Eliane Cristina manda a letra: Qual o preço da vingança quando a justiça falha?
- Lais Amaral Jr.

- há 1 hora
- 6 min de leitura

Depois da vingança, o que sobra?
Na Lei de Talião, do Código de Hamurábi, a premissa do "dente por dente"objetivava impor limite à puniçao e estabelecer equivalência entre o dano sofrido e a pena aplicada.
Mesmo após séculos, a regra continua sendo justificativa para aqueles que desejam reparar os infortúnios com as próprias mãos. Mas quanto custa buscar a justiça pessoal?
No livro Olho por Olho: ecos do imperdoável, Eliane Cristina, mostra como a violência silencia uma família à beira do Rio dos Sinos. O crime, combinado à censura das vítimas e ao apagamento das provas, deixou uma lacuna preenchida pelo rancor. O sentimento reverbera por anos até ser posto à prova com a execução de um plano vingativo, movido pela espera de uma reparação nunca feita.
Ambientada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a obra também contextualiza a vida de imigrantes alemães que chegaram à cidade após a década de 1910. A partir da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a narrativa situa as consequências enfrentadas pelos estrangeiros, entre elas a repressão política e cultural, a proibição da língua alemã e o desapossamento de terras. Ao conectar passado e presente, a história contempla como vivências coletivas interferem na construção de cicatrizes individuais.
O livro encara de forma sensível as reflexões filosóficas e psicológicas da humanidade. Eliane Cristina, também autora do romance Marias (2025) e do livro infantil O Rapto das Cores (2025), não mostra a vingança como um ato isolado, mas como o resultado de uma construção de fatores - internos ou externos. A dualidade e o simbolismo das decisões humanas são questionados ao longo de 11 capítulos, que aproximam estes temas universais da realidade de cada indivíduo.
No livro Olho por Olho: ecos do imperdoável, Eliane Cristina, mostra como a violência silencia uma família à beira do Rio dos Sinos. O crime, combinado à censura das vítimas e ao apagamento das provas, deixou uma lacuna preenchida pelo rancor. O sentimento reverbera por anos até ser posto à prova com a execução de um plano vingativo, movido pela espera de uma reparação nunca feita.
Ambientada em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, a obra também contextualiza a vida de imigrantes alemães que chegaram à cidade após a década de 1910. A partir da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, a narrativa situa as consequências enfrentadas pelos estrangeiros, entre elas a repressão política e cultural, a proibição da língua alemã e o desapossamento de terras. Ao conectar passado e presente, a história contempla como vivências coletivas interferem na construção de cicatrizes individuais.
O livro encara de forma sensível as reflexões filosóficas e psicológicas da humanidade. Eliane Cristina, também autora do romance Marias (2025) e do livro infantil O Rapto das Cores (2025), não mostra a vingança como um ato isolado, mas como o resultado de uma construção de fatores - internos ou externos. A dualidade e o simbolismo das decisões humanas são questionados ao longo de 11 capítulos, que aproximam estes temas universais da realidade de cada indivíduo.

CRIATIVOS - O Dente por Dente, nos tempos do Código de Hamurabi, servia para impor um limite à punição e promover uma equivalência entre o dano e a pena. Mas a Lei de Talião ainda corre por aí nos dias de hoje, apesar da estrutura legal e das ferramentas criadas pelo homem em sociedade. Como explicar essa resistência ao tempo e à evolução social?
Eliane Cristina - Mesmo vivendo sob a proteção de um Estado Democrático de Direito e de um sistema legal estruturado, a experiência humana da dor, da humilhação e da perda atravessa séculos. Assim, a legislação busca estabelecer, de forma coercitiva, limite à reparação. Infelizmente, ela não tem o poder de evitar o crime aconteça. Olho por Olho - Ecos do Imperdoável é um exemplo, dentro do território da literatura, dessa possibilidade humana de resposta à dor. O título não traz o “dente por dente” justamente porque a questão central não é a equivalência da punição, mas a tentativa de reparar aquilo que foi vivido como imperdoável. Foi suficiente? Tire a suas conclusões, ao acompanhar um romance que trata das consequências humanas da violência e da sua perpetuação.
CRIATIVOS - Os imigrantes alemães que vieram para o Sul do Brasil na Década de 1910, ou seus descendentes, chegaram a se alinhar com a política do 3º Reich, décadas depois? Se isso não ocorreu, como explicar atitudes de um suposto Justiçamento?
Eliane Cristina - É uma pergunta que sai da literatura e ingressa no campo da sociologia e historiografia e, por isso, foge ao campo de observação que usei para a elaboração da história. O justiçamento é instrumento da barbárie e atravessa a história humana. Não pertence a um povo específico ou a uma época determinada. Infelizmente, é contemporâneo. É essa dimensão humana que me interessou explorar no romance.
CRIATIVOS - Eliane, na sua visão, o conceito de Justiça sofre interferência do contexto sócio/político em dado momento histórico de uma comunidade?
Eliane Cristina - Sempre. A justiça que se pretende é a reparação do dano e o retorno à paz social que foi desequilibrada. A forma de alcançá-la, porém, sofre a influência do contexto histórico e social de cada época.
CRIATIVOS - Como nasceu a escritora, Eliane Cristina. De onde veio o estímulo a escrever?
Eliane Cristina - A escritora Eliane Cristina nasceu comigo. Criança sensível e observadora, uma adolescente permanentemente interessada em compreender o mundo, leitora de muitos livros, apaixonada por romance de amor e suspense, pela poesia, pelos contos.
Eu escrevia, mas guardava os textos, por acreditar que não servissem para a leitura de ninguém. Depois de criar meus filhos e me aposentar, decidi que havia chegado o momento de permitir que minha literatura fosse conhecida. Inscrevi-me em um concurso literário e fui classificada em sétimo lugar para integrar uma antologia. Foi nesse momento que ganhei confiança. Reencontrei poemas guardados, comecei a escrever novos contos e novas poesias e romances.
Descobri na literatura uma faceta que aguardou silenciosamente o seu tempo e que agora é uma das formas que me apresento ao mundo.
Escrever é uma experiência que acolhe, alimenta, ensina e transporta. É uma forma de viajar por lugares distantes ou próximos, de refletir sobre a vida e continuar aprendendo. A literatura, por tudo isso, é uma companhia apaixonante de se ter, seja como autora ou leitora. Recomendo muito.
CRIATIVOS - Fale dos seus livros: Marias e O Rapto das Cores?
Eliane Cristina - Marias e O Rapto das Cores nasceram em gêneros diferentes e de inquietações igualmente diferentes, mas compartilham de algo comum: o interesse pelas experiências humanas.
Marias nasceu da percepção de que somos seres multifacetados e de que nossa compreensão do mundo se amplia quando entramos em contato com realidades diferentes da nossa. A protagonista é uma psiquiatra renuncia a uma vida em consultório para participar de programa de ajuda humanitária que a coloca em comunidade atingida por violência e supressão de direitos básicos no Rio de Janeiro onde os transtornos físicos e emocionais proliferam. A experiência adquirida e o desejo de conhecer novas realidades a deslocam até a Turquia e algum tempo depois ao Iraque. Marias apresenta o relato de trajetórias humanas cuja formação foi entrelaçada ao viver o cotidiano e o inédito, atravessado por dores, amores, coragem e, às vezes, perplexidade. Mais do que falar sobre lugares, Marias representa experiência humana em contextos diversos e a transformação operada por cada etapa dessa convivência.
O Rapto da Cores nasceu de uma inquietação: raramente paramos para refletir sobre aquilo ou aqueles que ficam à margem. Com muita leveza, a obra aborda o sentimento de não pertencimento. Nessa metáfora construída com cores, o leitor é convidado a refletir sobre o silêncio dos excluídos e o poder transformador do acolhimento.
Embora inicialmente voltado para o público infantil, escrito por uma mãe para seu filho, o eco dessas páginas também alcança os adultos, convidando-os a refletir sobre o valor da diversidade, da escuta e da empatia.
CRIATIVOS - Comente o que for do seu interesse e as perguntas não estimularam. Obrigado.
Eliane Cristina - Gostaria de dizer sobre o quanto é importante o hábito da leitura para a vida. Antes de começar a escrever, fui leitora e continuo sendo. Não tenho dúvida em afirmar que o conhecimento e a reflexão adquiridos do exercício da leitura são fundamentais para a formação, a sensibilidade e a ampliação das percepções da vida. O traço comum em minhas obras, inclusive naquelas que estão prontas e serão lançadas, é a experiência humana diante dos mais diversos acontecimentos da vida. Cada livro traz um pedaço de cultura, de descoberta do novo, de risadas diante do inusitado, de paixão por personagens e suas trajetórias. Ler, encantar-se, e refletir são parte da formação de todos nós. Obrigado pela oportunidade.
Estou ouvindo a playlist Música Popular, Brasil.
Repertório ®CertCon, disponível para trilhas sonoras e downloads na Cedro Rosa.
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