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ENGENHARIA, SUSTENTABILIDADE E RESPONSABILIDADE HISTÓRICA

Atualizado: há 2 dias



José Luiz Alquéres – Conselheiro do Clube de Engenharia
José Luiz Alquéres – Conselheiro do Clube de Engenharia

O interesse do homem pela Ciência e pela Engenharia ficou caracterizado a partir de sua sedentarização, ocorrida há cerca de dez mil anos. A maior disponibilidade de tempo para pensar, buscar relações entre causas e efeitos e desenvolver instrumentos e técnicas voltados à ampliação de sua segurança, de seu conforto, à cura de doenças e às formas de governar suas pequenas comunidades nasce, assim, simultaneamente a esse processo.


A sedentarização acelera as modificações no meio ambiente, especialmente quando envolvem a utilização de recursos energéticos que potencializam a energia braçal. Assim, mecanismos de elevação de águas para irrigação, desmatamento, queimadas e capina de terrenos para plantações ou para contenção de animais, bem como a construção de edificações para usos domiciliares, públicos ou militares, impactam e podem até mesmo modificar o regime das inter-relações naturais preexistentes.


Cerca de seis mil anos após esse início da sedentarização, já começam a surgir grandes construções na Mesopotâmia, no Egito e em alguns sítios da Índia e da China — o que se poderia denominar grandes obras de engenharia.


Desde então, a persistente investigação científica com a finalidade de entender o universo e o mundo, e assim identificar tecnologias capazes de melhorar a qualidade de vida dos homens, só cresceu. Alguns povos, por fatores variados, desenvolveram-se mais do que outros, alcançando níveis elevadíssimos de conforto, segurança alimentar, saúde e dispositivos de prevenção contra ataques externos. Outros permaneceram em modos de vida que a história classifica como Idade da Pedra, ainda que com o domínio do fogo e de ferramentas rudimentares.


O que todos esses povos têm em comum é que, até hoje, suas atividades têm sido conduzidas com profunda devastação de ambientes naturais, uso não sustentável de recursos minerais e vegetais, degradação do clima e outros efeitos colaterais responsáveis pela extinção de milhares de espécies que promovem o equilíbrio ambiental do mundo em que vivemos.


Datam do final do século XX os esforços supranacionais para interromper e promover a reversão desse processo, por meio da conscientização dos países para a adoção de políticas públicas alinhadas entre si, de forma que, até meados deste século XXI, se possa voltar a ter confiança de que teremos um planeta sustentável para as novas gerações. Infelizmente, como ficou caracterizado na recente COP 30, conferência internacional da ONU voltada para esse tema, realizada em Belém do Pará, o progresso global tem sido ínfimo, e as intenções propagadas de ações mais efetivas vêm sendo sistematicamente descumpridas.


Estando na base de todos os processos que degradam o nosso planeta o estilo de engenharia praticado há milênios, cabe a ela repensar seu modo de atuação, de forma a incorporar, na mentalidade de seus engenheiros, no uso dos materiais que preconiza, nas tecnologias de fabricação de bens e nos modelos de transporte e urbanismo que consagra, uma nova visão humanizada e sustentável. A Engenharia deve ter como preocupação maior servir à sociedade  e não à lucratividade a curto prazo destes temas produtivos obsoletos. É um trabalho que deve começar pela conscientização dos profissionais ainda recém-ingressados nas escolas de Engenharia. Estas, surpreendentemente, estão mais atrasadas nesse sentido do que o ensino médio e fundamental, que já incorporaram uma visão holística nos currículos de ciências.


A Engenharia, por outro lado, continua obcecada pela formação cada vez mais precoce e detalhada de especialistas, como se não tivesse qualquer responsabilidade no fato de que a atuação independente e descuidada em relação à natureza, própria de cada especialidade, tenha se constituído na verdadeira causa da degradação ambiental do mundo.


Se quisermos inverter o caminho milenarmente traçado, mais por ignorância do que por intenção, de considerar que a natureza e o futuro é que devem se defender e se adaptar por si mesmos, estaremos condenando nossos descendentes a um porvir desastroso.


A melhor forma de prever o futuro é ajudar a construí-lo. Ao vermos o frenesi de adoção de políticas de exploração e produção de petróleo altamente questionáveis — incentivadas porque um líder mundial autoritário e negacionista, momentaneamente no poder, assim o promove —, caminhamos para um desastre inevitável. O mundo, neste momento, e a Engenharia, em particular, precisam erguer a sua voz, adotar como mandatórias técnicas sustentáveis e confrontar a falta de responsabilidade em relação à natureza e às gerações futuras, de modo que a reflexão sobre o processo histórico aqui sumarizado não seja uma matéria vazia, mas o maior ensinamento daquilo que não devemos continuar fazendo.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



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