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O CARIOCA E O CHATO

 

​ Há muito tempo estava querendo escrever sobre um tema: o carioca. Mas não conseguia inspiração. Tentei algumas vezes caro leitor. Falhei na sinceridade. Não ficava satisfeito. Os rascunhos passavam-me a impressão de artificialidade. Até ler uma crônica de Paulo Mendes Campos chamada “O carioca e a roupa”.  


Para ele, “O carioca decidiu-se por uma grande simplificação da natureza humana, classificando a humanidade em chatos e bons sujeitos; com a nuance única de admitir que certos tipos, embora chatos, são no fundo uns bons sujeitos.”


​             Aqui no Rio, como regra geral, o que importa, no final das contas, não é se as pessoas têm algum mérito. O carioca raiz somente quer saber se os indivíduos são chatos ou gente boa. E se forem chatos, logo levam um apelido desmoralizante e veem “os seus cacoetes imitados nas ruas e nos palcos mambembes”, passando “a ser conhecidos pelo povo através de um defeito mesquinho e não por suas qualidades.” Não importa que seja um gênio da arte, da pintura, da política ou de qualquer ofício. 


        E logo, sua reputação se perde. Os talentosos chatos deixam de serem visto como um grande artista, arquiteto, engenheiro, advogado etc. Passam a serem simplesmente chatos. Em São Paulo não é assim. Lá as pessoas se distinguem por seus talentos. E são reconhecidas e distinguidas por esta razão.


​Agora, se for considerado gente boa, não vai escapar do apelido, mas não será vítima de campanha difamatória. Não vão pegar no pé. Será aceito na comunidade local como um igual.

​Não conheço nenhum estudo sociológico sobre o tema. Nascido e criado nesta cidade, é o que tenho visto ao longo da minha vida. Especialmente entre os jovens. Quando ficamos mais velhos, ser chato ou não importa menos. As qualidades pessoais passam a pesar mais.


​ Em tom de conversa de botequim poderia até indagar, com ares científicos: é por este motivo que escolhemos, em passado recente, tão mal nossos governantes? O Rio já foi a capital da república, seu centro político e financeiro. Hoje o que somos? Diria, sem hesitar: um lugar lindo para visitar.

 

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