top of page
criativos 2022.png

E se…


Ronaldo Mota*
Ronaldo Mota*

No universo das inteligências artificiais (IAs), nenhum país pode reivindicar soberania plena. A cadeia produtiva dos chips mais avançados ilustra com clareza essa interdependência: Estados Unidos, Países Baixos, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e China, cada qual especializado em etapas distintas do processo.


Essa divisão global, no entanto, não elimina gradações de autonomia. Pelo contrário, revela um espectro que vai da independência relativa à vulnerabilidade extrema. O Brasil, infelizmente, a exemplo de mais de uma centena de outras nações, ocupa a faixa mais frágil desse espectro.


Até pouco tempo, seria impensável que conflitos e retaliações pudessem alcançar um país de tradição pacífica como o Brasil. O novo cenário internacional, porém, não poupa ninguém. Nações discretas como Canadá e Dinamarca encontram-se agora no centro de tensões geopolíticas, demonstrando que o impensável pode, em certas circunstâncias, tangenciar o possível.


No campo das IAs, o acesso a essas tecnologias transcende o diferencial competitivo: trata-se de um elemento vital e estratégico. Não são ferramentas que se possam desenvolver no curto ou médio prazo, e as restrições regionais impostas às IAs de última geração funcionam como laboratórios para mecanismos de cerceamento mais amplos e definitivos. Nesse contexto, a especulação sobre como o Brasil poderia agir diante de uma hipotética situação de conflito de interesses ganha relevância.


Para além da restrição ao uso de IAs, existe a possibilidade, tecnicamente real, de bloqueio ao próprio acesso à internet. No caso brasileiro, a maior parte do tráfego digital chega ao país por cabos submarinos. Em uma escalada de radicalização, esses cabos tornam-se alvos vulneráveis, passíveis de serem desativados em caso de desentendimentos entre partes.


O Brasil concentra suas conexões internacionais em um grande hub em Fortaleza (CE), que o liga à Europa e à África por cerca de 16 cabos, entre eles o EllaLink (via Portugal) e o cabo oriundo de Angola. Há ainda conexões relevantes no Rio de Janeiro (RJ) e em Santos (SP) com os Estados Unidos, por meio do novo sistema SAC-2, sem contar múltiplos outros enlaces regionais de menor relevância nesse contexto.


Caso o sistema de cabos seja inviabilizado, restaria o acesso via satélites, em especial o Starlink. Mas se essa ferramenta, sujeita aos mesmos interesses geopolíticos, também se tornar indisponível, surge a pergunta: por onde, estrategicamente, o país poderia acessar a internet, evitando todo o caos que de sua ausência decorreria?


Uma alternativa, em tese, seria a China. O país asiático desenvolve dois grandes projetos de constelação de satélites em órbita baixa (LEO) para transmissão de dados sem cabos, competindo diretamente com o Starlink: o Qianfan (SpaceSail) e o Guowang. O Qianfan, voltado ao uso comercial e a parcerias internacionais, já firmou acordos com Brasil, Malásia e outros países, e planeja uma constelação de 15 mil satélites para oferecer internet global de alta velocidade. Já o Guowang, mais sigiloso, prioriza segurança nacional e aplicações militares, equivalente ao Starshield dos Estados Unidos, com meta de 13 mil satélites.


A China também já testou com sucesso a transmissão de dados via laser entre satélites e o solo, atingindo 100 Gbps, superando a capacidade demonstrada pelo Starlink nessa tecnologia específica.


Espero estar sendo desnecessariamente pessimista nesta especulação. Desconfio, porém, que os tempos atuais sugerem máxima cautela e estudos de múltiplos cenários. Tarefa para aqueles que pensam estrategicamente, o que não é meu caso e nem minha função. Espero que esses elementos já estejam sendo analisados. Afinal, e se…?

 

*Titular da Cátedra em Inteligência Artificial no Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CBAE/UFRJ).


Estou ouvindo a playlist Música Popular, Brasil.

Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.



 

CRIATIVOS, Pensar, Fazer!  atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.

Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.

Mantém em aberto chamada para

O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think-and-Do Tank – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.

Receba o RADAR CRIATIVOS (semanal)

Bastidores, análises e oportunidades da economia criativa.

Ou, se preferir, envie um email para:playeditora@gmail.com (com o assunto: QUERO RADAR)

 

 

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade

Comentários


+ Confira também

Destaques

Essa Semana

bottom of page