BOAS AÇÕES
- Leo Viana

- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de jan.

Uma parte dos amigos achava que o problema era genético. Podia vir de uma segregação de genes recessivos, de um avô ou de uma avó desconhecida na árvore da família, de gerações anteriores até. Mas a família, típica de comercial de margarina ou de creme dental, era de uma normalidade — ou “normatividade”, em tempos de vocabulário mais detalhado e decomposto — excepcional.
Os dois casais de avós, que passavam dos 90 anos, tinham tido vidas absolutamente regulares, profissões normais, aposentadorias normais. Talvez não seja relevante, mas eles, curiosamente, mantinham até os dentes naturais, coisa rara entre idosos.
Os pais, também já idosos, eram separados, mas amigos. Tinham se empenhado na criação do filho único e acusavam-se mutuamente de não terem se dedicado o suficiente, apesar do esforço notável que fizeram, sem exageros.
Uma outra parte da turma atribuía a anomalia a um transtorno, que podia ser derivado de um trauma qualquer da infância ou coisa da mesma natureza.
Havia ainda um grupo que atribuía aquilo a outras forças, passando por zodíaco, horóscopo chinês, encostos diversos, orixá de frente.
O consenso não se estabelecia.
Não se sabe. O fato é que o Lucas era excessivamente proativo, disponível, voluntário. E era uma dificuldade para todo mundo definir onde é que isso deixava de ser qualidade e passava a ser um transtorno social insuportável, capaz de tirar do sério gente até então considerada muito tranquila.
Era um tipo de ansiedade do bem, que certamente impressionava positivamente num primeiro contato. Meninas encantavam-se com sua disposição para abrir portas, carros, caminhos. As iniciativas de oferecer água, comidas, bebidas, indicar o caminho do banheiro em restaurantes, mostrar a paisagem a quem não conhecia. Tudo lindo, tudo carismático e simpático. Mas, aos poucos, ia passando do ponto. Aos poucos, aquela gentileza ia virando chatice e desconforto. Quando a relação avançava para maiores intimidades, ele se oferecia para tudo, deixando muito pouco a ser feito pela outra parte, ainda que tivesse, aparentemente, um genuíno desejo de agradar.
Com os amigos, muitos, a situação chegou a níveis insuportáveis antes que houvesse uma intervenção dura. Ele queria montar o cardápio, fazer a comida, lavar os pratos, definir horários, repertórios, hospedagens, casais, leituras, projetos profissionais. Tinha a ansiedade de um oráculo proativo, ainda que parecesse suave no trato. Qualquer pequeno encontro da turma passou a ser uma loucura de sugestões em profusão, todas cheias de boa vontade, mas obsessivamente repetidas e insistentes.
Longe dos amigos e de relações quaisquer de intimidade, era sempre um incômodo desfile de boas ações forçadas: pessoas ajudadas sem necessidade ou demanda, gente incomodada por ter sido tratada como incapaz diante daquela sistemática extenuante de voluntariado ansioso.
Tinha tudo para dar errado. E deu. O Lucas vinha andando alegremente, tal qual o pato da música, quando deu de cara com um grupo que fazia, aparentemente, a manutenção da rede aérea de eletricidade. Como era de seu feitio, auxiliou a turma a encontrar a melhor posição do caminhão, ajudou com os rolos de fio e foi preso com eles quando a polícia chegou e levou a quadrilha de ladrões de cabos elétricos.
Outros acontecimentos do mesmo padrão, com frequência acima do razoável, levaram os amigos a propor a interdição do Lucas. Aconteceu que as evidências e as situações-limite, como a do crime dos fios, não foram suficientes para que a Justiça, mesmo com o laudo de ansiedade arrancado à força de um psiquiatra, deferisse a interdição pedida. O Lucas era cordial e parecia ter a cabeça em ordem, salvo nas horas em que, real ou imaginariamente, alguém precisasse dele.
As coisas seguiram na mesma toada por anos a fio, com a insuportável disponibilidade permanente do Lucas no emprego, onde ele era um servidor público exemplar, incapaz de reclamar das péssimas condições de trabalho e sempre disposto a ajudar no que quer que fosse, incluindo aí situações constrangedoras, insolúveis ou derivadas de propostas ilegais, merecedoras de denúncia e não de ajuda.
O Lucas se aposentou, os amigos desistiram da proximidade e optaram por um monitoramento à distância, com ligações periódicas, mas sem convites.
Dizem que, no Natal, no bairro de classe média onde o Lucas mora desde sempre, os Papais Noéis evitam o quarteirão dele, que sempre corre na frente para pegar o saco e distribuir os brinquedos, a fim de minimizar o cansaço do velhinho.
Num ano-novo desses, há alguns dezembros, correu na frente para acender os fogos e teve queimaduras de terceiro grau; ficou alguns dias internado, para alívio de quem não estava e desespero da enfermaria, claro.
Há pouco, me disseram que ele, já mais velho e um pouco cansado, casou-se com uma vizinha, também conhecida pela disponibilidade voluntariosa.
Parece que brigam o tempo todo, numa permanente disputa de quem faz a comida, lava a louça ou varre a casa.
O cachorro assiste, atônito. Mas foge quando eles se viram para ele. Periga ter de tomar dois banhos seguidos ou comer quantidades industriais de ração, fazer dois passeios, tomar duas vacinas ou dois vermífugos.
O Lucas, definitivamente, é gente boa, solicito, prestativo…
Mas é chato demais!!
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Rio de Janeiro, dezembro de 2025.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.
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