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Mesa ou Balcão?

 

O botequim carioca é uma entidade. Há muito deixou de ser um estabelecimento comercial, um simples CNPJ ou um alvará. Verdade que alguns se esforçam, no absoluto contrário da vocação natural, para parecerem modernos, economicamente viáveis, adimplentes. Mas a sua natureza não é essa, ainda que sobrevivam.


Excluam-se daí as lanchonetes, os restaurantes e os bares da moda. Esses se viabilizam, nadam de braçada, raramente têm tempo ruim. Suprem uma demanda que qualquer economista chamaria de inelástica, ou seja, podem até cobrar mais caro que todo mundo vai continuar comprando — no caso, frequentando.


O botequim, na essência, não é assim. Ok, ele também supre uma demanda, de certa forma também tem clientes que estarão sempre lá, também é essencial pros seus frequentadores, mas é diferente.


É diferente porque não se propõe a vender alimentação ou saúde convencionais. O bem-estar que o botequim proporciona é de outra natureza. É o das coisas simples, da conversa despretensiosa. Daquelas cozinhas — que nem sempre atendem aos requisitos da vigilância sanitária — saem coisas que podem até entupir as veias, mas elevam a alma a outros patamares.


As cozinhas, aliás, são geralmente vizinhas de banheiros nada simpáticos e só muito raramente limpos. Os velhos copos americanos (ou lagoinha, como chamam os mineiros) nas mesas com os logotipos de marcas de cerveja, transitam em mãos ávidas por levar à boca o conteúdo gelado e louro que sai de garrafas submetidas a temperaturas árticas. Ou circulam com misturas suspeitíssimas de bebidas baratas, nos traçados mais imprevisíveis. Ou ainda com cachaça pura, de qualidade discutível ou indiscutível, a depender de quem discute.


O botequim é consultório psicológico e médico, onde receitas e conselhos são trocados com a naturalidade insuspeita dos despreocupados; refúgio espiritual, com incríveis altares que misturam santos e orixás, budas e caboclos da mata, e arena política, com a radicalidade das seitas mais fundamentalistas e dos partidos dos extremos do espectro ideológico. E é uma arena que raramente é de centro, apesar da convergência quase certa ao final das arengas; é o palco das mais acaloradas discussões clubísticas, alimentadas pelos mesmos combustíveis que todas as outras e geralmente turbinadas pela quase sempre explícita e aguerrida predileção do dono por algum clube.


Hospitaleiro e hostil na mesma medida, é necessária uma certa iniciação pra que nos sintamos à vontade num botequim. Como são muitos, temos a possibilidade de fazer muitos testes ao longo da vida. Também é possível escolher dois ou três com os quais nos identificamos mais e manter a frequência por grande parte da vida.


Já há tempos não são vistas as velhas vitrines com ovos coloridos. Foram durante muito tempo um cartão de visita, quase um avatar dos velhos botequins, como o português com avental.

Também já não se vê com a mesma frequência os velhos botecos onde alguém sentava, começava uma batucada na mesa e não se sabe de onde apareciam um cavaquinho, um tamborim, eventualmente um violão, um pandeiro, um tantan e começava uma roda de samba.


Nos botecos de hoje o samba é proibido ou, pior, obrigatório! Ou não se pode nem cantarolar na mesa, sob pena de expulsão, ou se tem banda contratada cantando com microfone e som alto enquanto os outros conversam.


A conversa, por falar nela, está na genética do botequim. Lá sabemos das venturas e desventuras de quem frequenta ou de quem por alguma razão interessa a quem frequenta. A fofoca é institucional, fala-se bem ou mal de quem está ausente ou mesmo presente, desde que não esteja na mesma mesa. Já presenciei discussões de teses de doutorado, de política internacional, de planos de investimento e de separações amigáveis e litigiosas. Sempre no plural. Tudo isso já foi visto mais de uma vez.


O principal, no entanto, o que efetivamente faz de cada botequim um espaço único é a mão do dono.


O seu jeito de tratar quem escolhe beber uma cerveja gelada ou um rabo de galo no balcão ou na mesa bamba de seu botequim faz toda a diferença. E não é necessariamente a cordialidade, a boa conversa ou o preço que fazem com que o dono torne o ambiente mais ou menos convidativo. Botequim é sempre barato. Um pouco mais na zona norte, um pouco menos na zona sul, mas nunca é caro demais. Isso inclusive reforça o mistério sobre como a maioria paga os funcionários e como se sustenta.


O que cria fidelidade, no entanto, é alguma coisa que está além disso, talvez no especulativo campo das sobrenaturalidades. Ou das subjetividades, como preferem os teóricos. Os botequins têm corpo e têm alma, geralmente os mesmos corpos e almas de quem os criou e os mantém ou manteve enquanto pôde.


Particularmente, frequento alguns poucos. E destes, falo com a familiaridade construída ao longo de anos de convívio, algum dinheiro deixado lá, muitas amizades nascidas e criadas. Bem criadas. Neles, vivi alegrias imensuráveis e perdas igualmente duras.


Em 2019 o Alfredo se foi e deixou pra nós o Bip Bip. Boteco diferente, ainda menor que os outros em área, mas gigante em cultura, espaço privilegiado pela frequência de homens e mulheres ligados à produção artística e intelectual do Brasil e até do mundo. E musical ao extremo. Ninguém ganha nada pra tocar lá, mas quer sempre tocar por prazer puro. E pela chance de encontrar, atrás de uma lata de cerveja, despretensiosamente, mas com regularidade incomum, alguns dos maiores músicos da humanidade.


Agora há pouco, perdemos a Adelina. O bar com seu nome, na Rodrigo de Brito, há muito tempo abriga rodas de samba. Participo de uma roda que, com a formação atual, está por lá há uns 10 anos. Do mesmo modo que o Bip, vamos porque gostamos muito, nos identificamos com aquele lugar que parece um enclave suburbano em Botafogo. A cozinha, ao contrário do Bip, solta lá uns pastéis, fritas e coisas simples assim que alegram a quem aparece. Nas quintas-feiras, a gente garante o samba.


Além de tudo, e ainda mais que o Bip, por ter sido sempre dirigido por uma mulher, é ambiente menos machista que a maioria e - escapando de um dos maiores defeitos de todos os botequins - tem, entre seus frequentadores, forte presença feminina de todas as gerações, incluindo um grupo de jovens musicistas mulheres que faz lá os seus ensaios e rodas.


Que os botequins dessa cidade tenham vida longa. Seus donos, pra nossa profunda tristeza, às vezes vão embora antes do combinado. A gente fica aqui, sofrendo, mas esperando a hora de sentar no botequim, afogar as mágoas e lembrar, com muita saudade, o tempo em que eles, diante dos nossos olhos, emprestaram as suas próprias almas a esses lugares mágicos.


Obrigado, Adelina!Obrigado, Alfredo!


Cavalheirismo de botequim. Primeiro as damas.


Rio de Janeiro, junho de 2026


Leia outros artigos de Leo Viana no portal CRIATIVOS!

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