Novos Tempos: as Megatendências do Século XXI

Há pouco mais de vinte anos, a humanidade passou por uma revolução que modificou profundamente a maneira como vivemos: a popularização da internet e, posteriormente, do smartphone. O conhecimento, a comunicação e a informação passaram a estar disponíveis praticamente em qualquer lugar e a qualquer momento.
Um trabalhador na Sibéria ou em Nova Iguaçu pode conversar com alguém do outro lado do planeta, assistir a uma aula universitária, consultar livros, ouvir músicas, acompanhar guerras e manter contato com familiares instantaneamente. Nunca estivemos tão próximos uns dos outros.
Entretanto, essa revolução trouxe também um lado preocupante. A mesma tecnologia que democratizou o acesso ao conhecimento tornou possível a disseminação instantânea de desinformação, manipulação e discursos de ódio. O problema da humanidade deixou de ser apenas a falta de informação e passou a ser a dificuldade de distinguir informação de conhecimento, opinião de fato e comunicação de manipulação.
Agora surge uma transformação potencialmente ainda maior: a inteligência artificial. Diferentemente das revoluções industriais anteriores, que substituíram principalmente a força física humana, a IA começa a ocupar atividades intelectuais.
Ela pode escrever, traduzir, programar, analisar informações, produzir imagens e auxiliar em pesquisas. Isso levanta uma questão inédita: se máquinas puderem realizar uma quantidade crescente de tarefas cognitivas com maior velocidade e menor custo, qual será o papel econômico do trabalho humano?
É importante, porém, não confundir inteligência artificial com consciência. Sistemas de IA podem apresentar capacidades extraordinárias sem necessariamente possuir sentimentos, desejos ou consciência semelhante à humana.
O verdadeiro salto civilizacional poderá ocorrer se essas tecnologias forem capazes de aprender autonomamente, estabelecer objetivos, agir no mundo e aperfeiçoar suas próprias capacidades. Nesse cenário, a questão deixará de ser apenas econômica e passará a ser política e civilizacional: quem controlará sistemas capazes de exercer enorme poder sobre a sociedade? (*)
Outro grande desafio é a transformação climática. O clima da Terra sempre sofreu alterações naturais, mas a questão contemporânea está relacionada à velocidade das mudanças, às suas causas e às consequências para uma civilização de bilhões de pessoas construída sobre determinadas condições ambientais. Uma sociedade antiga podia migrar diante de mudanças ambientais; uma civilização moderna não consegue simplesmente deslocar cidades, portos, plantações, estradas e populações inteiras. O problema climático é, portanto, também um problema de adaptação econômica, social e política.
Ao mesmo tempo, ocorre uma transformação demográfica silenciosa. A humanidade está vivendo mais e tendo menos filhos. Durante a maior parte da história, a mortalidade infantil era elevada e a expectativa de vida era baixa. Saneamento, vacinação, antibióticos, alimentação e avanços médicos modificaram essa realidade. Hoje, porém, muitos países enfrentam o envelhecimento populacional e a redução da fecundidade, criando pressão sobre previdência, saúde e mercado de trabalho.
A queda da natalidade representa uma mudança histórica profunda. Em sociedades tradicionais, famílias numerosas tinham importância econômica e representavam segurança para a velhice. Na sociedade moderna, filhos passaram a representar também elevados custos de educação, moradia e formação. Urbanização, educação feminina, contracepção e mudanças culturais contribuíram para a redução do número de filhos. O desafio será descobrir como sociedades com menos trabalhadores poderão sustentar populações que viverão cada vez mais próximas dos cem anos.
No campo geopolítico, o mundo também passa por uma transformação. A predominância americana não começou com Hiroshima, pois os Estados Unidos já eram uma grande potência econômica antes de 1945. Entretanto, a Segunda Guerra Mundial consolidou sua posição militar, econômica, científica e cultural. Depois da Guerra Fria e do fim da União Soviética, os Estados Unidos passaram por um período de predominância extraordinária. Hoje, porém, a ascensão da China, o fortalecimento de outras potências e a multiplicação de centros de poder apontam para um mundo mais multipolar.
O ano de 1945 continua sendo uma referência fundamental. As bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki inauguraram uma era em que a humanidade passou a possuir capacidade tecnológica para destruir sua própria civilização em escala gigantesca. Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética viveram sob o equilíbrio do terror nuclear. Atualmente, porém, novas tecnologias — inteligência artificial, biotecnologia, guerra cibernética, drones e armas cada vez mais sofisticadas — acrescentam novas dimensões aos riscos da competição entre Estados.
A guerra da Ucrânia demonstra que conflitos territoriais e nacionais de grande escala não desapareceram com a globalização. Sua interpretação, entretanto, é mais complexa do que uma simples oposição entre povos eslavos e germânicos. Trata-se principalmente de um conflito envolvendo Rússia e Ucrânia, mas também questões de soberania, segurança europeia, expansão da OTAN, interesses estratégicos e a disputa entre diferentes visões da ordem internacional. A guerra mostrou que a integração econômica não foi suficiente para eliminar os conflitos de poder.
O Oriente Médio apresenta outro exemplo da dificuldade de resolver conflitos históricos. A criação de Israel em 1948, o deslocamento de palestinos, as guerras árabe-israelenses, o nacionalismo árabe, o sionismo, o nacionalismo palestino, o legado do Império Otomano, o mandato britânico e a intervenção das grandes potências fazem parte de uma história extremamente complexa. Também é necessário evitar simplificações sobre a convivência entre judeus, cristãos e muçulmanos: houve períodos de coexistência e florescimento cultural, mas também perseguições e discriminações em diferentes épocas e lugares.
O antissemitismo europeu cristão teve papel especialmente importante na história judaica e atingiu sua forma mais extrema no Holocausto, quando aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados pelo regime nazista e seus colaboradores. Ao mesmo tempo, a experiência palestina, particularmente a Nakba de 1948, também constitui parte essencial dessa história. Uma compreensão equilibrada precisa reconhecer tanto o trauma histórico dos judeus quanto o sofrimento e o direito à autodeterminação dos palestinos, sem transformar a dor de um povo em instrumento para negar a dor do outro.
O elemento que une todos esses fenômenos é a sensação de que o modelo de mundo construído depois de 1945 está sofrendo uma transformação. População crescente, energia abundante, trabalho humano disponível, predominância americana, relativa estabilidade ambiental e instituições internacionais formaram as bases da ordem contemporânea. Agora essas condições estão mudando simultaneamente. Envelhecimento, baixa natalidade, inteligência artificial, mudanças climáticas, transição energética, guerras, competição entre potências e desinformação estão produzindo uma combinação histórica difícil de prever.
Talvez a grande contradição do século XXI seja que nunca fomos tão poderosos e, ao mesmo tempo, tão vulneráveis. Podemos editar genes, prolongar vidas, comunicar-nos instantaneamente, explorar o espaço, produzir enormes quantidades de conhecimento e desenvolver máquinas capazes de realizar tarefas intelectuais sofisticadas. Mas também podemos criar armas e tecnologias capazes de provocar danos em escala global. Nossa capacidade tecnológica cresce rapidamente, enquanto nossa capacidade política de estabelecer regras para controlar esse poder nem sempre acompanha o mesmo ritmo.
A humanidade está chegando ao ponto máximo de seu poder justamente quando começa a perceber os limites de sua capacidade de controlar esse poder. A tecnologia tornou-se global, mas nossas instituições continuam essencialmente nacionais; os problemas são planetários, enquanto as decisões permanecem fragmentadas entre Estados, empresas e grupos de interesse. Por isso, o grande desafio do século XXI talvez não seja simplesmente criar novas tecnologias, mas aprender a governá-las.
Talvez a pergunta fundamental das próximas gerações não seja "até onde conseguiremos chegar?", mas seremos capazes de nos tornar suficientemente sábios para sobreviver às tecnologias que fomos inteligentes o bastante para criar? Essa pergunta conecta inteligência artificial, clima, envelhecimento, natalidade, guerras, armas nucleares, geopolítica e comunicação e pode representar a verdadeira questão histórica de nosso tempo: estamos apenas diante de mais uma transformação ou estamos entrando em uma nova era da civilização?
Carlos Fernando Gross
*Nota da Redação: A IA já é capaz de aprender autonomamente, estabelecer objetivos, agir no mundo e aperfeiçoar suas próprias capacidades.
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