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POR POUCO



Os amigos mais próximos e mais letrados diziam que ele era hedonista. Os menos letrados, mas também muito próximos, o chamavam de “bon vivant”. Havia ainda a turma do escritório, que acompanhava com silêncio desconfiado, mas respeitoso, as aventuras do Bahia.


Bahia era o apelido do Daniel, advogado vindo do Estado do Nordeste para o Rio num carnaval já longínquo. Gostava muito de carnaval, mas tinha, desde cedo, o hábito de viajar na época da festa, pra ver como as coisas se passavam fora da Bahia. Assim, foi a praticamente todos os grandes carnavais do Brasil e parou no Rio não pelo desfile ou pelos blocos, mas pela Arlete.


A Arlete era uma mulher prendada e bonita, além de ser secretária de um escritório célebre por defender pessoas físicas contra grandes corporações, especialmente bancos e planos de saúde. Eram fortes concorrentes da Defensoria Pública. Foi lá que o Bahia, numa passada pra ver um amigo, colega de turma, deu de cara com a Arlete, que o atendeu e o encaminhou para a sala de espera. Era quinta-feira de carnaval, alguns blocos já complicavam mais o já complicado trânsito do centro do Rio de Janeiro. Numa dobra do tailleur impecável que vestia a Arlete, o Bahia notou um pequeno acúmulo de purpurina e uma estrelinha dourada.


O Bahia não era necessariamente um conquistador, apesar da fama. Sempre foi muito elogiado pelas colegas de trabalho, inclusive por não ser ostensivo, mas era quase carnaval e a purpurina era reveladora. A interessantíssima secretária do escritório gostava da folia.

Obviamente, aquilo não significava um sinal verde para alguma abordagem, mas já havia algo pra iniciar uma conversa que fosse além da tramitação de processos, casos ruidosos, clientes emblemáticos ou mandados de segurança.


A conversa fluiu de modo relativamente fácil, apesar de não ser efusiva.

Perguntou qualquer coisa sobre os blocos do dia, como se não soubesse. Já tinha listado os indicados pelos amigos e os que saíram na imprensa. A Arlete, no entanto, sem perder o profissionalismo, mas visivelmente animada com a pergunta, listou praticamente todos os que ele já tinha listado e ainda incluiu mais um, novo, onde ela mesma era ritmista.


Sem nenhum esforço, convenceu o Bahia a acompanhar o seu bloco e nem foi pelo fato de, segundo ela, oitenta por cento da bateria ser formada por mulheres.

O interesse do Bahia, naquele momento, passou a ser exclusivamente a Arlete.


O encontro com o colega foi protocolar. Haviam trabalhado juntos num caso, ainda no início da carreira. O colega foi pro Rio convidado por uma banca importante e não voltou mais, mas era muito diferente do Bahia em termos de comportamento. Sério, profissional e religioso, não se interessava por carnaval, falava baixo e dificilmente sorria em público. Era boa gente, honesto, mas meio chato pros padrões do Bahia. Trocaram algumas palavras, falaram de direito e de política, mas a conversa não rendeu e, em menos de quinze minutos, ele estava de volta à sala de espera, em companhia da Arlete.



Ela morava em Copacabana e ele estava hospedado no Catete. O bloco sairia na Lapa. Eram quatro da tarde e ela já estava se preparando pra sair.

Antes que o colega o convidasse para um eventual jantar formal, como era do seu feitio, o Bahia informou a ele que tinha um compromisso inadiável naquela noite e que voltaria a procurá-lo depois do carnaval, porque tinha interesse num caso específico.


Arlete pareceu ter compreendido a intenção, adiantou-se em desligar o computador e fazer uma saudação a ambos os advogados antes de sair. O Bahia aproveitou a deixa e a porta aberta e saiu atrás dela, após um cumprimento formal ao colega.


No grande elevador vazio, o constrangimento pareceu tomar os dois. O Bahia ensaiou falar alguma coisa, mas teve medo de ser invasivo. A Arlete manteve o sorriso e apenas disse, na chegada ao térreo, que esperava por ele no bloco.


O Bahia pensou em acompanhá-la até o metrô, mas tomou um táxi.

Pouco antes das seis, já estava de bermuda listrada, camiseta de clube de futebol, tênis confortável e colar havaiano embaixo dos Arcos, esperando a saída do bloco.

A chegada da Arlete, correndo, meio atrasada, com a camiseta customizada da bateria, num short curto, hipnotizou o Bahia. Ela passou direto por ele, talvez nem o tivesse reconhecido na roupa de turista, mas a cerveja dele quase respingou nela, tamanho o susto que ele levou quando viu a morena passar.


A fama de hedonista podia até se manter, mas a de conquistador, definitivamente, era falsamente atribuída a ele por um pequeno grupo de mal-intencionados, detratores do seu modo espontâneo de viver.


Pra piorar, a Arlete pareceu muito íntima do diretor de bateria, em quem deu um abraço muito forte, carinhoso, seguido de um selinho na boca.

A cerveja quase voltou a cair, e o Bahia acreditava que, definitivamente, tinha que investir em outra possibilidade, que a Arlete não seria sua companhia naquele carnaval.


Mas decidiu ficar para acompanhar o bloco. A música era boa, os cariocas são bons de festa, não tinha do que reclamar. Fazia muito calor, mas a cerveja estava gelada, havia água à vontade pra quem quisesse e, como o bloco era novo, não estava insuportavelmente cheio.


Chegou mesmo a ser abordado por algumas mulheres mais desinibidas e por pelo menos três homens igualmente interessados num flerte. Mas seu negócio era a Arlete. Naquela altura, nem a bateria cheia de mulheres nem a desinibição dos interessados e interessadas seriam capazes de tirar o foco. Podia ser bon vivant, hedonista, qualquer coisa, mas ninguém podia acusá-lo de ser disperso ou confuso em seus objetivos. Queria se aproximar mais da Arlete.


Como às vezes acontece no Rio de Janeiro, armou-se um temporal daqueles que assustam. Os telefones vibraram com os alertas da Defesa Civil, o prefeito foi à televisão e a meteorologia não foi eficiente para prever. O bloco resistiu e, junto com eles, o Bahia.

No final, completamente encharcado, mas feliz, chegou perto da Arlete para dar os cumprimentos pelo desfile.


Ela não entendeu exatamente o que ele disse, entre o som que vinha do caminhão e as trovoadas que ainda ressoavam, mas deu-lhe um beijo na boca.

Dessa vez, quem não entendeu nada foi o Bahia, mas topou, claro.


Só no dia seguinte, ao acordar com ela no apartamento que ele tinha alugado no Catete, ela confessou que tinha se interessado desde o primeiro momento.

Mas o colega dele, agora sócio do escritório e seu chefe, tinha dito que o Bahia era um perigoso conquistador, gostava muito de farra, música, carnaval e outras mundanidades.

Nada do que ele dissesse podia ter sido mais positivo.


Arlete tinha sido casada com um falso moralista e patriota durante longos cinco anos.

Já estava inclusive estranhando o comportamento discreto do Bahia.

Temia muito as investidas do mestre de bateria e torcia para o Bahia não ter visto o selinho, que era um cumprimento antigo entre amigos, mas que ela mesma achava que já deveria ter abandonado.


Por pouco…

Lisboa, setembro de 2026.


 

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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade

Título: O Hedonista, a Ritmista e o Algoritmo do Samba: Crônica de um Carnaval Conectado

Slug: o-hedonista-a-ritmista-e-o-algoritmo-do-samba-cronica-carnaval

Meta Description: Crônica narrativa explora o encontro entre o advogado "Bahia" e a ritmista Arlete no carnaval carioca. Uma análise sobre cultura popular, afeto e a gestão de acervos da música brasileira na economia criativa moderna.

Palavras-chave: Carnaval do Rio de Janeiro, crônica urbana, Economia Criativa, gestão de ativos musicais, certificação musical, cultura popular, Roda de Samba.


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