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DE MORRER

Atualizado: há 4 dias


2040. Maio. Tempo relativamente seco no sudeste do Brasil. Aquele país, grande potência sul-americana, liderança do Sul Global, beneficiado pelas incríveis colheitas que obteve após o definitivo aumento das temperaturas que fez a produção agrícola do Norte Global entrar em colapso e estabeleceu um quadro de dependência radical não muito diferente do que havia nos séculos da colonização — mas agora pago em dólar e euro —, encheu o cofrinho sem tráfico de negros africanos, sem novos massacres de indígenas ou coisas assim.


Até a legislação trabalhista, que quase colapsou definitivamente no início do século XXI, deu uma melhorada.

Nossa escala de trabalho já é 4x3, zeramos o analfabetismo e a mortalidade infantil caiu a níveis escandinavos do século XX, no auge do desenvolvimento da Europa Ocidental.


O aborto não é mais uma discussão religiosa, as drogas leves deixaram de ser um problema de polícia e tudo está bem encaminhado. O brasileiro está entre os mais felizes. Ainda há pequenos bolsões de pobreza, mas os programas sociais têm sido cada vez mais eficientes e não há falta de assistência em nenhum canto desse país enorme.


Um único ponto, dentre as medidas de modernização da sociedade submetidas ao Congresso e adotadas pelos últimos governos, a reboque da onda de riqueza e desenvolvimento que varreu a sociedade brasileira, parece não ter chegado a bom termo. Foi a legalização da morte assistida, ou eutanásia, conforme já adotada há muitos anos em diversos países, especialmente na já referida Europa Ocidental.


A modernidade institucional não trouxe, no pacote, a modernização dos costumes. A melhora radical no atendimento público de saúde e a quase extinção dos planos privados não acabaram com as reclamações — algumas justas, outras derivadas do antigo hábito de reclamar da coisa pública. Houve um tempo, alguns ainda se lembram, em que se reclamava até das universidades públicas, que estavam entre as ilhas de excelência num serviço público efetivamente cheio de altos e baixos. Hoje, com tudo funcionando perfeitamente — foram criados centros especializados que atuam a partir das expressas indicações médicas e do atendimento de diversos protocolos individualizados —, a fila de gente para morrer nos serviços de morte assistida parece a velha fila dos postos do INPS, precursor do INAMPS e do INSS.


Um dia comum no serviço de morte assistida de São Paulo, o maior do país. Vejamos.

Seu Zé Lino, há 100 anos sobre a terra, pleno de consciência, alguma diabetes, pressão na régua, 11 por 7, sem Losartana, chegou cedo e pediu para morrer porque tinha ficado impotente. Não adiantava explicar que precisava de encaminhamento, doença terminal sem perspectiva de cura, anuência da família e mais uma meia dúzia de condições objetivas. O velho queria morrer!

Dona Maria Moça, 97, ex-garçonete, ex-babalorixá, ex-pastora, ex-dançarina e mais exum tanto de coisas, queria morrer porque o marido morreu na semana anterior e não tinha mais o que fazer na vida. Nunca gostou de burocracia e ouviu dizer que ali podia morrer rápido.


Zeferino Alencastro, 32, cearense, gay, stripper, vulgo “Lara”, queria morrer hoje ainda, apesar da exuberante saúde. Tinha sido discriminado a vida toda, ninguém lhe dava emprego, apesar da boa escolaridade, e agora estava sendo explorado numa boate para pagar o aluguel do quartinho no centro de São Paulo, porque na Zona Leste ele estava jurado de morte por ser gay. Melhor morte assistida que tiros de fuzil. Aconselhado a procurar a polícia, desconversou. A ameaça, parece, veio de lá. A assistente social ainda está conversando com ele.


No fim da fila, uma bateria de escola de samba com representantes de todos os instrumentos. Uns 50 percussionistas, pelo menos. No meio da trupe, com atestados semelhantes assinados por um médico amigo da escola, três idosos. Logo se soube que eram um antigo casal de porta-bandeira e mestre-sala e um antigo mestre de bateria. Gêmeos, os três! Dedicaram a vida toda à pequena escola de samba do subúrbio e agora, apesar da boa saúde física, um probleminha aqui e outro acolá — um pouco de surdez, um pouco de artrite, alguma demência senil — os impediam de continuarem sendo úteis à agremiação. Assim, decidiram transformar a morte em um grande evento, com o endosso de Dr. Xavier, ex-presidente e baluarte da Acadêmicos.

O pessoal da recepção não sabe direito o que fazer, mas já há assinaturas suficientes para que se proponha alguma revisão no sistema.


Um casal acaba de chegar à recepção depois de uma briga. Furaram a fila e alegam urgência! Mas dizem que se amam e querem morrer juntos. Aos 30 anos!


A velhinha na maca, com metástase de um câncer de intestino e todos os papéis e protocolos já atendidos, aguarda pacientemente ao lado da filha.

Elas têm o destino traçado. Preferem esperar o fim da confusão.


Rio de Janeiro, dezembro de 2025.

 

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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade


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