Nicolelis e a semente
- Luiz Inglês

- 15 de set.
- 3 min de leitura

Miguel Nicolelis, renomado neurocientista brasileiro, considerado pela revista Scientific American um dos vinte maiores cientistas da atualidade em sua área,ponderou que “o futuro é baseado no passado e tudo o que vamos fazer é baseado em dados do que já foi feito. Estamos vivendo um futuro sem futuro”.
Nicolelis conta que quando esteve num evento em Seul, Coreia do Sul, encontrou com um amigo, desenvolvedor de software que participava da mesma conferência, que diz ter conseguido fazer um software capaz de criar músicas como Mozart. Ele havia fornecido ao app todas as criações de Mozart. E para surpresa de todos os presentes nesta conferência, a IA criou novas músicas iguais a Mozart, como se fossem criações do próprio compositor. O espanto foi geral e profissionais que conheciam profundamente as composições de Mozart argumentaram que se vivo fosse,Mozart com certeza teria composto estas músicas.
Nicolelis então perguntou se era possível tocar músicas de Verdi ou Elton John, o que o amigo respondeu que não. Ele teria que alimentar o programa com toda a produção musical de Verdi ou do Elton, para que a IA, através dos dados inseridos, pudesse compor algo similar.
Nicolelis então argumentou que mesmo se fosse criado um sistema com capacidade de receber todas as criações musicais do planeta todo, o resultado sempre seria baseado no passado. Nada novo seria criado. Todas as ideias serão “concebidas”baseadas nas informações recebidas. Nada diferente ou singular será desenvolvido para o futuro. Sempre será baseado no passado.
Me reportei a esta história porque me pergunto se assim não são os bancos de dados. Sempre serão grandes sistemas que armazenam, organizam e gerenciam imensos volumes de informações. Estas informações que foram inseridas no sistema, serão sempre já conhecidas, ou seja, do passado. Portanto, todo acesso a estas informações estará vindo de dados já armazenados. Estas novidades serão sempre criadas baseadas no que já foi incorporado ao sistema.
Isto me leva a questão: as sementes não são bancos de dados? Dentro de cada grão já não estão embutidas informações genéticas biológicas de cada espécie? O que é então a IA, senão cópia da Natureza? O algoritmo “divino“ (me permitam colocar desta forma, com o intuito de resumnir um assunto mais profundo) já vem carregado de informações de milhares de anos, ou melhor, de milhões de anos.
O mundo vegetal, a flora, data de épocas trascendentais, metafísicas. E este mesmo código, apesar de existir desde os tempos de Antão, nos transporta para o futuro. Sei que a engenharia genética modifica alguns pormenores, mas nunca irá criar algo novo. Uma semente de maçã jamais, em tempo algum, dará frutos de pitaya. A engenharia genética consiste na manipulação dos genes de um determinado organismo, geralmente fora de seu processo natural de replicação, com o objetivo de aprimorar ou reestruturar o genoma de determinada espécie, mas este aprimoramento não traz a mudança radical do que está inserido na organização natural daquela variedade de vegetal.
Ou seja, da mesma forma que o amigo do prof. Nicolelis pode criar inéditas composições de Mozart, só o faz depois de inserir as informações necessárias no programa. As sementes também receberam informações as quais replicam os mesmos resultados. A transgenia pode até adocicar o fruto, torná-lo mais nutritivo até deixá-lo mais resistente a doenças. Mas no nosso exemplo, sempre será uma maçã. A informação básica está em seu DNA.
Já numa programação digital, a informação está em linguagem de programação. O programador define instruções que serão interpretadas por uma máquina. Da mesma forma, a semente, quando encontra condições necessárias (água, oxigênio, nutrientes, temperatura, luz solar, etc.), o código genético é executado, ou seja, tal como o programa com algoritmo, quando colocado em ambiente adequado (um computador com serviço operacional, energia elétrica, etc.), também executa o que dele é esperado. No caso da semente, o “algoritmo” é resultado da seleção natural e interações ecológicas. Na programação digital, o resultado do design é intencional, criado por mentes humanas.
Ambas trabalham com informações do passado. Mas como será o futuro? No caso da maçã, continuaremos a nos alimentar com este maravilhoso fruto, mas... e no caso dos programas que são alimentados com o passado?
E como já dizia Abelardo Barbosa, o famoso Chacrinha, “nada se cria, tudo se copia”...
Luiz Inglês
Setembro 2025
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