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IMAGINAR, AINDA

 David Gertner, Ph.D.
 David Gertner, Ph.D.


John Lennon escreveu “Imagine” em 1971.

Cinquenta e quatro anos depois, seguimos tropeçando na mesma pergunta:

por que é tão difícil imaginar juntos?


A canção nasceu num mundo violento, mas compreensível — dois blocos, duas ideologias, duas narrativas em disputa.

Havia ameaças reais, mas havia também uma arquitetura de sentido.

Sabia-se contra o quê lutar, sabia-se a quem responder.

Havia debates, projetos, curadorias de futuro.


Hoje, o cenário não é dividido: é estilhaçado.

O que enfrentamos não é uma grande narrativa adversária, mas mil microconflitos simultâneos, cada um puxando a atenção para um lado, cada um reivindicando urgência absoluta.

Vivemos dentro de múltiplos espelhos: cada espelho amplifica uma verdade, cada verdade concorre com outras num mercado saturado de certezas instantâneas.


Se Lennon e Yoko escrevessem a música agora, talvez abandonassem a doçura da utopia e adotassem outra ambição:

não um mundo sem fronteiras, mas um mundo onde fronteiras não definem destinos;

não um planeta sem religiões, mas sem o uso delas como munição emocional ou política;

não a ausência de posses, mas a ausência do delírio de possuir tudo — bens, discursos, afetos, pessoas.


A imaginação continua necessária — mas perdeu a inocência.

Hoje, imaginar exige coragem:

coragem de enfrentar o cinismo confortável (que se disfarça de “realismo”);

coragem de sustentar uma ideia sem transformá-la em arma;

coragem de recusar a facilidade das certezas tribais que nos elogiam pela fidelidade e nos punem pela dúvida.


“Imagine”, relida em 2025, talvez soe menos como oração e mais como advertência.

Não um convite à paz abstrata, mas um lembrete de que a paz depende de escolhas concretas — e de renúncias que raramente estamos dispostos a fazer.

Viver em paz custa energia, tempo, generosidade, frustração e a humildade de reconhecer o limite das nossas próprias convicções.


O mundo atual não sofre de falta de sonhos.

Sofre de fadiga moral.

De saturação informativa.

De um desânimo silencioso que confunde lucidez com desistência.


O que Lennon e Yoko pediam, no fundo, nunca foi ingenuidade.

Foi maturidade moral.

Foi a capacidade — tão rara — de imaginar sem fugir do real e de agir sem romper com o imaginado.


Cinquenta anos depois, talvez precisemos menos de novas palavras de esperança e mais da disposição de honrar o que já sabemos — e sistematicamente esquecemos.


Porque imaginar é simples.

Difícil é não se acomodar ao mundo como ele é — e insistir no mundo que ainda pode ser.



David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Seu novo livro, IA e Eu – A Inesperada Jornada de Liora e David, está disponível na Amazon Books Brasil.


 

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1 comentário


Sonali Maria
Sonali Maria
23 de nov. de 2025

Ficções científicas, como o filme Blade Runner (feito a partir de um livro), tantas vezes retratam o que está por vir ou já sutilmente se ensejando, captado pela sensibilidade e senso crítico de seus autores. Parabéns, Laís!

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