Silêncios
- Leo Viana

- 21 de jun.
- 6 min de leitura

A volta do jantar foi em silêncio. A noite começou bem, mas, no decorrer do evento, a coisa foi saindo dos eixos. O Bira nunca teve controle sobre a bebida, mas, de uns tempos para cá, foi piorando, na mesma medida em que as doses foram aumentando e o comportamento se tornando mais e mais inconveniente, até violento em certo sentido, ao menos teoricamente.
Teses extremistas, supremacia, uma conversa radical que tinha ficado contida na maior parte da vida. A Dorinha já vinha se incomodando havia tempos, mas nunca teve coragem para reclamar. Via, nas entrelinhas, desde o início, um ou outro sinal que preferira ignorar. Dificuldade de lidar com frustração. Agressividade e intempestividade em reação a situações quase banais de desconforto.
O romance começou quando ainda eram adolescentes no subúrbio. O Bira era bom de bola e via as esperanças da vida naquilo. Um pouco convencido de seu próprio talento, mas nada que não fosse positivo para o próprio futuro. Os grandes do futebol tinham a Europa como destino, e ele seria um deles, tinha certeza.
A Dorinha não via muita viabilidade naquilo, mas queria fazer parte do projeto, fosse qual fosse. Os pais de ambos reprovavam integralmente as intenções. No que dependesse deles, Bira jamais seria jogador de futebol, e Dorinha não se casaria com aquele “encostado”, que só pensava em jogar peladas. Pais e mães tinham impressões levemente diferentes, mas, no conjunto, preferiam ver os filhos felizes e distantes um do outro. Dorinha também não agradava aos sogros em potencial.
As vontades próprias prevaleceram, e eles seguiram juntos pela vida. O futebol profissional não vingou. Bira tentou, tardiamente, algumas profissões. Um curso técnico acabou levando o Bira, sem muito amor, mas com alguma competência, para a cozinha. Gostava de comer. Imaginava que gostaria de cozinhar, numa associação direta com o fracasso nos campos.
Os sonhos pessoais da Dorinha levavam a outros destinos, mas incluíam, já sabemos, os sonhos do Bira. Só não se limitavam a isso. Resolvido o hipotético futuro de sucesso futebolístico do Bira, ela se imaginava também tendo uma carreira de sucesso. Talvez na moda, talvez numa consultoria financeira. Nada muito definitivo.
Se fossem para a Europa, como sonhava o Bira, ela poderia ser promotora de turismo de elite por vinícolas premiadas, castelos medievais, casas de alta costura e segredos milenares nas catedrais góticas da Europa Ocidental. Sempre gostou de estudar geografia, e qualquer uma dessas possibilidades lhe arrancava um sorriso de satisfação.
Mas o Bira ocupava o centro, e o projeto dele não foi adiante.
Trabalhava num restaurante com certa fama. Não era nenhum “estrelado Michelin”, mas não era um pé-sujo. Oscilava entre pratos populares servidos com requintes de gourmetização e pratos que se pretendiam de alta gastronomia, mas que eram popularizados pelo uso de ingredientes mais baratos ou por técnicas alternativas de preparo. Nem barato nem caro: aquele lugar onde ricos e pobres se sentiam em casa. Visitado por revistas, influencers e celebridades, entrou na moda e virou point badalado rapidamente.
Antes disso, a Dorinha se resignou, mudou de bairro, mas não de país, acompanhando o Bira. Foi com ele do apartamento dos pais para um menor, financiado pela Caixa Econômica no limite do que ganhava o Bira. Não deixava que o acúmulo de frustrações falasse mais alto que a vontade de continuar seguindo os projetos do Bira. Mas veio a ascensão social.
A Dorinha, no entanto, tinha seus limites. Gostava da vida de emergente, da nova condição e dos acessos que vieram. Mas, quando o Bira se encontrou com a gastronomia e pareceu ter dado sentido novamente à vida, ela precisou se esforçar muito para continuar sendo a coadjuvante ideal que tinha sido por tanto tempo. Não deu. O afastamento foi quase natural, e a limitada percepção do Bira sobre o que acontecia à sua volta não permitiu que ele notasse.
A Dorinha foi, aos poucos, investindo tempo em si mesma. Retomou o curso de inglês que abandonara na adolescência e que era parte seminal do projeto de internacionalização da carreira do Bira e do seu próprio. Ela sentia que precisava se preparar para a vida. Tinha perdido muito tempo. Já não era uma menina, e o mundo era etarista. Ia realizar o sonho de fazer faculdade? Sim. Por que não?
Foi assim que, em muitos anos de relacionamento morno, tendendo ao esfriamento total, Bira foi conquistando cada vez mais clientes com sua comida inovadora, e Dorinha, nos últimos cinco anos, estudou, formou-se em economia e adquiriu a tão desejada fluência em inglês.
Verdade que seguiu sendo coadjuvante da forma possível e contando com a quase indiferença do Bira, que, a cada semana, participava de um festival diferente de gastronomia ou de um programa de TV e raramente fazia referência a ela, a companheira de tantos anos.
O fato de não terem tido filhos jogava a favor. O Bira era autocentrado demais para ser parceiro até na criação de um peixe de aquário.
Dorinha já era uma nova mulher. Ainda vivia um papel secundário numa relação marcada pela dominação não violenta, mas silenciosa e psicologicamente tensa; tinha, porém, nova consciência de si mesma e lembrava com certo orgulho contido os elogios feitos a ela por meninos e meninas colegas de universidade. Era bonita e inteligente a ponto de conquistar a simpatia da juventude que dividia as salas de aula com ela, mesmo sendo da geração dos pais de alguns deles, talvez da maioria.
Enquanto isso, bajulado por quem o cercava nas atividades profissionais, o Bira foi se tornando uma pessoa cada vez mais difícil. Iniciado por coaches comportamentais, tornou quase religiosa a sua adoração a si mesmo. Convidado, por exemplo, a demonstrar sua arte e suas receitas, tratava auxiliares e coadjuvantes com a grosseria dos chefs de programas estrangeiros, tendo humilhado um número importante de iniciantes ou menos habilidosos na cozinha, e em rede nacional.
Em casa, tratava mal prestadores de serviço e tinha uma relação burocrática com a Dorinha, limitando-se a falar mal do dia de trabalho, eventualmente vangloriar-se de algum feito na cozinha e reclamar do noticiário e da política. Passara a criticar abertamente os programas sociais do governo e a defender bandeiras historicamente empunhadas pela extrema direita no Brasil e no mundo todo.
Não era mais a pessoa a quem Dorinha um dia amara mais que a si própria, tendo abdicado por tanto tempo dos próprios projetos. A situação já estava insustentável quando, num lapso de cavalheirismo que fez lembrar um passado distante — dos tempos de adolescentes nos jogos de futebol do bairro ou na rotina da escola municipal que frequentaram juntos —, o Bira convidou a Dorinha para jantar fora.
Era um evento grande em um restaurante estrelado.
Era aniversário da Dorinha, e, desde cedo, o Bira não tinha dito nada. Já tinha acontecido antes, mas situações ocorridas durante o dia acabavam lembrando-o, e ele fazia algum agrado a ela no fim do dia, que ainda ganhava o peso de parecer uma surpresa. A Dorinha esperava, sem grandes expectativas, pela repetição dessa rotina.
E aconteceu, mas não como previsto. No meio do dia, o Bira ligou convidando a Dorinha para uma degustação de vinhos e patês franceses promovida por um chef amigo.
O evento começaria às 19 horas. Dorinha estava reunida com amigos discutindo um projeto que poderia lhe render uma boa dissertação de mestrado. Era uma nova meta.
Animou-se um pouco com a tal degustação. Terminou o trabalho, almoçou, comemorou um pouco com os amigos o aniversário e voltou para casa. Descansou, deu um tapa no visual e foi. Ouviu um elogio do vizinho de 17 anos. Riu e seguiu.
No lugar, gente rica paparicava o chef Bira, novo ascendente da gastronomia carioca. Corpo atlético de quem quis ser craque de bola, tatuagens tribais, óculos de grife.
A chegada da esposa frustrou modelos e senhorinhas mais desinibidas.
Apresentada, Dorinha manteve a pose, quase calada, respondendo somente a perguntas triviais sobre o Bira em casa e assuntos semelhantes.
O tempo foi passando e a Dorinha se entediando, na medida em que Bira não dava sinal de que tivesse lembrado do aniversário.
O tiro de misericórdia foi o momento em que anunciaram uma homenagem ao chef Bira, tido como revelação da gastronomia fusion.
Chamado, o Bira se apresentou para dezenas de celulares ávidos por imagens. A Dorinha gostou do que viu. Surpreendentemente, ele não disse nenhum impropério nem destratou ninguém. Esqueceu do aniversário, é verdade, mas se comportou bem.
A avidez com que uma das amantes o cumprimentou foi talvez a única nota destoante. Duas outras, com quem ele trocou olhares lânguidos e insinuações sensuais, foram bem mais discretas.
Não havia mesmo o que conversar no carro, na viagem de volta para casa.
Dorinha nem entrou. Trocou mensagens com os amigos de faculdade e, do portão mesmo, chamou um carro de aplicativo para encontrá-los.
Finalmente tomara a decisão da sua vida.
Rio de Janeiro, junho de 2026.
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