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BALADA DO LADRÃO DA BABILÔNIA, de Elizabeth Bishop, tradução de Jorge Pontual

Jorge Pontual
Jorge Pontual

Balada do Ladrão da Babilônia


Nos belos morros do Rio

Tão feia mancha vigora

:Os pobres que vêm pro Rio

E não podem ir embora.


Nesses morros um milhão

,Um milhão de andorinhas,

Tal confusa migração

Ali pousa e se aninha,


Seu ninho, ou casa, erguendo

De quase nada, ou de ar

.Voaria com o vento,


De tão leve a pousar.

Mas fica e se esparrinha,

E mais gente se amofumba.

Há o morro da Galinha,

E o morro da Catacumba;

Há o morro do Querosene,

Do Esqueleto, uma colônia,

Morro do Espanto, perene,


E o morro da Babilônia.

Micuçú era ladrão,

Da sociedade inimigo.

Escapara da prisão

Três vezes, esse bandido.


Não sabem quantos matou

(mas nunca estuprou ninguém),

Da última vez que escapou

Dois tiras feriu também.

Disseram, “Foi estar com a tia,

Que o criou, a dona Sônia.

Ela tem uma vendinha

No morro da Babilônia”.

E estava mesmo com a tia,

Tomando a última cana.

Disse, “Tenho que ir tia,

Que já já chegam os cana”.“

Noventa anos me deram.

Mas quem quer tamanha insônia?

Noventa horas eu quero,

No morro da Babilônia.

Embaixo dele, o oceano

Que subia até o céu,

Como uma parede, plano,

Onde, longe pra dedéu,

Via barcos se mexer

Cada um como um mosquito,

Até desaparecer;

E ele sabia, “Estou frito”.

Ouviu as cabras berrar.

Ouviu crianças gemer;

As pipas a flutuar;

E sabia, “Vou morrer”.

Um urubu passou tão perto

Que viu o seu pescoção.

E gritou de peito aberto

“Inda não, meu, inda não!”

Micuçú tava escondido


No meio do matagal,

Acuado, olhar perdido

E no mar via um farol.

O farol olhou pra ele,

Naquela noite de insônia

.Tinha fome e sede, ele,

No morro da Babilônia.


Um sol feio, amarelo,

Como um ovo cru num prato

-Saiu do mar.

Cuspiu nele,

Sabia que era seu fado.


Viu a longa praia branca

E as pessoas a nadar,

As toalhas e as barracas,

E os PMs a caçar.

As pessoas lá bem longe

Eram manchas coloridas

E as cabeças entre as ondas

Flutuavam como cocos.


Era cedo, oito e meia.

Viu um soldado subir,

Vindo em cima.

Atirou,Errou, a última vez.


Ouviu o soldado perto

,Sem vê-lo, só pressentido.


Micuçú saltou pra longe.Levou um tiro no ouvido.

Ouviu um bebê chorar

Longe, longe em sua mente

E os cães a latir, latir.


E aí Micuçú morreu.Tinha uma pistola Taurus,

E só as roupas do corpo,

Com dois contos nos seus bolsos

No morro da Babilônia.


Esta manhã os PMs

Estão de volta à favela

;Seus fuzis e capacetes

Brilham na chuva magrela.

Micuçú tá enterrado.

Outros dois são o xabu,

Mas não são tão perigosos

Quanto o pobre Micuçú.

Nos belos morros do Rio

Tão feia mancha vigora:

Os pobres que vem pro Rio

E não podem ir embora.


Há o morro do Querosene,

Do Esqueleto, uma colônia,

Morro do Espanto, perene,


E o morro da Babilônia.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.

Leia mais sobre Literatura.

 




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