MAIS CARNAVAL...
- Leo Viana

- há 16 horas
- 5 min de leitura

O segundo encontro deles aconteceu num bloco. Fazia tempo que ela tinha decidido seguir o Boi Tolo em sua interminável jornada carnavalesca. Para isso, fez uma Colombina absolutamente sensual e convidou três amigas.
A passagem dos trinta, no entanto, tinha tirado delas a antiga disposição para a folia. Acabou descendo sozinha de metrô, enfiada na fantasia que chamava a atenção dos homens. Não foi a maior das suas dores de cabeça; afinal, o século XXI tinha trazido consigo uma série de problemas de machismo, mas também um certo pudor social. Havia muitos homens e muitos machistas pelas ruas, mas poucos deles tinham a coragem de fazer as velhas abordagens físicas que já foram comuns em tempos passados. A sociedade evoluiu, embora isso nem sempre seja óbvio.
O Boi Tolo é um bloco de carnaval rebelde, como um dia foram todos os blocos. Nega-se a cumprir o ritual burocrático das autorizações e desfila de maneira quase caótica pelas ruas da cidade, havendo apenas pontos de partida, sem pontos objetivos de chegada. Junta grandes multidões e oferece um repertório também aleatório, mas muito afinado com a essência transgressora do Carnaval.
A colombina sexy não nutria grandes expectativas. Queria, depois de vários anos de relacionamentos sérios, curtir um carnaval despretensioso, cantar marchinhas na rua sem necessariamente flertar com alguém, ainda que o carnaval, por vezes, pareça a Copa do Mundo do flerte.
O bolo que levou das amigas podia facilitar ou complicar as coisas. A colombina, afinal, não era um poço de inocência. Sabia que ainda estava em boa forma física e que não podia apostar na improvável tolerância de todos, especialmente dos homens, quando uma mulher bonita entrava em seu campo visual.
O bloco, entre avanços e paradas, pisões nos pés, esbarrões voluntários e involuntários, tinha avançado pouco menos de 500 metros nos primeiros quarenta minutos, sob o sol escaldante de um fevereiro carioca normal. Hidratada e hidratando-se continuamente, nossa colombina levava tudo na esportiva, sem que houvesse, até ali, intercorrências negativas.
A primeira hora chegou junto com a necessidade de ir ao banheiro desfazer-se de parte da hidratação, composta por um misto de água mineral e algumas cervejas. Não foi difícil, ao contrário do imaginado. A estrutura mínima para um bloco regular, no caminho, constava de banheiros químicos surpreendentemente confortáveis.
E foi na porta do contêiner que abrigava os banheiros, divididos de maneira igual, mas desproporcional, entre homens e mulheres — a fila das mulheres era assustadora, enquanto os homens entravam e saíam sem aglomeração — que percebeu, num rápido cruzamento de olhares, que talvez fosse possível, sim, um flerte. Ou mais que isso.
Não lembrava exatamente de onde conhecia aquele olhar, mas ele tinha sido marcante a ponto de agora ficar fixado na cabeça, dividindo espaço com letras de marchinhas, sambas-enredo e outras preocupações de carnaval.
O bloco avançou um pouco mais rapidamente ao alcançar um trecho mais largo das avenidas da cidade. O vento vindo da Baía de Guanabara foi o alívio mais que necessário para que se renovasse o ímpeto carnavalesco da galera toda, que, aliás, só aumentava. Blocos menores, no caminho, pegavam atalhos para não serem atropelados ou se juntavam à massa compacta e se incorporavam ao grande bloco rebelde ao som de Mamãe Eu Quero ou Índio Quer Apito.
De repente, num estalo, veio a lembrança do primeiro contato com aquele olhar.
Dias antes, após uma longa noite de estudos para uma sustentação oral no fórum da Barra da Tijuca (sim, fora do carnaval, nossa colombina sexy era a Dra. Silvia Rocha, competente advogada especialista em direito civil), fez igualmente longa viagem em carro de aplicativo.
A música, muito agradável, fez com que entabulasse conversa com o motorista, que era surpreendentemente bem-educado, econômico nas palavras e bem mais formal do que ela imaginava, contaminada que era pelo preconceito estrutural vigente contra a categoria dos motoristas de aplicativo e afins. Verdade que ele jamais virou o pescoço para conversar e manteve a atenção firme na direção, limitando-se a respostas formais e bem elaboradas sobre música e cultura em geral.
Sobre sua formação, que atiçou a curiosidade de Silvia, revelou que era formado em filosofia, mas havia feito a opção por trabalhar o mínimo de horas e só quando tivesse vontade. Leitor compulsivo, dedicaria todo o tempo possível ao aprofundamento do conhecimento e à cultura. Não foi invasivo em nenhum momento, não falou mais da vida pessoal; olhou nos olhos, pelo retrovisor, uma única vez. O suficiente para impressionar muito a Dra. Silvia.
Isso tudo veio num relance durante o desfile do bloco. Talvez tivesse mesmo perdido alguma música, deixado de acompanhar alguma coreografia dessas que nascem espontaneamente na rua. Até algum eventual outro flerte não planejado pode ter escapado. O que sabia é que agora, naquele milhão de almas carnavalescas, só lhe interessava rever um par de olhos.
O desfile durou quase o dia todo. Já na Zona Sul, após uma busca intercalada por dois sanduíches, algumas águas, cervejas e idas aos banheiros do caminho, sentou-se numa calçada para se recompor. E foi dessa perspectiva que viu passar, sozinho, o dono do olhar que agora ocupava parte importante do domingo de carnaval.
O problema agora passava a ser a abordagem. Um “Oi! Tudo bem? Você por aqui?” talvez não fosse adequado. Um “Lembra de mim?” podia soar pretensioso. Ele transportava muita gente. Decidiu segui-lo até que ideia melhor aparecesse.
Algumas outras dúvidas cruzaram a mente agora focada da colombina. E se ele fosse gay? E se fosse um solitário convicto? E se fosse um intelectual chato, cheio de convicções e “não me toques” ideológicos?
Pensava, mas sua principal preocupação era não perder de vista aquele que se tornara, de alguma forma, uma obsessão.
Talvez seja importante dizer que ele estava vestido de pierrô. Um pierrô contemporâneo, meio sério. Vinham-lhe à cabeça agora, mais que o olhar, a voz firme e pausada, a segurança com que dizia as poucas frases que dirigiu a ela durante a viagem.
O bloco começava a se dispersar. O carro de som improvisado dava anúncios incompreensíveis, e as pessoas se encaminhavam para a praia, com a intenção de recompor as energias para os dias seguintes.
Ela decidiu por uma abordagem falsamente ocasional. Aproximou-se e perguntou algo a ele sobre a proximidade do metrô, que ela, aliás, conhecia muito bem. Ele a olhou nos olhos enquanto respondia. Ela tremeu. Num ímpeto, sob o efeito das cervejas e do sol forte, avançou para um beijo. Ele manteve a compostura, desviou do beijo, abraçou-a, fez com que se sentasse num bar em frente, pediu duas águas com gás, pagou e permaneceu com ela enquanto bebiam.
Não lembrava da passageira.
Ele transportava muita gente.
E era um solitário convicto.
Ela tinha acertado duas alternativas.
Quando se recompôs suficientemente, pediu desculpas, contou a história toda, e riram.
Prometeram passar juntos o próximo carnaval.
A ver.
Rio de Janeiro, fevereiro de 2026.
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