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Caramba, é o admirável mundo novo? Bata na madeira

        


Dalton foi acordado da sesta pelo alarido que vinha da rua. Da janela da sua kitnet no sexto andar do prédio, viu a correria lá embaixo. Tiros e bombas de gás compunham os efeitos sonoros do tumulto. Conferiu no celular. Nada feito. Voltou pra cama para concluir o cochilo. Mais tarde irá conferir as demais apostas na BetFerra e concluir a tarefa do trabalho e enviar para a firma.

 

Aquelas badernas já eram naturalizadas. As ruas das cidades pelo país afora, há tempos, foram transformadas em arenas de constantes escaramuças, principalmente entre o grupo neonazista ‘Camisas Douradas’ e as falanges progressistas formadas por correntes sindicais e militantes dos partidos de esquerda que foram tornados ilegais e passaram a agir na clandestinidade. Grupos de milicianos também apareciam. 

 

         Esses distúrbios se intensificaram já há alguns anos, a partir do conflito ocorrido junto à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, no dia 7 de setembro de 2028, por ocasião dos festejos do primeiro aniversário de criação do ‘Estado Novíssimo de Bem’. Na ocasião, sindicalistas e progressistas que protestavam com cartazes e faixas contra as mudanças na Constituição, foram repelidos a pauladas pelos jovens do ‘Camisas Douradas’.

 

A batalha campal parecia que iria se espalhar, mas a Polícia e milicianos intervieram com violência batendo e prendendo dezenas de manifestantes e poupando os neonazistas. No palanque, o Presidente da República e o Ministro das Finanças, Daniel Vorcaro, sorriam e trocavam expressões de regozijo com os destacados convidados estrangeiros, o presidente estadunidense Donald Trump e seu sucessor, Marco Rubio, que seria eleito dois meses depois.

 

A atmosfera sócio-política do país acompanhava a temperatura das ruas. Desde a posse do novo Presidente e do Congresso Nacional a agitação era vertiginosa. Inúmeras Propostas de Emenda Constitucional alteraram totalmente a Constituição de 1988. O Supremo Tribunal Federal virou peça de adorno com ministros impedidos pelo Senado, a estrutura de instituições de defesa do meio ambiente, encabeçada por Ibama e ICMBio foi desmantelada. Partidos considerados progressistas foram tornados ilegais. Em pouco mais de um ano todas as estatais foram privatizadas.

 

E as coisas aconteciam sem que o público, interno e do exterior, tomasse conhecimento mais amplo das tramas que aconteciam nos bastidores. A chamada mídia independente, que fazia jornalismo verdadeiro, diferente da mídia hegemônica, foi totalmente calada pelas grandes empresas de tecnologia e pelas plataformas digitais de compartilhamento de vídeos. Muitos jornalistas foram presos e uns poucos conseguiram fugir do país. 

 

Dalton, finalmente despertara. Lavou o rosto, comeu uma banana e foi até o computador. Finalizou o trabalho de pesquisa sobre focos de resistência do mercado financeiro às novas empresas. Ele trabalha numa delas, um banco paralelo que agora, legalmente, investe dinheiro de uma facção outrora considerada criminosa, nas movimentações de finanças no país.

 

Terminado o trabalho de home office, Dalton, pega o celular e se entrega a seu maior passatempo. Tecla no aplicativo de sua Bet preferida, a BetFerra e faz apostas variadas. Como o futebol perdeu força desde o fracasso na Copa de 2026, seu segmento preferido é o ‘Women Dance’, em que o apostador tenta acertar quantas mulheres serão assassinadas naquele dia. Também aposta em quantas balburdias de rua (como a que viu mais cedo pela janela) ocorrerão naquela semana. Depois mergulha fascinado e feliz no Cassino Online da BetFerra. Dalton é um jovem feliz. Como milhões de brasileiros.    

 

Aí, eu acordei. Caramba, foi só um pesadelo. Ufa!.



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