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HISTORINHA

 

 

Água!!!


O grito seco ressoou pelo saguão da delegacia no exato momento em que uma senhorinha entrava para registrar o sumiço do gato de estimação.

 

Numa avaliação preliminar de quem conhecesse a rotina da DP, podiam existir três justificativas:

1 – alguém estava com muita sede e impossibilitado de ir até a copa encher a garrafinha no bebedouro;

2 – o escrivão e o estagiário estavam em uma de suas intermináveis partidas de batalha naval, a atividade mais animada da delegacia nas manhãs de dias úteis no bairro de classe média alta;

3 – a operação montada para prender um conhecido estelionatário tinha fracassado pela terceira vez.

 

E era essa última a razão real, apesar de atender também às outras duas possibilidades.

 

Os detetives Alvarenga, Gonçalves e Godinho tinham saído cedo para fazer uma campana, que é como se chama a prática de esperar a pessoa suspeita ou objeto de mandado de prisão no entorno de sua casa ou de algum ponto em que ele vá chegar, de acordo com investigação previamente feita.

 

Godinho, mais experiente que os demais, tinha alertado sobre a dificuldade. O meliante tinha contatos na polícia e, de acordo com o que se comentava nos corredores, era inclusive provedor benemérito das festas do alto comando, de modo que andava sempre um passo à frente da polícia. Não seria uma equipe de delegacia de bairro, esses inspetores pé de chinelo, mal pagos e sem o mínimo de glamour, que conseguiria efetuar essa prisão. Talvez ele até já estivesse em Miami. Ou Dubai. Nunca se sabe.

 

A senhorinha fez o registro do sumiço do gato e Alvarenga já saiu, no mesmo instante, para iniciar as diligências. Nem precisou andar muito, porque a dona morava ao lado da delegacia e o gato estava parado na portaria do prédio quando ela voltou para casa acompanhada pelo agente.

 

O resto do dia foi o marasmo de quase sempre.

 

O plantão estava quase terminando e Gonçalves já tinha trocado a roupa na expectativa de ir para o samba, coisa de que ele gostava muito, quando uma mulher bonita, aparentando uns 30 anos, muito educada e bem vestida, entrou na delegacia, atraindo a atenção de todos, inclusive da inspetora Dalva, que se sentia absolutamente constrangida com os olhares machistas direcionados à moça por seus colegas.

 

A informação seguinte foi mais surpreendente ainda: a moça era a nova inspetora, recém-aprovada no concurso, que viria aumentar o time da delegacia — que agora contaria com duas policiais — numa tentativa, aparentemente involuntária, de diminuir a predominância masculina no ambiente.

 

Godinho, policial mais antigo da equipe e braço direito do delegado, fez as honras da casa e apresentou as dependências. Alvarenga, responsável pela maioria dos inquéritos, fez um breve resumo dos principais casos em andamento. Gonçalves, já de roupa trocada, como sabemos, informou sobre os plantões e falou da dinâmica da delegacia, a rotina etc., caprichando nos detalhes e dando tintas mais fortes ao cotidiano. De verdade, era uma delegacia bem modorrenta e onde pouca coisa acontecia que merecesse destaque. Trabalhar ali era um prêmio para quem quisesse correr poucos riscos ou um castigo para policiais mais dados a ações espetaculares. Dada a natureza dos casos, a semelhança era maior com as séries cômicas americanas do que com os filmes sérios de investigação.

 

A nova inspetora, agora já razoavelmente integrada à trupe, aceitou o convite de Gonçalves para o samba e não resistiu aos encantos do novo colega, dando início a um tórrido “romance policial”, como ele mesmo contou, com um sorriso no canto da boca.

 

Foi nessa altura da história que Godinho interrompeu. O combinado, no concurso de mentiras, era que ele é quem viveria o romance com a policial recém-ingressa na corporação. Brigaram e saíram do clube onde acontecia o concurso sem nem um prêmio de consolação. Nunca foram da polícia e sempre viveram de pequenos bicos, no limite da legalidade. O prêmio de dez mil do concurso de mentiras seria um reforço importante no orçamento. E contar mentira era um esporte que praticavam havia muito tempo.

 

Dessa vez não deu...

  


Rio de Janeiro, novembro de 2025.

  

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