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PASSAGEIROS



A Cris entrou no ônibus lamentando que ainda não tivesse conseguido, após tantos anos de estudos e trabalho, morar em lugar melhor e não depender do transporte público precário do Rio de Janeiro profundo. Mas vinha se preparando pra isso. Seu dia ia chegar.


Os pensamentos ainda estavam nisso, meio embaralhados pelo horário e pela expectativa da viagem longa e desconfortável, quando passou pela roleta, lá na frente do ônibus, uma espécie suburbana de Deus grego. Ela era passageira constante e nunca tinha visto aquele homem lindo. Até se recompôs no banco alto que ocupava, como se fosse possível alojar mais uma pessoa ali, além da senhora que estava no lugar do canto, na janela.


Ele viajou em pé. E longe do banco da Cris, que não percebeu quando ele desembarcou.

Por pura sorte, ainda antes que perdesse de vista seu objeto de observação, subiu no coletivo um negro alto e forte, de seus 25 anos, com aquele jeito de jogador da NBA, que capturou o olhar da Cris imediatamente. Ela sentiu um pouco o fato de ele vestir uma camisa da CBF.


Tinha memórias recentes um pouco tristes daquele uniforme, mas a beleza do moço compensava. Imaginou-se cuidando dele, inclusive intelectualmente. Uma vida feliz num belo apartamento na Zona Sul, filhos… Romântica inveterada, a Cris não teve tempo de desenvolver mais as fantasias porque o Michael Jordan da periferia do Rio desembarcou no meio da viagem. E perdeu um pouco o encanto quando ela conseguiu ler “Neymar Jr” nas costas da camiseta amarela.


Faltava pouco pra ela mesma chegar a seu ponto de desembarque quando seu olhar cruzou com o Bento. A camisa de um clube de futebol, o mesmo para o qual ela também torcia, vinha com o nome atrás. Ela sabia que não havia jogador recente com este nome; só podia ser o nome dele. Não era alto nem forte, mas era de uma beleza que inspirava algo. Talvez confiança, seriedade, aconchego. Não sabia ao certo. Pena que o Bento estava se levantando pra descer do ônibus.

•  •  •

Detestava ficar em dúvida, mas só conseguia ler, no crachá funcional parcialmente escondido pelo bolso do jaleco azul, o finalzinho do nome: “…eth”. Ela podia ser Elisabeth, Elizabeth, Elizeth ou qualquer outra variação. Tinha se apaixonado à primeira vista por uma mulher linda da qual não conseguia saber o nome.


Antes que iniciasse algum tipo de abordagem ou que seu sofrimento aumentasse muito, ela desceu do trem no meio da multidão e deixou o Omar com seus pensamentos.

A paixão ainda não tinha esfriado quando ele avistou a Liz. Não sabia se seu nome era mesmo Liz — provavelmente não —, mas era o que tinha escrito em sua camiseta, junto a um desenho que ele não identificou. Muito bonita, com o cabelo pintado de azul e algumas tatuagens visíveis, passou imediatamente a ocupar o lugar vago no coração do Omar, um romântico compulsivo e, digamos, volúvel.


A Liz desapareceu em Deodoro, uma estação enorme, de conexão com outros trens. Foi quando a Linda, aparentemente novata na rotina ferroviária, causou surpresa ao perguntar ao Omar, sem conhecê-lo, se aquele era o trem que devia pegar. Entre assustado e agradecido pela abordagem, explicou que aquele era o trem correto e ainda perguntou o nome da moça. Ao ouvir “Linda, muito prazer”, encantou-se imediatamente. A menina, a seus olhos, fazia jus ao nome.


A informação correta, no entanto, era prenúncio de convívio curto, já que ela desembarcaria em Madureira, poucas estações adiante.


A efêmera paixão deixou marcas profundas por longos minutos, até que viu, de soslaio, numa brevíssima brecha aberta na multidão dos passageiros, a entrada da deusa com quem desejaria passar o restante da vida e da eternidade. Só não teve tempo, como sempre, de descobrir o nome dela, porque ele mesmo precisou descer no Méier, onde era assistente em um consultório dentário.

•  •  •

A viagem terminou, e o coração, balançado no transporte, acompanhou seu corpo até o consultório dentário onde dividia com a Cris a função de assistente. Eram namorados há uns três anos. Mas toda vez que brigavam, como tinha acontecido na véspera, juravam um para o outro que se apaixonariam por outra pessoa na manhã seguinte.

Acontecia, sim. Continua acontecendo.


Mas passa rápido.

Rio de Janeiro, agosto de 2026.

Repertório ®CertCon, disponível para downloads e licenciamentos na Cedro Rosa.



 

 

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