outros seres humanos. E aquilo que seres humanos fizeram uma vez continua pertencendo ao universo das possibilidades humanas.
É por isso que os grandes memoriais não falam apenas sobre os mortos. Falam principalmente aos vivos.
Os sapatos de Budapeste conseguem dizer isso sem generais, heróis ou batalhas, sem explicar ideologias ou descrever estratégias militares. Mostram apenas uma ausência. Alguém esteve ali, usou sapatos como aqueles, teve uma família, desejos, medos, planos para o dia seguinte. Teve uma vida. E alguém decidiu que essa vida não deveria continuar.
Diante deles, o Danúbio segue seu curso. A água que passa hoje não é a água de 1944. Passaram gerações, governos, fronteiras, regimes e guerras. Budapeste mudou, a Europa mudou, o mundo mudou. O rio continuou levando consigo o tempo, como todos os rios fazem.
Os sapatos permaneceram na margem.
Talvez seja essa uma das imagens mais precisas da relação entre o tempo e a memória. O tempo é como o rio: não pode deixar de seguir adiante. A memória permanece na margem e nos obriga, por alguns instantes, a interromper nossa própria caminhada, olhar para trás e perguntar quem esteve ali antes de nós.
Precisamos das lembranças felizes porque elas nos recordam aquilo que tornou a vida digna de ser vivida. E precisamos das dolorosas porque algumas coisas jamais deveriam ter acontecido e, justamente por isso, jamais podem ser esquecidas. As primeiras nos ajudam a compreender de onde viemos; as outras nos advertem sobre lugares aos quais nunca deveríamos voltar.
Talvez seja por isso que aqueles sessenta pares de sapatos de ferro continuem imóveis enquanto o Danúbio passa diante deles. O rio leva o tempo adiante, como sempre fez e continuará fazendo. Os sapatos permanecem para fazer aquilo que somente a memória pode fazer: impedir que tudo seja levado pela correnteza.
Não para manter os mortos presos ao passado, mas para lembrar aos vivos que o futuro também depende daquilo que escolhemos não esquecer.
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, democracia, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, e prepara o lançamento de seu novo livro, A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim). Mais em www.davidgertner.com
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