Cinema carioca na Alemanha: estudantes da Penha representam o Brasil em encontro internacional
- Redação

- há 12 horas
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A potência da economia criativa e da educação audiovisual das periferias brasileiras ganha as telas internacionais este mês. Duas alunas do Ginásio Experimental Tecnológico (GET) Brant Horta, situado na Penha Circular, Zona Norte do Rio de Janeiro, foram selecionadas para representar o país no renomado encontro internacional À Nous Le Cinéma!.
O evento ocorre entre os dias 8 e 10 de junho no Deutsches Filminstitut & Filmmuseum, em Frankfurt, na Alemanha, reunindo estudantes, educadores e cineastas de 15 países.
Nathaly Hiara Alves Moraes e Ana Julia Vital de Souza, ambas de 14 anos, viajam para apresentar o curta-metragem "Girando para o Futuro". A obra foi integralmente desenvolvida dentro do Programa Imagens em Movimento (PIM), uma tecnologia social que há 15 anos fomenta oficinas de cinema em escolas públicas do Brasil, transformando salas de aula em polos de experimentação, formação técnica e debate crítico.
O impacto estrutural da Economia Criativa no PIB
Iniciativas como as oficinas de audiovisual nas escolas não operam em um vácuo social; elas constituem a base de formação para um dos setores mais dinâmicos da economia nacional. De acordo com o Mapeamento da Indústria Criativa da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), o setor criativo responde por 3,59% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, movimentando anualmente cerca de R$ 393,3 bilhões.
O segmento audiovisual e de mídias insere-se de forma estratégica nessa cadeia, gerando valor agregado que ultrapassa a mera produção artística. A formação inicial em ambiente escolar funciona como o primeiro elo de uma indústria que hoje emprega mais de 1,2 milhão de trabalhadores formais no país, apresentando taxas de crescimento de ocupação superiores à média dos setores tradicionais da economia. Estados como o Rio de Janeiro e São Paulo concentram a maior densidade criativa do país, transformando a cultura em um ativo de resiliência econômica e atração de investimentos.
A economia criativa não se limita ao entretenimento; ela atua como um vetor estruturante de inovação tecnológica e desenvolvimento social, transformando capital intelectual em emprego qualificado e distribuição de renda.
Metodologia, inclusão e o mercado audiovisual
O À Nous Le Cinéma! se estrutura a partir de uma abordagem pedagógica compartilhada globalmente, voltada para a formação de um olhar crítico por meio do audiovisual. Na edição atual, o fórum ganha o reforço das cineastas francesas Claire Simon e Claire Burger como madrinhas. A inserção de produções de escolas públicas brasileiras no circuito internacional é viabilizada pelo PIM desde 2011, estabelecendo uma vitrine consistente para as narrativas juvenis do país.
Para Ana Julia, a experiência superou as expectativas iniciais, majoritariamente voltadas ao aprendizado técnico do manuseio de equipamentos. O anúncio da viagem e o impacto coletivo da obra trouxeram uma nova perspectiva sobre o alcance do projeto. Já Nathaly Moraes, que no ciclo anterior protagonizou o curta "Axé, Iara" — focado no debate contra a intolerância religiosa —, enfatiza a dimensão coletiva do processo.
A jovem destaca que o resultado reflete o esforço conjunto de toda a turma, sublinhando o caráter colaborativo inerente à produção audiovisual.
A narrativa de "Girando para o Futuro" acompanha Helena, uma jovem que enfrenta os desafios de adaptação ao se mudar para um novo bairro e ingressar em uma escola desconhecida. Ao ser introduzida às aulas de balé por uma nova amiga, Rafaela, a protagonista encontra na expressão corporal e na arte um território de acolhimento e emancipação, contrapondo-se às resistências no ambiente familiar.
Indicadores e descentralização do programa
O Programa Imagens em Movimento é gerido pela ONG Raiar (Rede de Ações e Interações Artísticas), instituição dedicada a integrar as linguagens artísticas ao ecossistema da educação pública. Concebido originalmente no Rio de Janeiro, o programa iniciou em 2022 uma trajetória de descentralização geográfica, estendendo suas oficinas para os estados do Espírito Santo, São Paulo e Bahia.
Ao fechar o balanço de uma década e meia de atuação, o PIM registra indicadores robustos que atestam seu papel na base da cadeia produtiva:
153 escolas públicas beneficiadas nos estados do Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo.
3.000 estudantes da rede pública capacitados em oficinas teóricas e práticas.
229 curtas-metragens produzidos, formando um acervo relevante de visões de mundo da juventude brasileira.
Em 2026, o cronograma operativo do PIM abrange dez unidades de ensino: sete na capital fluminense (com atividades divididas entre bairros como Lagoa, Penha, Oswaldo Cruz e Centro), duas em Macaé e uma em Cumuruxatiba, na Bahia.
De acordo com Ana Dillon, diretora do Imagens em Movimento, a relevância da participação internacional reside na validação desses jovens não meramente como figurantes de um projeto social, mas como autores legítimos.
A circulação global dessas obras permite que vivências locais dialoguem diretamente com o cenário internacional, provando que o investimento em cultura e tecnologia nas escolas públicas descentraliza o acesso e gera dividendos intelectuais e artísticos sem fronteiras.
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