Carta para um jovem (ou não) advogado (ou não).
- Ivan Nunes Ferreira

- há 12 horas
- 4 min de leitura

Recentemente, saiu na imprensa uma ampla pesquisa ( Sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil) cuja constatação deixou-me estarrecido: pela primeira vez na história do nosso país, o número de pessoas que não leem livro nenhum superou o daquelas que têm algum hábito de leitura.
Por essa razão, sinto-me estimulado a divulgar, fora do âmbito do meu escritório, uma ideia que tive, há muitos anos, de recomendar, periodicamente, aos estagiários e jovens advogados a leitura de clássicos da literatura brasileira e universal.
Transcrevo abaixo a última carta com tais sugestões de leitura, que talvez sirva de incentivo para outras pessoas iniciarem ou retomarem o bom costume de ler.
Caro(a)s Estagiário(a)s e novo(a)s Advogado(a)s,
Há cerca de 2 (dois) anos, circulei a última lista com sugestões de livros clássicos, cuja leitura, a meu ver, deveria fazer parte da formação de quem pretende se tornar um verdadeiro advogado.
Recentemente, alguns novos estagiários pediram-me para atualizar tais indicações bibliográficas. Eis o resultado:
Um livro vira clássico quando passa a ser citado em diversos outros livros; palestras; conferências e artigos que lhe sucedem.
Quem não leu o clássico fica “boiando” diante da referência. E vocês, certamente, não querem passar por isso.
Vejam essa definição de Ítalo Calvino, “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.
Costumo mencionar, lá em casa, que existem 2 (dois) tipos de pessoas. As que leem e as que não leem. As do primeiro tipo nunca sentem-se ociosas ou solitárias. O livro é um amigo constante e cheio de novidades.
Ao ver uma série de TV ou vídeos na WEB, que ocupam tanta gente por muito tempo, você assiste, passivamente, ao que passa na tela. Com a leitura solitária- conquista civilizatória responsável pelo incremento do cérebro humano - você acaba obrigado a desenvolver sua imaginação e, com isso, sua criatividade, além do vocabulário, tudo muito importante para um advogado ou qualquer pessoa, na vida profissional ou privada
Não incluí nesta lista livros muito longos, como A DIVINA COMÉDIA; GUERRA E PAZ; OS MISERÁVEIS; MOBY DICK; A MONTANHA MÁGICA; OS IRMÃOS KARAMAZOV; O NOME DA ROSA, embora os recomende entusiasticamente.
Preferi listar livros que vocês possam ler, por exemplo, num fim de semana prolongado, e sem que o namorado ou a namorada fique com raiva de mim.
Vamos, então, aos livros, escolhidos a esmo, sem hierarquia ou ordem cronológica:
1. ODISSÉIA, Homero (Aventuras mitológicas, cujos personagens são reiteradamente citados na literatura até os dias de hoje);
2. DISCURSO SOBRE O MÉTODO, Renée Descartes (Filosofia – a primeira página vale o livro);
3. CANDIDE, Voltaire (Ficção filosófica. Panglos é uma figura inesquecível);
4. ILUSÕES PERDIDAS, Vol. V da Comédia Humana, BALZAC (Romance – a Europa no início do Século XIX);
5. DOM QUIXOTE, Cervantes, para iniciantes, recomendo as adaptações de Orígenes Lessa ou Ferreira Gullar (Versões tipo “melhores momentos”);
6. HAMLET, Shakespeare (Teatro – Shakespeare, para muitos, teria escrito tudo sobre natureza humana);
7. EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, Marcel Proust (Romance – baste ler o volume “O Caminho de Swann”, e não imitem os parágrafos muito longos);
8. O HOMEM QUE FOI QUINTA FEIRA, G.K. – Chesterton (Ficção – tudo de Chesterton transborda inteligência);
9. QUASE MEMÓRIA, Carlos Heitor Cony (Meio romance, meio biografia – um clássico recente);
10. LIÇÕES DA HISTÓRIA, Will e Ariel Durant (História – curto e direto);
11. PARIS É UMA FESTA, Hemingway (Intelectuais em Paris – para quem gostou de PARIS À MEIA NOITE, de Wood Allen);
12. O PROCESSO, Franz Kafka (Sobre a opressão);
13. O ESTRANGEIRO, Albert Camus (Drama psicológico);
14. MADAME BOVARY, Gustave Flaubert (Dramalhão que escandalizou o povo da época);
15. EAST OF EDEN, John Steinbeck (Ficção – sou fã desse americano e gostei mais desse do que de “AS VINHAS DA IRA”, mais famoso);
16. 100 ANOS DE SOLIDÃO, Garcia Marques (Introdução ao realismo fantástico);
17. OS VARÕES ASSINALADOS, Tabajara Ruas (Aventura eletrizante sobre a República Rio Grandense e pré-República brasileira);
18. EQUADOR, Miguel Souza Tavares (Romance – para alguns, o novo Eça de Queiroz);
19. Todos os livros de Eça de Queiroz, começando pelo A CIDADE E AS SERRAS (inigualáveis).;
20. O CAMINHO DA SERVIDÃO, Hayek (um dos livros mais importantes para minha atual visão do mundo);
21. A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO, Mario Vargas Llosa (sobre o supérfluo no mundo em que vivemos);
22. MEMORIAL DO CONVENTO, Saramago (Realismo fantástico português);
23. ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, Aldous Huxley (prefiro do que 1984, de George Orwell, outra distopia interessante);
24. GRANDE SERTÃO: VEREDAS, Guimarães Rosa (Romance – não se assustem com a linguagem);
25. O INFINITO EM UM JUNCO, Irene Vallejo (Obra recente e já clássica sobre a história dos livros);
26. TODOS OS LIVROS DE MACHADO DE ASSIS, nosso maior escritor e gênio da raça;
27. O VERMELHO E O NEGRO, Stendhal(Europa pós-Napoleão);
28. FRANKESTEIN, Mary Shelley, e ROBSON CRUSOÉ, Daniel Defoe, literatura enganosamente juvenil
Entretanto, muito mais autorizadas do que as minhas, são as sugestões de Harold Bloon (“Como E Por Que Ler”), Ítalo Calvino (“Por Que Ler Os Clássicos”) e sob a coordenação de Heloisa Seixas (“As Obras-Primas Que Poucos Leram”).
Termino essas sugestões como o bibliófilo José Mindlim, muito mais fanático do que eu, ao concluir o seu “Uma Vida entre Livros”:
“Mas estou terminando e, se tivesse de escolher uma coisa que desejaria que ficasse bem clara, de tudo o que foi dito, é que, num mundo em que o livro deixasse de existir, eu não gostaria de viver”.
DIVIRTAM-SE!
Ivan Nunes Ferreira
___________________________
Espero que o caro leitor culto perdoe-me a ousadia dessas sugestões, mas garanto que, ao cobrar dos jovens do meu escritório a leitura dessas indicações, tenho recebidos muitos agradecimentos.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
CRIATIVOS! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think Tank Do – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.o eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.


















Comentários