Leituras

O Ramiro gostava de matemática e ciências. Nunca foi bom de história e literatura. Mas, para atender a um desejo dos pais, que não tiveram a mesma chance de cursar a universidade, precisou mergulhar de cabeça nas matérias de que não gostava para entrar na faculdade de medicina. Gostar de ciências não era o suficiente.
Mas fez, a si mesmo, o juramento de não guardar na memória, ou não fazer esforço para guardar, nada daquilo que não fosse fundamental para o exercício da sua atividade. Isso depois se mostrou francamente absurdo, mas a história e a literatura, especificamente, se mantêm em doses residuais no cérebro objetivo e pragmático do Ramiro, hoje cirurgião reconhecido por uma habilidade incomum na recuperação de traumas ortopédicos nos membros superiores e inferiores.
A vida se tornou confortável para o Ramiro. Solteiro e bem-sucedido, trouxe os pais para perto de si e, não fossem os inúmeros compromissos profissionais, resultado direto de sua competência, levaria o que se pode chamar de uma vida sossegada.
Recentemente, quando iniciou um flerte despretensioso com uma colega neurocirurgiã e, ao contrário dele, amante incondicional de literatura e história, inclusive com dois livros publicados e boa aceitação da crítica, Ramiro se viu sem alternativa a não ser tentar buscar, nas profundezas da memória, um pouco daquilo que tentou renegar para corresponder ao interesse da médica.
Não podia desapontar a moça tão rapidamente. Já há tempos não conseguia espaço na vida para se interessar por alguém, e a oportunidade era essa. Inteligente, bem formada, bonita e interessada nele. Merecia o empenho. Talvez o relacionamento nem fosse adiante, mas não seria por incompatibilidade intelectual ou de interesses fora da medicina. Vinha trabalhando demais mesmo e, pensando pragmaticamente, precisava dar uma chance ao cérebro para além de músculos e ossos traumatizados. Não sabia música e não era exatamente um esportista, apesar de manter uma boa saúde física.
Ramiro só não imaginava que, ao iniciar seu mergulho intensivo nas novas leituras, iria acabar sendo tocado pela urgência da atualidade. Mas, sigamos…
Enquanto a medicina, mesmo aos trancos, levava a resultados concretos e objetivos, tudo parecia ser estranhamente flexível no universo da literatura e, mesmo personagens históricos reais, não literários, normalmente tinham defeitos e qualidades que poderiam levar facilmente à condenação ou à glória, a depender do ponto de observação. Não tinha prestado a devida atenção a esses detalhes quando precisou estudar para o vestibular, naquela época. Heróis da
Antiguidade deixaram um legado de avanços importantes para a humanidade e rastros de sangue praticamente na mesma proporção. Vilões aparentemente inequívocos, por vezes, também deixaram feitos razoavelmente interessantes, o que serve para confundir quem lê com algum distanciamento. Sentiu exatamente isso ao ver que o Fusca foi lançado por Hitler. Apesar da importante participação de Ferdinand Porsche e de outros empresários, pesquisadores e engenheiros, quem levou a maior parte dos louros por lançar o carro do povo foi uma das piores almas que a humanidade já produziu. Perturbador.
As primeiras leituras não foram particularmente inspiradoras, mas abriram um caminho de observação.
Resolveu retroceder um pouco no tempo para conferir autores que focassem na Revolução Industrial e seus impactos. Voltou a se deparar com a ambiguidade dos personagens. Os mesmos empresários que ajudaram a reduzir a dureza do trabalho braçal e aumentar a produtividade, com a consequente maior geração de riquezas, acabaram por concentrar tremendamente essa mesma riqueza e obrigar os trabalhadores da recém-definida classe operária a turnos extenuantes de trabalho, sem nenhuma vantagem objetiva em relação ao período pré-industrial. Heróis da economia, mas vilões do trabalho.
No Romantismo, encontrava vilões que eram sempre vilões e heróis que eram sempre heróis, dispostos a sofrimentos terríveis para a consecução de seus objetivos ou simplesmente para a conquista de um amor quase impossível. Podia acontecer em Shakespeare (ao menos em Romeu e Julieta) ou em José de Alencar. Em outras fases das artes e da literatura, mais contemporâneas, fosse Orwell ou nos filmes da Marvel, havia uma clara dicotomia, como em todo o mundo depois da Segunda Guerra Mundial, que separava heróis e vilões em nichos próprios, ainda que, aí também, houvesse uma dubiedade capaz de fazer com que mudassem de lado de acordo com os olhos do observador.
Em pouco mais de uma semana, as leituras fizeram um efeito estranho na cabeça do Ramiro. Não sabia se estava apto a começar uma conversa sobre aqueles temas com Janaína, a neurocirurgiã que tinha provocado nele esse insuspeito interesse por temas que antes tinha decidido abandonar.
Teriam um evento juntos. Aniversário de um colega comum, parceiro de Ramiro no futebol dos sábados sem plantão e de Janaína em saraus literários. Mais um curioso caso de quem dividia paixões sem embaraço.
No restaurante, não demorou para que se aproximassem mais. Entre sorrisos e saudações, os assuntos se sucederam. Sem constrangimentos maiores, descobriram rapidamente que estavam do mesmo lado do espectro político, o que poderia ser, em tempos atuais, um obstáculo difícil de ser superado. Verdade que Ramiro se posicionava um pouco mais ao centro, mas absolutamente distante da extrema direita. Acreditava num Estado com função definida, que garantisse o bem-estar da população, a proteção social, a saúde, a educação e alguma liberdade e regulação empresarial. Ela gostou do que ouviu, apesar de estar mais próxima da esquerda tradicional e ter fortes restrições à iniciativa privada oligopolista e à exploração da mais-valia, típicas do capitalismo e levadas ao extremo na era pós-industrial.
A conversa rendeu. Tangenciaram temas diversos, da música à culinária, passando por viagens e bairros preferidos no Rio. Ele gostava mais de Botafogo, mas morava em Copacabana. Ela preferia Santa Teresa, mas vivia no Catete.
Foi a deixa para que chegassem ao Brasil contemporâneo, o palco daquilo que há quem chame de polarização. Riram juntos da definição.
E riram mais ainda quando lembraram, juntos, que o mesmo juiz que condenou o ex-presidente cujo nome nenhum dos dois quis pronunciar agora é investigado pela proximidade aparentemente imoral e antiética com o mesmo banqueiro corrupto que financiou o filme sobre o tal réu. Uma gargalhada explodiu quando acrescentaram ao molho o suposto financiamento do mesmo banqueiro a um ministro nomeado pela extrema direita e tido como modelo moral evangélico. Sempre desconfiaram de ambos, mas o papel do primeiro ao menos foi fundamental na defesa da democracia. Ah, os heróis…
Saíram juntos do restaurante. Ramiro cada vez mais interessado em história e literatura. Janaína cada vez mais interessada no Ramiro.
Nos corredores do hospital, dizem que eles se encontram praticamente ao fim de cada cirurgia.
Parece que deu liga.
Brest, setembro de 2026
Estou ouvindo a playlist Luis Pimentel, um compositor primoroso.
Repertório ®CertCon, de músicas certificadas, disponíveis para downloads e trilhas sonoras na Cedro Rosa.
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