Depois de Tudo o Que Vimos
- David Gertner

- 9 de jun.
- 4 min de leitura

A travessia entre o sonho de mudar o mundo e a descoberta de que o mundo também nos muda
“Caminhante, não há caminho; o caminho se faz ao caminhar.”
— Antonio Machado
Por David Gertner, Ph.D.
Quase todos nós, em algum momento da vida, acreditamos que o mundo pode ser mudado.
Não apenas ajustado em suas imperfeições, mas realmente transformado. Na juventude, essa crença costuma surgir com uma intensidade particular. O jovem olha para o mundo como quem contempla uma paisagem ainda inacabada. A injustiça parece intolerável, a incoerência absurda, e a distância entre aquilo que existe e aquilo que poderia existir provoca uma inquietação difícil de ignorar.
Algo dentro de nós insiste que o mundo ainda não encontrou sua forma final.
Talvez nunca encontre.
Foi assim que muitas transformações humanas começaram: alguém, em algum momento, recusou a ideia de que o mundo estivesse terminado.
Mas o mundo é uma matéria antiga — muito mais antiga do que nossas convicções. Ele não se move com a rapidez dos nossos sonhos. Resiste com instituições lentas, interesses profundamente enraizados e narrativas que atravessam gerações. Resiste também com algo ainda mais difícil de transformar: a própria natureza humana.
É então que começa a verdadeira travessia.
A princípio acreditamos que somos nós que atravessamos o mundo. Com o tempo, porém, descobrimos algo inesperado: o mundo também nos atravessa.
E, nesse processo, ele nos modifica tanto quanto tentamos modificá-lo.
O entusiasmo aprende a linguagem da prudência. A indignação encontra a complexidade. Aquilo que parecia simples revela camadas que antes não víamos.
Assim trabalha o tempo — devagar, quase sempre em silêncio — através das experiências que acumulamos, das responsabilidades que assumimos e das vidas que passam a depender de nós.
O jovem que queria mudar o mundo descobre, um dia, que também precisa sustentá-lo: cuidar de pessoas, honrar compromissos, manter instituições funcionando. O mundo deixa de ser apenas um campo de ideais e passa a ser também um território de responsabilidades.
Alguns, nesse momento, abandonam o sonho. Outros endurecem. O cinismo oferece abrigo contra a decepção — ainda que ao custo da esperança.
Mas existe um caminho mais difícil, e talvez mais verdadeiro. Não o da ingenuidade que ignora o mundo, nem o do desencanto que o declara perdido, mas o da maturidade.
Com o tempo compreendemos algo que a juventude ainda não sabia: a história humana raramente avança em linha reta. Ela se move como uma travessia.
Há momentos de avanço e momentos de hesitação. Há épocas em que a neblina desce e perdemos de vista a direção. Sociedades, como pessoas, às vezes se desviam. Avançam, recuam, se confundem. Conquistas que pareciam sólidas voltam a ser questionadas; ideias que julgávamos superadas reaparecem.
A história conhece esses movimentos. Mas conhece também algo mais profundo: mesmo quando o caminho parece perdido, permanece a memória da direção — e a possibilidade de reencontrá-la.
Talvez seja por isso que a esperança madura seja diferente da esperança da juventude. Ela já não ignora o peso da realidade, mas também não aceita que a realidade seja definitiva.
Existe uma forma de inocência que pode ser recuperada depois da experiência. Não a inocência de quem ainda não viu o mundo, mas a de quem o viu — com suas contradições, suas sombras e suas limitações — e ainda assim decide não abandonar completamente a possibilidade de que ele possa ser melhor.
Talvez o verdadeiro equilíbrio esteja entre o sonho e a lucidez.
Entre o desejo de transformar o mundo e a consciência de que também somos transformados por ele.
O tempo nos muda. Mas também guarda, em algum lugar dentro de nós, a memória do que um dia acreditamos ser possível.
E às vezes aquilo que parecia impossível em uma geração torna-se evidente na seguinte — não porque o mundo tenha se tornado perfeito, mas porque algumas pessoas, em algum ponto da travessia, se recusaram a desistir do caminho.
Talvez esse seja o gesto mais difícil da maturidade: não preservar intacta a esperança da juventude, mas reencontrá-la depois de tudo o que vimos — e ainda assim continuar a caminhar.
David Gertner, Ph.D.
Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.
Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade
CRIATIVOS! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.
Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.
O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, na forma de Think Tank Do – Pensar e Fazer Brasileiro - apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.o eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.


















Comentários