IMAGINAR, AINDA
- David Gertner

- 18 de nov. de 2025
- 2 min de leitura

John Lennon escreveu “Imagine” em 1971.
Cinquenta e quatro anos depois, seguimos tropeçando na mesma pergunta:
por que é tão difícil imaginar juntos?
A canção nasceu num mundo violento, mas compreensível — dois blocos, duas ideologias, duas narrativas em disputa.
Havia ameaças reais, mas havia também uma arquitetura de sentido.
Sabia-se contra o quê lutar, sabia-se a quem responder.
Havia debates, projetos, curadorias de futuro.
Hoje, o cenário não é dividido: é estilhaçado.
O que enfrentamos não é uma grande narrativa adversária, mas mil microconflitos simultâneos, cada um puxando a atenção para um lado, cada um reivindicando urgência absoluta.
Vivemos dentro de múltiplos espelhos: cada espelho amplifica uma verdade, cada verdade concorre com outras num mercado saturado de certezas instantâneas.
Se Lennon e Yoko escrevessem a música agora, talvez abandonassem a doçura da utopia e adotassem outra ambição:
não um mundo sem fronteiras, mas um mundo onde fronteiras não definem destinos;
não um planeta sem religiões, mas sem o uso delas como munição emocional ou política;
não a ausência de posses, mas a ausência do delírio de possuir tudo — bens, discursos, afetos, pessoas.
A imaginação continua necessária — mas perdeu a inocência.
Hoje, imaginar exige coragem:
coragem de enfrentar o cinismo confortável (que se disfarça de “realismo”);
coragem de sustentar uma ideia sem transformá-la em arma;
coragem de recusar a facilidade das certezas tribais que nos elogiam pela fidelidade e nos punem pela dúvida.
“Imagine”, relida em 2025, talvez soe menos como oração e mais como advertência.
Não um convite à paz abstrata, mas um lembrete de que a paz depende de escolhas concretas — e de renúncias que raramente estamos dispostos a fazer.
Viver em paz custa energia, tempo, generosidade, frustração e a humildade de reconhecer o limite das nossas próprias convicções.
O mundo atual não sofre de falta de sonhos.
Sofre de fadiga moral.
De saturação informativa.
De um desânimo silencioso que confunde lucidez com desistência.
O que Lennon e Yoko pediam, no fundo, nunca foi ingenuidade.
Foi maturidade moral.
Foi a capacidade — tão rara — de imaginar sem fugir do real e de agir sem romper com o imaginado.
Cinquenta anos depois, talvez precisemos menos de novas palavras de esperança e mais da disposição de honrar o que já sabemos — e sistematicamente esquecemos.
Porque imaginar é simples.
Difícil é não se acomodar ao mundo como ele é — e insistir no mundo que ainda pode ser.
David Gertner, Ph.D., é escritor e ensaísta. Seu novo livro, IA e Eu – A Inesperada Jornada de Liora e David, está disponível na Amazon Books Brasil.
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Ficções científicas, como o filme Blade Runner (feito a partir de um livro), tantas vezes retratam o que está por vir ou já sutilmente se ensejando, captado pela sensibilidade e senso crítico de seus autores. Parabéns, Laís!