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Quando a Normalidade Enlouquece

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Há filmes que envelhecem.

E há filmes que, com o tempo, parecem envelhecer o próprio mundo ao redor deles.


Esse Mundo é dos Loucos (Le Roi de Cœur), dirigido por Philippe de Broca em 1966, é um desses casos raros. Uma comédia antibelicista, leve na forma e devastadora no que sugere. Um filme que, quanto mais distante fica no tempo, mais próximo parece de nós.


A história se passa durante a Primeira Guerra Mundial. Uma pequena cidade francesa é evacuada às pressas. Soldados fogem. Autoridades desaparecem. Ordens se dissolvem. Antes de partir, deixam para trás uma bomba-relógio, programada para explodir quando ninguém mais estiver olhando.


Um único soldado britânico é enviado para desarmá-la.


Ao entrar na cidade vazia, ele encontra algo inesperado: os únicos habitantes que permaneceram são os internos do hospício local. Libertados pelo abandono, eles ocupam as ruas, vestem novos papéis — reis, duques, poetas, barbeiros — e criam um reino improvável. Há flores nas lapelas, desfiles improvisados, afeto sem cálculo. Nada de ódio. Nada de guerra.


Do lado de fora, porém, o mundo segue funcionando “normalmente”. Exércitos se reorganizam. Ordens voltam a ser obedecidas. A morte recupera sua linguagem técnica e seu ar de necessidade histórica.


O contraste é delicado — e brutal.


Quem são, afinal, os loucos?


Os que inventam coroas para não enlouquecer diante do horror?

Ou os que vestem uniformes e chamam destruição de dever?


O filme não responde. Apenas aproxima os dois mundos e nos obriga a olhar. O desconforto nasce justamente daí: talvez tenhamos aprendido a chamar de sanidade aquilo que apenas se tornou habitual.


Décadas depois, a pergunta permanece. Talvez mais incômoda do que nunca.


Vivemos tempos em que o inaceitável foi normalizado.

O extremismo ganhou vocabulário respeitável.

O julgamento substituiu a escuta.

A brutalidade passou a se apresentar como firmeza moral.

A mentira, repetida com convicção, passou a exigir o mesmo respeito que a verdade.


O que antes chocava agora apenas passa.

O que antes indignava agora cansa.

O que antes exigia reflexão agora pede alinhamento.


Nesse mundo, os “loucos” costumam ser outros.


São os que hesitam.

Os que duvidam.

Os que escrevem poemas quando o tempo pede slogans.

Os artistas, os sonhadores, os rebeldes éticos — todos aqueles que não se adaptam com facilidade a um mundo que transformou o cinismo em inteligência.


No filme, há um gesto silencioso que concentra tudo isso.


O soldado, enviado para cumprir sua missão, começa a perceber que algo não se encaixa. A bomba-relógio continua ali, invisível, marcando o tempo. Mas outra bomba, mais profunda, explode dentro dele: a certeza de que obedecer nem sempre é sinônimo de lucidez.


Então ele faz algo simples — e radical.


Ele se despe do uniforme.


Deixa o símbolo da hierarquia no chão, como quem abandona uma linguagem que já não consegue falar. E escolhe permanecer. Não com os “sãos” que organizam a destruição à distância, mas com os “loucos” que, em sua fragilidade poética, se recusaram a matar.


Não é fuga.

É escolha.


Talvez este seja o gesto mais perturbador do filme. E o mais atual. Em um mundo que normaliza o que é moralmente inaceitável, preservar a capacidade de estranhar pode ser o último ato de sanidade.


Porque, no fim, a pergunta que Esse Mundo é dos Loucos nos devolve não é sobre eles.

É sobre nós.


Quando os que estão no poder normalizam o absurdo,

quando a crueldade veste o traje da razão,

quando o mundo se orgulha de sua própria dureza,


quem são, afinal, os loucos?


E, sobretudo,


onde você escolheria ficar?




David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo, silêncio, democracia e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e tem dois novos livros com lançamento previsto para 2026.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



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