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Entre demografia e preconceito: quando o outro vira explicação fácil

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Há momentos em que sociedades cansadas começam a procurar culpados como quem procura atalhos. Não porque não saibam pensar, mas porque pensar cansa. É nesses momentos que problemas complexos — econômicos, culturais, institucionais — ganham rostos. Ou melhor: rótulos. O mundo deixa de ser um emaranhado de processos e passa a ser uma lista de “outros”.


A história conhece bem esse gesto. Quando o chão parece instável, aponta-se para quem é diferente. Nem sempre importa se esse “outro” é numeroso ou raro, recém-chegado ou ancestral. Importa apenas que seja visível. Diferente. Conveniente.


Hoje, parte dessa ansiedade se projeta sobre o crescimento do islamismo. Muçulmanos formam um dos grandes grupos religiosos do planeta, espalhados por culturas, línguas e histórias muito distintas. Ainda assim, em certos contextos, sua presença é tratada como se fosse um bloco único, portador de uma essência comum — como se números explicassem valores, e identidade determinasse destino.


Mas o curioso é que o mesmo mecanismo sempre operou também no sentido oposto. Judeus, que representam cerca de 0,2% da população mundial, foram reiteradamente transformados em explicação para crises que jamais causaram. Pequenos demais para ameaçar demograficamente, grandes o suficiente para carregar projeções simbólicas. Aqui, o número nunca foi relevante. A diferença bastou.


Esses dois exemplos — um grupo numeroso em escala global, outro quase invisível estatisticamente — revelam algo incômodo: culpar o outro não depende de quantidade. Depende da disposição de reduzir pessoas a identidades fixas. Depende da necessidade de transformar inquietações difusas em narrativas simples.


Especialistas repetem, há décadas, algo que raramente ganha manchetes: religião, origem ou raça não são bons preditores de violência. O que produz radicalismo não é a identidade em si, mas o terreno em que ela é lançada. Exclusão, ressentimento, fracasso de integração, ausência de perspectivas — é aí que narrativas extremas encontram eco. Não importa se são religiosas, ideológicas ou nacionalistas.


Onde há integração, educação, trabalho e instituições que funcionam, a diversidade tende a se acomodar. Onde isso falha, qualquer identidade pode ser instrumentalizada. A história do século XX é pródiga em mostrar que o problema nunca foi “quem as pessoas são”, mas o que se faz com o medo que se projeta sobre elas.


Há também um custo silencioso nesse processo. Quando sociedades passam a explicar tudo por identidades coletivas, deixam de discutir políticas. A conversa se desloca do concreto para o simbólico. Habitação vira cultura. Emprego vira religião. Segurança vira etnia. E, nesse deslocamento, as soluções se tornam cada vez mais abstratas — enquanto os problemas permanecem bem reais.


Nada disso implica negar conflitos ou dificuldades. Eles existem. Mas há uma diferença decisiva entre enfrentá-los e transformá-los em narrativas de culpa. Uma sociedade que escolhe culpados em vez de diagnósticos talvez ganhe conforto momentâneo, mas perde algo mais profundo: a capacidade de lidar com a complexidade.


No fundo, a pergunta que retorna, sempre, é a mesma: como reagimos ao diferente? Com curiosidade ou suspeita? Com políticas ou rótulos? Com instituições ou fantasmas? Entre demografia e preconceito, é essa escolha — silenciosa, cotidiana — que acaba moldando o futuro.



Sobre o autor

David Gertner, Ph.D. é professor aposentado, escritor e ensaísta. Nascido no Brasil e radicado nos Estados Unidos há mais de três décadas, escreve sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade




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