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INCOMODADA

Atualizado: há 4 dias


Sempre houve alguma coisa incomodando a Selminha.  Sempre. Ela não conseguia definir direito. Parecia uma impressão, uma sensação, um ar de qualquer coisa, um troço volúvel, impalpável, imaterial. Mas incomodava muito.

 

Nos lugares que frequentava pra se divertir, nos trabalhos que fazia, na academia onde lutava contra o sedentarismo, no samba onde lutava contra o tédio e a mesmice, no supermercado, no dentista.

 

Não encontrava conforto nos braços de quem lhe queria bem – e havia muita gente nesse lugar -, não achava remédio nas medicinas a que se submetia, não viu saída nos caminhos apontados pelas religiões. E foi a muitas, creu, fez preces, jejuns, ebós, peregrinações, vigílias, deitou pro santo, ajoelhou, levantou, meditou, fechou os olhos, abriu os olhos. Tomou passes, benzeduras, unção.

 

Tentou mais. Retirou-se pro interior, viajou, fez trilha, fotografou, gravou, conheceu gente, viu bicho, viu castelo, rio grande, montanha, neve, deserto, catedral, mesquita, templo chinês, japonês, indiano. Subiu Machu Picchu, desceu Mar Morto. Até guerra viu, de passagem.

 

Gastou o que tinha e o que não tinha, endividou-se, pagou, deveu de novo, pagou de novo.

 

Viu parque temático de criança e de adulto, montanha russa gigante, toboágua, circo, globo da morte, brinquedo de subir, de cair, de rolar, de assustar.

 

Em canto nenhum achou resposta pro mal estar que era fácil de sentir, mas que era dificil de explicar, de expor, de dizer pra todo mundo. Dava pra ver o incômodo, a inadequação, aquela desconfiança do existir e do ser, que pareciam se separar.

 

Deu muito presente de Natal, ganhou também. Fez resoluções de ano novo, pulou ondinhas, vestiu lingerie de toda cor recomendada. Dezembro foi sempre uma loucura pra Selminha.

 

Foi pro mato! Plantou, colheu, criou bicho, comeu bicho, parou de comer bicho, comeu só folha, só semente, só fruto, só raiz. Subiu em árvore, desceu de árvore, subiu e desceu cachoeira. Pescou, nadou, mergulhou em mar, em rio, em lago, em açude.  Fez o que podia fazer e o que não podia fazer, arriscou-se, fumou, bebeu, cheirou, dançou, dormiu ao relento, em boate, hotel, motel, muquifo. Fugiu, chegou, saiu, gritou, calou, pensou, repensou e dispensou.

 

O tempo passou pra Selminha e ela começou a melhorar, a se incomodar menos. E não sabia se alguma das coisas que fez era a terapia certa pro incômodo. Não sabia se estava se curando pelos excessos ou pela falta,  que o tempo já não permitia mais tanta estripulia.

 

O dinheiro até dava. Sempre deu. E com o tempo vieram a melhora do salário e da mesada, a estabilidade, a confiança, algumas responsabilidades.

 

Talvez não tenha se curado definitivamente. Talvez a alma inquieta ainda esteja procurando seu lugar certo no mundo, se for verdade que cada pessoa tem um.

 

Ou talvez nem tenha mesmo.

 

Selminha tem começado a pensar, com seus botões igualmente inquietos, se a tal sensação não é a mesma que todo mundo sente.

 

Ela teve a chance de tentar de tudo pra ver se melhorava. Herdeira.

 

A maioria, também incomodada, nem lembra do incômodo porque tem muitas outras coisas pra fazer e menos dinheiro pra investir em si. Fazem coisas boas e ruins, com a intenção ou não de se incomodar menos, mas certamente de modo menos egoísta.

 

Ah, Selminha...

 

Rio de Janeiro, dezembro de 2025.

  

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Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade

2 comentários


Sonali Maria
Sonali Maria
21 de dez. de 2025

Seria egoista, Leo? Ou uma falta de sentido pra vida que essa mulher nao tinha e buscava? Conheço, de ler historias ou ouvir falar, muita gente assim.

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Léo Viana
Léo Viana
21 de dez. de 2025
Respondendo a

Talvez, o termo ideal fosse "individual" e não "egoísta". Mas a possibilidade de buscar desse jeito é que é um privilégio que nem todo mundo tem, apesar do incômodo...

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