Velocidade x tempo real
- Luiz Inglês

- há 13 minutos
- 3 min de leitura

Curioso como a natureza tem seu tempo – vamos chamá-lo de – universal. Há milhões, ou melhor, bilhões de anos tudo se processa de forma conhecida e habitual. O dia, no critério humano, leva 24 horas. Este tempo, não importa o nome que dermos, sempre será o mesmo. O dia é claro e a noite escura. A primavera antecede o verão, sempre. A neve derrete quando a temperatura esquenta e a água entra em ebulição quando se esquenta mais ainda. Tudo segue uma predeterminação natural. Da semente sai a muda que se transforma num vegetal maduro. Vemos bem de perto e o longe fica difícil, o horizonte é apenas uma linha distante.
Tudo isso para evidenciar a questão do natural e nossa ânsia em sempre subverter e contrariar as normas seculares. A noite não é mais escura, inventamos diversas formas de iluminá-la. O binóculo veio para aproximar o horizonte longínquo. Buscamos de todas as maneiras contestar as leis orgânicas nos opondo à lógica previsível. O homem não se aquieta até conquistar mais um degrau na imensa escadaria do “progresso”. Alguns passos são possibilidades ambiciosas com perspectivas de melhorar nosso cotidiano. Mas minha questão aqui é perguntar porque este desejo pela velocidade? Por que buscamos ir sempre além da expectativa mesmo quando não profícua?
Transgredir uma rotina, às vezes, é uma quebra da conjuntura aceita, em busca de uma inovação que acelere e traga para mais perto nossa compreensão do possível, ainda inatingido. Mas, é necessário? O dia leva as conhecidas 24 horas mas buscamos formas de acelerar o que se pode conquistar dentro deste “timing”estabelecido. Veja a panela a vapor, o microondas, o air-fryer, as cápsulas de café ou os aspiradores robô e tantos outros “gadgets”. Tudo criado para se ganhar minutos preciosos. O mercado vende essencialmente a sensação de estar otimizando seu tempo. O produto não precisa funcionar melhor; precisa sim fazer o comprador sentir que ganhou alguma vantagem acelerando em instantes sua rotina.
As estradas eram de terra batida. As carroças e carruagens balançavam e rangiam até chegar aos seus destinos. Hoje com o asfalto e os carros modernos, encurtamos a distância e por que não – se isso é possível – o tempo.
As caravelas levavam da Europa ao Brasil, 2 meses para atravessar o Atlântico. Hoje moderníssimos transatlânticos navegam a mesma distância em 15 dias.
Toda inovação que se busca, grande parte delas é para otimizar nosso tempo. Vivemos a época da rapidez. Não temos mais os vinis com suas 12 músicas. Os app’s atuais nos oferecem música a música. Não temos que levantar do sofá para trocar o lado dos LP’s. Não quer falar de LP’s? Então vamos para a fita K-7. Tínhamos que esperar rebobinar para voltar ao início... Nas TV’s era obrigatório ir até o aparelho e mudar o canal no seletor. Hoje ninguém levanta mais, basta o controle remoto. Tudo com mais ligeireza.
Os carros tem marcado em seus velocímetros velocidades máximas de até 220 km/h. Pra que? O limite de velocidade nas estradas é a metade disso...
Mas por que e pra que buscamos esta pressa toda? O que esperamos conseguir com este tempo conquistado? Como moro na roça, meu ritmo por aqui é bem mais natural. A cadência que se impõe é fruto da própria natureza. Não é a campainha do despertador do celular que nos desperta para mais um dia com o compasso organizado por compromissos pontuais de uma agenda rígida, mas sim pelo amanhecer que traz a luz solar e os primeiros cantos dos pássaros. É o nosso ciclo circadiano.
O timing da natureza não é uma regra imposta de fora – é uma propriedade emergente de sistemas que evoluíram em ambientes previsíveis. Por bilhões de anos foi e é assim. Quando estamos na cadência do universo nosso humor se modifica. Nosso corpo entra em sintonia. Certas coisas não dá para mudar, por mais que o homem insista em sempre buscar a velocidade, a rapidez em detrimento da compreensão, do entendimento e sobretudo da pulsação natural do planeta.
Luiz Inglês
Maio 2026
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