Cristina Sobral convida o leitor a um mergulho para compreender a experiência da vida
- Lais Amaral Jr

- há 2 horas
- 5 min de leitura

Num tempo marcado pela aceleração e pelo excesso de ruídos, a poesia é um contraponto de pausa e escuta. É nesse território que se insere, Sob a luz de um novo antes, o mais recente livro da poeta Cristina Sobral. A obra investiga os limites entre o visível e o invisível, o transitório e o permanente, onde a voz poética feminina leva o seu olhar atento às inquietações do mundo contemporâneo, sondando os seus desejos, reveses, desatinos e paixões.
A poesia de Cristina Sobral se assenta na economia de palavras e na densidade imagética. Seus versos não buscam o impacto imediato, mais o aprofundamento. São elaborados como pequenos movimentos de aproximação e convidando o leitor a embarcar nessa atmosfera e desacelerar. Nesse sentido o poema se apresenta como experiencia, convidando o leitor a atravessar áreas delicadas da experiencia humana.
- “O poema é um rasgo no mistério, um rasgo feito pela angustia que paira sobre o mundo, pelo nó na garganta, pela perdição, pela escassez ontológica, para dar voz ao desconhecido, para atravessarmos o caos e tocarmos o belo, o simples, a leveza, a essência das coisas, o amor, êxtase e seguirmos compreendendo a experiencia da vida”, descreve Cristina.
Segundo a poeta, a obra nasce de um processo de desaprendizagem e despojamento, passando por camadas e camadas de silêncio, quando o olhar adquire um certo grau de nudez e o poema acontece. Depois, o desejo de partilha, a grande festa do encontro. Em Sob a luz de um novo antes, o leitor é convidado a viajar com a poesia pelos lugares mais fundos da experiencia.
Cristina Sobral é poeta e artista auto didata em pintura. Graduada e pós-graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia, foi procuradora federal e professora universitária. É terapeuta junguiana, especialista em Processo Criativo e Mitologia Comparada. Iniciou sua trajetória artística na música, com premiações em festivais de música popular na Bahia, antes de se dedicar integralmente à poesia.
Participa de diversas antologias e é autora dos livros: ‘De estrelas pálidas e de quasares’, ‘Decifrando esfinges’, ‘Prumo’, ‘A flecha e o vento’, ‘O lado escuro dos dias também sabe voar’.
Fica técnica:
Título do livro: Sob a luz de um novo antes
Autora: Cristina
Editora: Natesha
ISBN/ASIN : 978-65-980698-9-6
PAGINAS 182

CRIATIVOS - Chico Buarque certa vez disse que o texto tem música. Prosa e poesia principalmente. Você é uma poeta familiarizada com o mundo da música e da pintura. Essas formas de expressões artísticas ajudam na construção ou aparecem na sua poesia?
CRISTINA SOBRAL - A interação entre as diversas formas de expressão artística não é apenas uma tendência do mundo contemporâneo. Na Grécia Antiga, por exemplo, a Ilíada e a Odisseia tinham os seus versos declamados ou cantados pelos poetas conhecidos como aedos, normalmente acompanhados por instrumentos de corda, como a lira, vindo daí a definição do gênero literário “poesia lírica”, que traz uma certa musicalidade através do ritmo e da rima. No meu trabalho artístico esses diálogos sempre aconteceram, quer entre música e poesia, quer entre a arte pictórica e a poética. E, sim, o texto tem música, a tela tem poema.
CRIATIVOS - A poesia pode ser uma força de equilíbrio neste mundo apressado e tumultuado dos nossos dias ou essa pressa e toda essa barulheira também tem muita poesia?
CRISTINA SOBRAL - Tudo cabe no mundo da poesia, não só a pressa e os barulhos, como também a guerra, a solidão, a violência, as injustiças sociais, o amor, tudo que atravessa a vida e também o que a ultrapassa. A poesia pode ser uma força de equilíbrio, mas também de desconstrução, de renovação, de transmutação pessoal, pois ela traz provocações, reflexões e pode até nos roubar o chão. Neste novo livro tem um poema chamado “Dias poentes”, que seria a melhor resposta para a sua pergunta: “Se estou aqui/e desse jeito/ varando a turbulência dos dias/ é porque ela traz um girassol plantado atrás do muro...”
CRIATIVOS - O pendor pelas artes é algo de família? Como tudo começou?
CRISTINA SOBRAL - A minha família tem, sim, um pendor pelas artes, porém não houve nenhuma influência dela no acontecimento poético em minha vida. Comecei a escrever aos treze anos, mas fui tocada profundamente pela poesia ao ler, ainda menina, o poema ‘A Fonte e a Flor’, de Vicente de Carvalho. Li e reli este poema com renovada emoção e descobri algo que eu desconhecia e não sabia nominar. Em outra experiência na infância, ao observar um poodle branco que se coçava, pensei que para a pulga que o picava o mundo devia ser bem quentinho e branco, e imaginei que o meu próprio mundo também não devia ser como eu o via e fui projetando essa imagem até o infinito. Costumo dizer brincando que tive um ataque de infinitude, mas considero que estas experiências abriram algum portal para a poesia.
CRIATIVOS – Além de Vicente de Carvalho, que outros poetas você admite que tiveram alguma influência sobre sua carreira?
CRISTINA SOBRAL - Li muito Drummond, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Ferreira Goulart, Vinicius, Adélia Prado, Mário Quintana, Manuel de Barros, Hilda Hilst, Leminsky..., enfim, não posso dizer que este ou aquele poeta influenciou a minha carreira, mas posso dizer que cada poema lido trouxe uma pequena luz que foi ampliando a minha consciência. Como a vida é evolução contínua, a própria expressão poética vai sendo afetada por novos encontros, novos saberes, pelo nosso olhar renovado, pela construção da nossa própria singularidade.
CRIATIVOS - O livro é o único veículo para você espalhar sua poesia ou você usa outros meios para propagar sua arte?
CRISTINA SOBRAL - Em relação à arte poética, costumo casá-la com a fotografia, um dos meus hobbies, e postar fotopoemas nas mídias sociais. Para isto uso principalmente os meus haicais, uma forma poética minimalista bem adequada a esse trabalho. Às vezes, a fotografia me inspira o haicai, outras vezes, o inverso.
CRIATIVOS - Voltando ao tema da pressa dos nossos dias de Tik-Toks e ainda com referência ao livro, você acredita na resiliência do objeto livro?
CRISTINA SOBRAL - Sem dúvida. O livro físico e o livro digital não são realidades excludentes e as estatísticas comprovam que os prognósticos negativos em relação ao primeiro, ruíram. Particularmente prefiro o livro físico pela experiência sensorial que ele propicia, como o virar das páginas, o conforto visual e uma inexplicável sensação de um contato mais profundo com o texto.
CRIATIVOS - Além de você, que outros poetas você indicaria para o jovem ler?
CRISTINA SOBRAL - Cartas a um jovem poeta (Rainer Maria Rilke), O Livro das Ignorãças (Manuel de Barros), a poesia de Paulo Leminsky.
CRIATIVOS - Qual o nome desse gato com cara de invocado e que parece ter ciúme de você?
CRISTINA SOBRAL - Esse gato é o meu mestre de amor incondicional e se chama Théo. Como todo gato, é uma obra de arte viva.
CRIATIVOS - Fale o que for do seu interesse e as perguntas não foram capazes de estimular.
CRISTINA SOBRAL - Retomarei o tema sobre o desejo de quietude neste mundo barulhento e apressado com um poema do livro Sob a luz de um novo antes.
ÍNTIMO
nenhuma gota escorra de nenhuma pétala
nem a suavidade da brisa, ou a sua canção
nenhuma asa batendo de borboleta...
ao menos por um átimo de segundo
o íntimo do silêncio na manhã.
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