Quando a Normalidade Enlouquece
- David Gertner

- há 2 dias
- 3 min de leitura

Há filmes que envelhecem.
E há filmes que, com o tempo, parecem envelhecer o próprio mundo ao redor deles.
Esse Mundo é dos Loucos (Le Roi de Cœur), dirigido por Philippe de Broca em 1966, é um desses casos raros. Uma comédia antibelicista, leve na forma e devastadora no que sugere. Um filme que, quanto mais distante fica no tempo, mais próximo parece de nós.
A história se passa durante a Primeira Guerra Mundial. Uma pequena cidade francesa é evacuada às pressas. Soldados fogem. Autoridades desaparecem. Ordens se dissolvem. Antes de partir, deixam para trás uma bomba-relógio, programada para explodir quando ninguém mais estiver olhando.
Um único soldado britânico é enviado para desarmá-la.
Ao entrar na cidade vazia, ele encontra algo inesperado: os únicos habitantes que permaneceram são os internos do hospício local. Libertados pelo abandono, eles ocupam as ruas, vestem novos papéis — reis, duques, poetas, barbeiros — e criam um reino improvável. Há flores nas lapelas, desfiles improvisados, afeto sem cálculo. Nada de ódio. Nada de guerra.
Do lado de fora, porém, o mundo segue funcionando “normalmente”. Exércitos se reorganizam. Ordens voltam a ser obedecidas. A morte recupera sua linguagem técnica e seu ar de necessidade histórica.
O contraste é delicado — e brutal.
Quem são, afinal, os loucos?
Os que inventam coroas para não enlouquecer diante do horror?
Ou os que vestem uniformes e chamam destruição de dever?
O filme não responde. Apenas aproxima os dois mundos e nos obriga a olhar. O desconforto nasce justamente daí: talvez tenhamos aprendido a chamar de sanidade aquilo que apenas se tornou habitual.
Décadas depois, a pergunta permanece. Talvez mais incômoda do que nunca.
Vivemos tempos em que o inaceitável foi normalizado.
O extremismo ganhou vocabulário respeitável.
O julgamento substituiu a escuta.
A brutalidade passou a se apresentar como firmeza moral.
A mentira, repetida com convicção, passou a exigir o mesmo respeito que a verdade.
O que antes chocava agora apenas passa.
O que antes indignava agora cansa.
O que antes exigia reflexão agora pede alinhamento.
Nesse mundo, os “loucos” costumam ser outros.
São os que hesitam.
Os que duvidam.
Os que escrevem poemas quando o tempo pede slogans.
Os artistas, os sonhadores, os rebeldes éticos — todos aqueles que não se adaptam com facilidade a um mundo que transformou o cinismo em inteligência.
No filme, há um gesto silencioso que concentra tudo isso.
O soldado, enviado para cumprir sua missão, começa a perceber que algo não se encaixa. A bomba-relógio continua ali, invisível, marcando o tempo. Mas outra bomba, mais profunda, explode dentro dele: a certeza de que obedecer nem sempre é sinônimo de lucidez.
Então ele faz algo simples — e radical.
Ele se despe do uniforme.
Deixa o símbolo da hierarquia no chão, como quem abandona uma linguagem que já não consegue falar. E escolhe permanecer. Não com os “sãos” que organizam a destruição à distância, mas com os “loucos” que, em sua fragilidade poética, se recusaram a matar.
Não é fuga.
É escolha.
Talvez este seja o gesto mais perturbador do filme. E o mais atual. Em um mundo que normaliza o que é moralmente inaceitável, preservar a capacidade de estranhar pode ser o último ato de sanidade.
Porque, no fim, a pergunta que Esse Mundo é dos Loucos nos devolve não é sobre eles.
É sobre nós.
Quando os que estão no poder normalizam o absurdo,
quando a crueldade veste o traje da razão,
quando o mundo se orgulha de sua própria dureza,
quem são, afinal, os loucos?
E, sobretudo,
onde você escolheria ficar?
David Gertner, Ph.D.
Nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo, silêncio, democracia e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e tem dois novos livros com lançamento previsto para 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
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