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Copacabana Ainda Engana?

David Gertner, Ph.D.
David Gertner, Ph.D.

Houve um tempo em que Copacabana não era apenas um bairro.

Era uma promessa.


Promessa de modernidade, de mundo, de futuro.

Entre o mar e os prédios, o Brasil ensaiava um certo cosmopolitismo: garçons de gravata borboleta, hotéis com nomes estrangeiros, boates que atravessavam a madrugada, apartamentos que olhavam o Atlântico como quem olha para a Europa.


Copacabana foi vitrine.

Foi cenário.

Foi sonho de classe média, de artistas, de imigrantes, de quem chegava ao Rio acreditando que ali começava o mundo.


O calçadão ainda estava lá, ondulando como sempre.

Mas não era só desenho: era linguagem.

Preto e branco. Ordem e desordem. Um país tentando se reconhecer elegante sem perder o improviso.


Havia cinemas em cada esquina.

Filmes europeus, americanos, legendados.

Havia cafés onde se discutia política, futebol, literatura — tudo com a mesma paixão.

Havia o prazer de caminhar sem pressa, como se o tempo fosse menos agressivo.


Copacabana era um palco onde todos podiam circular.

Ricos, remediados, boêmios, solitários.

Era democrática antes que a palavra se gastasse.


Depois, algo se perdeu.

Não de uma vez.

Aos poucos.


Os cinemas viraram igrejas ou farmácias.

Os hotéis envelheceram mal.

Os apartamentos se dividiram, se apertaram, se esconderam atrás de grades.

A violência chegou, primeiro como exceção, depois como ruído de fundo.


Copacabana ficou mais barulhenta — e mais silenciosa.

Mais cheia — e mais vazia.


Hoje, quem chega ainda vê o mar.

E o mar continua belo, indiferente, eterno.

Mas a cidade em volta parece cansada.

Como alguém que viveu demais e não dormiu o suficiente.


Copacabana ainda engana?


Talvez.


Engana quem chega pela primeira vez e se deixa seduzir pelo azul da água, pelo desenho do calçadão, pela ideia antiga de que ali pulsa o coração do Rio.

Engana porque ainda guarda vestígios do que foi — e vestígios têm poder.


Mas Copacabana não mente por maldade.

Ela apenas sobrevive.


Sobrevive à decadência urbana, à negligência, à nostalgia.

Sobrevive porque ainda abriga vidas reais: idosos nas janelas, crianças na areia, vendedores ambulantes que conhecem o ritmo do bairro melhor do que qualquer urbanista.


Copacabana já foi promessa.

Hoje é memória em movimento.


Não é mais o bairro que apontava para o futuro.

É o bairro que nos pergunta o que fizemos com ele.


E talvez a pergunta mais honesta não seja se Copacabana ainda engana.

Mas se ainda somos capazes de vê-la sem exigir que ela seja o que já foi.


Porque cidades, como pessoas, envelhecem.

E o verdadeiro engano talvez seja exigir que permaneçam jovens para sempre.


Copacabana não é mais um cartão-postal.

É um espelho.


E espelhos, às vezes, doem.




Este texto integra o pilar Cultura e Sociedade



Sobre o autor


David Gertner, Ph.D.

Nascido no Brasil e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é professor aposentado, escritor e ensaísta. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre identidade, memória, tempo, silêncio, ética e a condição humana. Autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.



Escute a música COPACABANA BEAT, na Spotify / Cedro Rosa.


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