Não há relógio para quanto tempo leva
- David Gertner

- há 12 minutos
- 3 min de leitura

Nem toda dor se cura com o tempo. Algumas amadurecem em silêncio.
Não há relógio para quanto tempo leva.
Há dores que não aprendem a obedecer ao tempo.
Não seguem calendário, não aceitam prazos, não se curvam às expectativas alheias.
Elas simplesmente ficam — silenciosas, persistentes — até que, um dia, começam a se transformar.
Vivemos cercados por relógios.
Eles nos dizem quando acordar, quando trabalhar, quando produzir, quando seguir adiante.
Mas não há relógio para a dor.
Não há cronômetro para o luto.
Não existe agenda para a reconstrução interior.
Depois de uma tragédia, de uma perda profunda, de um trauma que rompe a continuidade da vida, o mundo costuma perguntar cedo demais:
“Você já superou?”
“Já passou?”
Como se a alma funcionasse como um músculo que se recupera em ciclos previsíveis.
Como se a ferida tivesse data de validade.
A verdade é outra.
A superação não é um evento.
É um processo irregular, feito de avanços e recaídas, de dias luminosos seguidos de manhãs pesadas, de pequenos gestos que, vistos de fora, parecem insignificantes — mas que por dentro exigem uma coragem imensa.
Há quem leve meses.
Há quem leve anos.
Há quem carregue a ausência para sempre, aprendendo não a apagar a dor, mas a conviver com ela de outro modo.
Resiliência não é pressa.
Não é “dar a volta por cima” em tempo recorde.
Resiliência é permanecer quando tudo em nós quer fugir.
É continuar respirando quando o ar parece curto.
É aceitar que haverá dias em que a única vitória possível será levantar da cama — e isso basta.
Algumas dores não se resolvem.
Elas se transformam em memória.
Outras viram silêncio.
Algumas se convertem em cuidado com o outro.
Outras afinam o olhar para as pequenas coisas.
Há dores que se tornam uma sensibilidade nova, mais frágil — e, paradoxalmente, mais humana.
Não há relógio para quanto tempo leva.
E quem tenta impor um tempo à dor alheia costuma fazê-lo por desconforto próprio — não por sabedoria.
O tempo que importa não é o que passa.
É o que amadurece.
E amadurecer a dor não é esquecê-la.
É integrá-la à história que seguimos contando sobre nós mesmos.
Há pessoas que nunca “superam”.
Mas seguem vivendo.
Amando.
Criando.
Ajudando outros a atravessar o que um dia também as atravessou.
Talvez isso seja o máximo a que podemos aspirar:
não sair ilesos,
mas sair mais verdadeiros.
Porque a vida não nos pede velocidade.
Ela nos pede permanência.
E para isso, definitivamente,
não há relógio.
David Gertner, Ph.D.
Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de 30 anos nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, dedica-se a refletir sobre identidade, memória, ética, tempo e a condição humana. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon, e de A Sombra da Depressão – Rompendo o Silêncio, Encontrando a Luz e O Silêncio e o Tempo, ambos previstos para lançamento em 2026.
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