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Não há relógio para quanto tempo leva


David Gertner,  Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Nem toda dor se cura com o tempo. Algumas amadurecem em silêncio.


Não há relógio para quanto tempo leva.


Há dores que não aprendem a obedecer ao tempo.

Não seguem calendário, não aceitam prazos, não se curvam às expectativas alheias.

Elas simplesmente ficam — silenciosas, persistentes — até que, um dia, começam a se transformar.


Vivemos cercados por relógios.

Eles nos dizem quando acordar, quando trabalhar, quando produzir, quando seguir adiante.

Mas não há relógio para a dor.

Não há cronômetro para o luto.

Não existe agenda para a reconstrução interior.


Depois de uma tragédia, de uma perda profunda, de um trauma que rompe a continuidade da vida, o mundo costuma perguntar cedo demais:

“Você já superou?”

“Já passou?”


Como se a alma funcionasse como um músculo que se recupera em ciclos previsíveis.

Como se a ferida tivesse data de validade.


A verdade é outra.

A superação não é um evento.

É um processo irregular, feito de avanços e recaídas, de dias luminosos seguidos de manhãs pesadas, de pequenos gestos que, vistos de fora, parecem insignificantes — mas que por dentro exigem uma coragem imensa.


Há quem leve meses.

Há quem leve anos.

Há quem carregue a ausência para sempre, aprendendo não a apagar a dor, mas a conviver com ela de outro modo.


Resiliência não é pressa.

Não é “dar a volta por cima” em tempo recorde.

Resiliência é permanecer quando tudo em nós quer fugir.

É continuar respirando quando o ar parece curto.

É aceitar que haverá dias em que a única vitória possível será levantar da cama — e isso basta.


Algumas dores não se resolvem.

Elas se transformam em memória.

Outras viram silêncio.

Algumas se convertem em cuidado com o outro.

Outras afinam o olhar para as pequenas coisas.

Há dores que se tornam uma sensibilidade nova, mais frágil — e, paradoxalmente, mais humana.


Não há relógio para quanto tempo leva.

E quem tenta impor um tempo à dor alheia costuma fazê-lo por desconforto próprio — não por sabedoria.


O tempo que importa não é o que passa.

É o que amadurece.


E amadurecer a dor não é esquecê-la.

É integrá-la à história que seguimos contando sobre nós mesmos.


Há pessoas que nunca “superam”.

Mas seguem vivendo.

Amando.

Criando.

Ajudando outros a atravessar o que um dia também as atravessou.


Talvez isso seja o máximo a que podemos aspirar:

não sair ilesos,

mas sair mais verdadeiros.


Porque a vida não nos pede velocidade.

Ela nos pede permanência.


E para isso, definitivamente,

não há relógio.



David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.

 

CRIATIVOS! atua na articulação entre cultura, economia criativa e tecnologia aplicada.

 Organiza informações, experiências e projetos em contexto, conectando produção cultural, pesquisa, políticas públicas e mercado.

 O portal opera como um laboratório editorial e um hub de inteligência aplicada, apoiando eventos, iniciativas territoriais e ações concretas no campo cultural e criativo.Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade





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