INVESTIGAÇÃO
- Leo Viana

- 24 de mai.
- 7 min de leitura

Não havia mais moradores originais no conjunto habitacional do subúrbio, erguido nos anos 40. Os atualmente mais velhos já tinham chegado quando acontecia o início da decadência do lugar. Ninguém tinha nascido lá.
Os que nasceram tinham se mudado para conjuntos melhores, bairros melhores, lugares melhores. Ou eventualmente piores. Saíram, enfim.
O que antes era uma grande comunidade de amigos tornou-se, com o tempo, um conjunto normal, em que as pessoas já não se preocupam com a vida dos outros. Ou nutrem mais curiosidade do que propriamente algum tipo de preocupação. O que antes podia ser uma troca de mantimentos, o oferecimento ou a necessidade de uma xícara de farinha de trigo ou açúcar, hoje é mais a ânsia de saber o que cada pessoa faz, de onde vem o seu dinheiro, quem são seus parentes, de onde ela veio.
Exatamente por essas características, o morador do apartamento 403 do bloco 13 deixava a vizinhança louca. Todos o conheciam, mas ninguém sabia exatamente nada sobre ele. Sabiam que era discreto, beirava os 60 anos, saía cedo e normalmente voltava tarde. Sabiam também que, por vezes, passava dias seguidos em casa; não tinha filhos, cachorro nem mulher. Sabiam ainda que pagava as contas em dia e que era o único dos apartamentos do bloco 13 que não tinha telefone fixo.
Evanildo herdara o apartamento de um tio distante, também sem filhos. Depois de várias tentativas frustradas de carreira, decidiu ser detetive particular, incentivado por um dos poucos amigos que tinha. Fracassara como motorista de ônibus urbanos, táxis e aplicativos. Não chegou aos caminhões porque não gostava de viajar. Não tinha, inicialmente, uma aptidão especial para a investigação; nunca fora fofoqueiro, jamais se metera na vida dos outros. Nunca fora especialmente curioso, mas, diante da decepção com carreiras anteriores, meteu-se num curso e saiu com o diploma de detetive.
O esvaziamento do Centro do Rio de Janeiro foi determinante para que alugasse uma sala barata na Rua Visconde de Inhaúma, perto da Praça Mauá. Foi ali que começou, num escritório sem letreiro, com uma mesa e mais nada, aquele que viria a ser o seu último ofício na vida. Mantinha os recibos da previdência e alguns poucos anos ali seriam o suficiente para requerer a aposentadoria.
Confiava, corretamente, que seus vizinhos do conjunto habitacional não seriam usuários de seus serviços. Contava principalmente com uma clientela mais abastada e necessitada de discrição. Obviamente não ia se apegar aos estereótipos dos filmes e da literatura policial. Não fumava cachimbo, não usava capa e, no Rio de Janeiro de calor infernal, usava muito mais camisetas e jeans. Só muito eventualmente trajava um terno ou alguma roupa capaz de ocultar suas reais intenções investigativas em casos específicos. Desse modo, tinha camisas coloridas de turista, roupas esportivas, roupas de praia, ternos e roupas próprias para frequentar baladas onde, por vezes, uma campana tinha início ou desfecho.
Foi preciso, além da mesa, equipar o escritório com um armário capaz de guardar as roupas. Não eram muitas, mas era importante que não ficassem em casa. Sair carregando mochilas ou malas de roupa diariamente aguçaria ainda mais a curiosidade dos vizinhos.
Essa conclusão sobre a curiosidade dos vizinhos talvez fosse falsa. A curiosidade deles continuava e só crescia, principalmente porque Evanildo não dava pistas sobre a sua vida cotidiana. Nos longos períodos que passava em casa durante o ano, por exemplo, era frequentador assíduo das quadras de esportes do conjunto, bastante maltratadas pela falta de manutenção. E, nesses momentos de integração, Evanildo era praticamente transparente, invisível.
Na quadra, era um pivô eficiente no futebol de salão; nas conversas, era capaz de concordar com teses de direita e de esquerda sem que nenhum dos lados encontrasse elementos suficientes para uma crítica mais severa. Criticava com igual “veemência moderada” os alegados malfeitos da esquerda nos escândalos do mensalão e da Lava Jato, assim como o lamentável comportamento da direita frente à pandemia de covid-19, a tentativa de golpe de estado, a submissão aos Estados Unidos e o desprezo às questões ambientais.
Conseguiu manter a discrição por muitos anos. Essa regularidade durou até a mudança para o 401 de uma moça solteira, cujo nome ele demorou a descobrir, mesmo sendo um detetive. Evanildo voltava para casa uma vez por volta das 11h da noite, quando encontrou, na escada entre o segundo e o terceiro andar, uma bela moça descendo. Deu boa-noite e não fez mais perguntas, mas impressionou-se.
“Moça”, aliás, foi a palavra que ele usou para descrever para si mesmo a bela mulher de seus 35 anos, com cabelos negros e brilhantes descendo até a cintura fina, pele queimada de sol, corpo suavemente atlético, vestida discretamente, mas de um modo que provocava, ao menos no Evanildo, um forte interesse. Logo ele, que havia muito prometera, quase profissionalmente, passar ao largo de projetos românticos.
Além das frustrações profissionais, dois relacionamentos desfeitos aumentavam o peso do carma existencial de Evanildo.
O furor investigativo que ela provocou não tinha paralelo nem na profissão. Geralmente levava os casos até o final, mas sem o vigor dos detetives de livro, sem a sanha investigativa de Sherlock, Poirot ou Maigret. Resolvia burocraticamente a maioria dos casos, ainda que envolvessem traições e fotos em motéis, ou eventualmente pequenos furtos. Tinha a técnica e sabia como resolver os casos sem maiores emoções. Agora, sim, tinha uma meta desafiadora, que era descobrir mais sobre a nova moradora.
Num conjunto sem portaria, não havia a quem perguntar. Não iria interpelar outro vizinho ou vizinha e despertar neles ainda mais curiosidade. Assim, foram três longas semanas até que descobrisse que ela morava no 401. Bem perto dele.
Para saber o nome seria preciso algum artifício. Fácil. Resolveu bater na porta dela. Mas os horários nunca coincidiam. Foi mais uma semana até que conseguiu acertar o momento em que ela estava em casa e pedir palitos de fósforo à vizinha. Não fumava e os fósforos tinham acabado; o fogão velho não tinha acendimento automático e precisava cozinhar. A desculpa colou. Ela cedeu os fósforos e, antes de voltar para o seu bunker, Evanildo conseguiu saber que ela se chamava Odete.
Ele tinha se apaixonado ainda no primeiro encontro, na escada.
O tempo que se passou entre essa primeira aproximação funcional e as primeiras tentativas de chegar a alguma coisa mais romântica — e carnal — foi dramático. Evanildo sofreu, bateu na porta, pediu óleo, farinha, manteiga. Sentia que exagerava. Estava deixando claras demais as intenções. E deprimindo-se com isso. Casos atrasaram e, com eles, o aluguel da sala, o plano de saúde, a conta de luz do apartamento. Mas ele conseguiu se fazer notar e — melhor que isso — ela pareceu manifestar interesse.
Em pouco tempo a felicidade voltou e Evanildo chegou a solucionar cinco casos pendentes em uma semana, pagou as contas em atraso e fez a reserva em um bom restaurante da Zona Sul para levar Odete e marcar o início de uma relação que parecia já nascer madura e estável.
Alguns meses depois, no escritório, recebeu um cliente muito discreto, mas que parecia poderoso e influente. Ele jurava já ter visto aquele rosto na televisão, mas não sabia exatamente em que situação. E fazia parte da ética profissional não perguntar muito. O cliente tinha uma demanda de pesquisa de traição e desaparecimento.
Tinha conhecido uma moça — Eliana de tal, não sabia o sobrenome — que tinha deixado marcas profundas em sua vida, mas ele era casado, e a relação foi fugaz, ainda que significativa, ao menos para ele, homem já de certa idade.
Desembargador aposentado, 75 anos, morador do Leblon, casado há 50 anos, dois filhos, quatro netos e uma fortuna em imóveis urbanos e rurais.
Evanildo ouviu e, por dever de ofício, perguntou sobre a moça. Ela foi descrita como uma bela mulher, discretíssima profissional do sexo, entre 30 e 40 anos, 1,60 m, cabelos loiros pintados, casada, bronzeada e moradora de Copacabana. O desembargador fez questão de dizer que tinha ido pessoalmente e também mandado prepostos ao endereço dela. No entanto, só fez constatar o desaparecimento de Eliana, após ter causado um forte impacto emocional no velho causídico.
O raciocínio de Evanildo já dava saltos. O aparecimento de Odete e o desaparecimento de Eliana pareciam complementares, mas isso seria óbvio demais. Profissional do sexo? Casada?
Ainda falando sobre o caso, levantando elementos para iniciar a investigação, conseguiu obter do desembargador a informação mais importante: em um momento de intimidade, não descrito em detalhes por pudor, Eliana teria dito ao desembargador que tinha parentes em um conjunto habitacional do subúrbio. As coincidências aumentavam, mas “subúrbio” é um conceito muito amplo e o desembargador não sabia dizer a que bairro ela se referia.
Ao fim das explicações, o magistrado também perguntou se, além de encontrá-la, Evanildo poderia levantar a ficha da moça e saber se continuava casada ou não. As fotos apresentadas pelo desembargador indicavam certa semelhança entre Eliana e Odete, mas Evanildo não queria acreditar em uma coincidência daquele tamanho. As fotos não eram boas. Eliana sempre se negou a ser fotografada junto com um homem casado, disse o cliente. Esse cuidado dela parece ter sido inclusive uma das razões que o levaram a se apaixonar por ela.
Terminada a conversa inicial e acertados os detalhes sobre os pagamentos, Evanildo saiu do escritório matutando sobre a vida. Não tinha elementos suficientes para iniciar a busca além daquela improvável coincidência.
Encontrou Odete num bar de Madureira, não muito distante do conjunto onde moravam, e foi direto ao ponto, para surpresa da agora namorada. Perguntou se ela já tinha sido Eliana, casada, morado em Copacabana e namorado secretamente um poderoso desembargador.
Odete fez uma cara de surpresa inicial que confundiu Evanildo. Mas em seguida deu uma gargalhada ruidosa.
— De onde você tirou isso?
A reação sincera e espontânea desarmou o detetive.
Já temia ter que investigar a mulher que tinha tirado sua vida do ostracismo emocional. Seria ele mesmo parte da investigação, envolvido com a preferida de um homem poderoso, trairia a confiança de quem tinha lhe devolvido alguma alegria de viver. Já tinha completado o tempo suficiente para se aposentar do trabalho, mas não da vida.
No dia seguinte, devolveu o valor do sinal que tinha recebido do desembargador. Afirmou que não tinha possibilidade, com aquelas informações, de levar a cabo a pesquisa e oferecer um resultado satisfatório. O subúrbio era grande demais.
Odete tinha seus segredos, mas quem não tem?
E a paz de espírito não tem preço.
Rio de Janeiro, maio de 2026.
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