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Nada Dura Para Sempre


David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Entre o que passa e o que permanece, aprendemos que a impermanência não é perda — é condição da vida.


Há uma verdade que atravessa todas as estações, ainda que tentemos ignorá-la: nada dura para sempre.


Nem o inverno mais rigoroso.

Nem o verão mais luminoso.

Nem a dor que parece interminável.

Nem a alegria que desejamos congelar no tempo.


A impermanência não é uma ameaça. É a condição da vida.


O que chamamos de estabilidade é apenas uma pausa entre transformações.


O que chamamos de permanência é, muitas vezes, apego disfarçado.


Aprendemos cedo a desejar o que fica.

Casamentos “para sempre”.

Amizades “eternas”.

Carreiras “estáveis”.

Corpos “jovens”.

Ideias “imutáveis”.


Mas o tempo não assina contratos.


Ele esculpe.


Silenciosamente, ele nos modifica.

Modifica o rosto que vemos no espelho.

Modifica as certezas que defendíamos com fervor.

Modifica as relações que julgávamos indestrutíveis.


Nada dura para sempre — e isso inclui nossas versões antigas de nós mesmos.



Há perdas que doem porque revelam essa verdade com brutalidade.

O fim de um amor.

A morte de alguém que era o nosso chão.

A despedida de uma casa, de um país, de uma fase da vida.


O que dói não é apenas a ausência.

É a consciência de que aquilo que parecia fixo estava, o tempo todo, em movimento.


Mas há também libertação nessa mesma constatação.


Se nada dura para sempre, então a tristeza também não dura.

O erro não dura.

O fracasso não dura.

O momento difícil que nos faz duvidar de tudo também não dura.


Até a noite mais escura é atravessada pela promessa silenciosa da manhã.



Talvez o sofrimento humano nasça menos da mudança e mais da nossa resistência a ela.


Queremos congelar o instante feliz.

Queremos impedir o envelhecimento.

Queremos que as pessoas permaneçam exatamente como eram quando as conhecemos.


Mas a vida não é fotografia. É fluxo.


Somos rios, não pedras.


E os rios não se envergonham de seguir adiante.



“Nada dura para sempre” pode soar como melancolia.

Mas também pode soar como sabedoria.


Se nada dura, então cada encontro é precioso.

Cada conversa importa.

Cada gesto é único.


A consciência da impermanência nos ensina delicadeza.


Ensina a agradecer enquanto ainda é tempo.

Ensina a pedir perdão enquanto ainda é possível.

Ensina a amar sem a ilusão de posse.



Há algo profundamente humano em aceitar que estamos de passagem.


Não somos donos do tempo.

Somos seus viajantes.


E talvez a maturidade não esteja em tentar deter o fluxo, mas em aprender a caminhar com ele.


Nada dura para sempre — mas algo permanece.


Não os objetos.

Não as posições.

Não os aplausos.


Permanece a marca que deixamos.

Permanece o modo como fizemos alguém se sentir.

Permanece o caráter revelado nas escolhas difíceis.


O tempo leva quase tudo.

Mas devolve a nós aquilo que fomos capazes de oferecer.



Se nada dura para sempre, que isso não nos entristeça.


Que nos desperte.


Que nos lembre de viver com mais presença.

De falar com mais verdade.

De amar com menos cálculo.


Porque a beleza da vida não está na duração.


Está na intensidade com que atravessamos o instante.


E o instante — esse breve e luminoso milagre — já é suficiente.



David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.

Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade




 

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