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O 18 Brumário brasileiro: a repetição da história entre a tragédia, a farsa e a urgência de uma terceira via


José Luiz Alquéres, engenheiro e editor.
José Luiz Alquéres, engenheiro e editor.

Com a ascensão de Napoleão III ao poder, Karl Marx formulou uma das frases mais conhecidas da filosofia política: “A história se repete: a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa.”


Antes de estabelecer um paralelo com o Brasil, convém recordar seu contexto. O 18 Brumário — 9 de novembro de 1799, segundo o calendário revolucionário francês — marcou o golpe de Estado de Napoleão Bonaparte, que se tornou primeiro-cônsul com amplos poderes.


A República não foi imediatamente abolida; permaneceu formalmente em vigor, mas progressivamente subordinada ao crescente autoritarismo de Napoleão, que apenas em 1804 se proclamaria imperador. Meio século depois, seu sobrinho, Napoleão III, eleito presidente da República Francesa em 1848 para um único mandato, deu um golpe de Estado em 2 de dezembro de 1851, data escolhida por seu forte simbolismo napoleônico. Foi esse episódio que inspirou O 18 Brumário de Luís Bonaparte, obra na qual Marx desenvolveu sua célebre reflexão. Poucos anos antes, em parceria com Friedrich Engels, publicara o Manifesto Comunista.


O paralelo que proponho para o Brasil não reside na repetição literal de golpes de Estado, ao menos por enquanto. Ele está na recorrência de ciclos políticos que parecem condenar o país a revisitar os mesmos personagens, os mesmos métodos e as mesmas consequências.


A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, ao final de 2002, inaugurou um período marcado pela expansão da corrupção como instrumento de sustentação política. Escândalos sucessivos ligados ao uso da máquina pública comprometeram a credibilidade das instituições e degradaram a gestão de empresas estratégicas, como a Petrobras, ao mesmo tempo em que garantiram capital político suficiente para eleger Dilma Rousseff como sucessora.


O desgaste acumulado produziu profundo desencanto com a política e culminou no impeachment de Dilma Rousseff, em meio a grandes manifestações populares. Michel Temer assumiu a Presidência e, apesar das acusações que cercaram seu governo, promoveu uma recuperação parcial da estabilidade administrativa, da credibilidade de estatais como Petrobras e Eletrobras e da condução econômica do país.


O governo de Jair Bolsonaro apresentou méritos e deficiências. Ao concentrar a política econômica em uma orientação liberal e ortodoxa, alcançou resultados relevantes no campo fiscal e administrativo. Em contrapartida, a condução da pandemia da Covid-19 expôs graves fragilidades. A sucessiva troca de ministros da Saúde, decisões estratégicas equivocadas e a postura pessoal do presidente diante da crise comprometeram a credibilidade do governo. Na política externa, o quadro foi ainda mais preocupante: a condução do Itamaraty por pessoas manifestamente despreparadas e a incapacidade de compreender as transformações da ordem internacional contribuíram para um dos períodos de maior desgaste da imagem do Brasil no exterior.


A volta de Lula ao poder ocorreu após a anulação de suas condenações por vícios processuais. Para muitos observadores, o processo acabou prevalecendo sobre os fatos. Um amplo conjunto de episódios de corrupção, reconhecidos inclusive por empresas e pessoas físicas que devolveram vultosos recursos aos cofres públicos, perdeu eficácia jurídica porque os processos foram anulados e as provas declaradas imprestáveis. O resultado foi a absolvição de antigos investigados, o restabelecimento de seus direitos políticos e, em diversos casos, seu retorno a posições de destaque na administração pública.


É justamente nesse ponto que o paralelo com Marx ganha sentido. A repetição dos acontecimentos, ainda que em circunstâncias distintas, confere à política brasileira uma aparência de permanente reedição. Aquilo que já produzira enorme desgaste institucional retorna ao cenário nacional sob novos fundamentos jurídicos e novos arranjos políticos, mas com personagens amplamente conhecidos.


Agora, mais uma vez, o eleitor é chamado a decidir entre a continuidade desse ciclo ou outra alternativa que, segundo indicam as pesquisas, poderá ser representada por Flávio Bolsonaro, inevitavelmente associado ao legado político do governo de Jair Bolsonaro. O encerramento daquele governo foi marcado por acusações de práticas antidemocráticas, pelos episódios de invasão dos prédios dos Três Poderes e pela descoberta de documentos interpretados pelas autoridades como projetos de ruptura institucional. Tudo isso acompanhado por mobilizações organizadas de apoiadores, transportados em caravanas e sustentados por uma estrutura logística e política.


Se a primeira repetição pode ser vista como tragédia e a segunda como farsa, o Brasil corre o risco de transformar ambas em rotina. E sociedades que naturalizam a repetição de seus erros acabam prisioneiras deles.


É precisamente por isso que a construção de uma verdadeira terceira via deixa de ser mera conveniência eleitoral para tornar-se uma necessidade nacional. Existem, ao menos, duas alternativas formadas por candidatos honestos, experientes e com histórico de administração de importantes estados da Federação, capazes de oferecer ao país uma ruptura com a lógica da polarização que domina a vida pública há mais de duas décadas.


Séculos antes de Marx, Cícero escreveu que a história é a mestra da vida. Talvez aí esteja a síntese deste momento brasileiro. Marx advertiu para a repetição da tragédia e da farsa; Cícero ensinou que a história existe para ser aprendida. Cabe agora ao eleitor decidir se continuará apenas repetindo a história ou se finalmente começará a aprender com ela, escolhendo um caminho que restitua à política brasileira a ética, a confiança nas instituições e a esperança no futuro.

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