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DE MANHÃ

Atualizado: 5 de jan.


O Almir acordou e sentiu que a ressaca seria dura. Espumante é sempre barra pesada. Tinha jurado ficar na cerveja, maneirar ao máximo, talvez até cerveja sem álcool, mas vieram a euforia da festa, a expectativa da Mega Sena da Virada, os abraços dos amigos e…


Olhou o celular para ver a hora. O relógio, em primeiro plano, avisava que era cedo. Coisa de oito e meia. Não era de ficar muito na cama, mas 03 de janeiro, sábado, daria tranquilamente pra esticar um pouco mais.


O que estragou o resto do descanso foi o segundo plano da tela, que exibia, em tempo real, a notícia do ataque americano à Venezuela.


O ataque era líquido e certo, dado como certeza pela maior parte da humanidade — provavelmente pagando baixo em bolsas de apostas —, mas o Almir tinha parado de ouvir notícias há algum tempo e estava completamente desatualizado sobre o que vinha acontecendo no mundo. Não acompanhou a chegada dos barcos dos Estados Unidos ao Caribe, nem os ataques que vinham sendo feitos a barcos que podiam ser de pescadores, mas que eles diziam ser de narcotraficantes.


O Almir, coitado, era jornalista de formação sólida, poliglota, velho de guerra (mesmo!), mas tinha cansado de redações, fossem da imprensa falada, da imprensa escrita ou das redes. Tinha se tornado um usuário contumaz das redes sociais para futilidades. Tudo o que o algoritmo mostrava para ele eram mulheres seminuas, festas, páginas de turismo, programas de milhagem e lojas de eletrodomésticos.


Naquela manhã, no entanto, não houve jeito. A primeira informação que apareceu, enquanto ele se preparava para ver memes de tudo, menos de política — de política internacional, especialmente —, foi exatamente o bombardeio da Venezuela por Trump.


Almir tinha chegado a ser correspondente internacional nas guerras transmitidas pela televisão durante os governos americanos dos anos 90. Deu uma passada no leste da Europa, no sudeste da Europa, precisamente na época da guerra dos Bálcãs. Esteve em conflitos na África, que o tinham feito deixar de acreditar na espécie humana há tempos, bem antes, portanto, dos recentes conflitos de Israel — que, na verdade, nunca iniciaram ou terminaram, são quase eternos — e da ocupação da Ucrânia pela Rússia. Acreditava ter visto mais do que deveria.


Quando deu por terminada, voluntariamente, a carreira internacional, veio para o Rio de Janeiro. Teve de cobrir polícia, massacre civil, coisas horríveis, até que um burnout fez com que se trancasse em casa, sem ligar a televisão, que acabou sendo doada para uma instituição que atende a crianças carentes. Não acessa as páginas de notícias da internet, evita passar em frente à banca de jornal. Tornou-se um refugiado urbano, que só vê besteira na internet para tentar salvar a própria mente dos horrores pelos quais ela já passou.


Os amigos dizem que é loucura. Alguns, das redações, até ligam para ele vez ou outra, oferecendo freelancers, possibilidades de viagens, temas fortes da política de Brasília.


Almir agradece a todos com a educação inglesa que adquiriu ao longo dessas coberturas, mas nunca aceitou. E conseguiu, durante muito tempo — não sei exatamente ao certo, mas pelo menos uns dois anos —, se manter completamente alheio ao que acontecia fora do universo de besteiras da internet: um alienado voluntário, um ignorante simpático e educado, incapaz de retrucar com violência ou grosseria a uma abordagem que lhe fosse inconveniente.


Mas o fato agora é que o Almir acabara de acordar. Sentia na boca o gosto da bebida de ontem, do espumante francês, até de boa cepa, comprado caro pelos amigos que queriam oferecer do bom e do melhor para o Almir, que há muito tempo não se dispunha a participar da festa de réveillon dos amigos.


Aceitou dessa vez porque tudo parecia bem em seu mundo de isolamento. Não sabia o que acontecia em Brasília, não viu os últimos massacres da polícia do Rio, não sabia o que se passava na América Latina. A ascensão da extrema direita já havia algum tempo lhe escapara. Tinha terminado o último namoro com uma menina que conheceu na internet, mas que só mais tarde soube que sonhava se tornar jornalista e, por isso, queria saber de tudo — exatamente o que ele mais detestava naquele momento de sua vida.


Almir desligou o telefone e virou para o outro lado, tentando não pensar mais na notícia que tinha lido. É verdade que dois anos fora da circulação das notícias o deixaram um pouco desatualizado, mas nada que impedisse sua capacidade de raciocínio em política internacional, um dos temas a que mais se dedicou. Sabia das importantes reservas de petróleo da Venezuela e do quanto seu governo era malquisto pelos americanos, marcadamente por seus governantes. Sabia que Maduro não era flor que se cheire, mas também cobriu diversas sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas e sabia que havia ali uma agressão explícita ao direito internacional.

— Difícil dormir com um barulho desses — pensou.


Dormiu mal, acordou e não resistiu. O aplicativo de notícias ficava escondido num canto do telefone, para que ele não tivesse a tentação de acessar.

Pensou uma vez, pensou duas vezes, pensou três vezes, mas acabou indo com o dedo no aplicativo. Viu a manchete da matéria e clicou.


Já era o início da tarde e, no aplicativo, o presidente Trump listava uma série de razões pelas quais fizera o ataque à Venezuela. Mostraram uma foto de Maduro num navio. Falou algo sobre a gestão futura da Venezuela sob controle dos Estados Unidos. Discorreu sobre a gestão do petróleo venezuelano por empresas estadunidenses. Disse que os Estados Unidos deveriam ser cercados por países seguros. Exaltou a Doutrina Monroe. Garantiu que a Venezuela seria beneficiada.


Almir se arrependeu muito de ter ligado o telefone. Usou o dedo indicador para deletar o aplicativo de notícias. Pegou o alvo de dardos no qual tinha prendido uma foto de Trump ainda no primeiro mandato. Pegou um dardo e, com a destreza que tinha desenvolvido ao longo do tempo de isolamento, fez a mira e acertou bem na testa do empresário-presidente.


Pegou um Rivotril na gaveta, partiu ao meio, tomou e deitou de novo, só lamentando que não tivesse coragem de fazer aquilo que realmente deveria ter sido feito.


Os estadunidenses sabem muito bem é matar inocente: criança em escola, universitário, manifestante. Quando se depende deles por um mundo melhor, eles acertam de raspão na orelha…


E dormiu, dopado, o sono dos justos.


Rio de Janeiro, janeiro de 2026.


Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade.


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