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A Escola da Curiosidade

Atualizado: há 37 minutos

Por David Gertner, Ph.D
Por David Gertner, Ph.D


As escolas mais importantes da vida talvez sejam justamente aquelas das quais nunca nos formamos.



Existe uma escola que nunca apareceu nos mapas, jamais foi inaugurada por autoridades e nunca precisou da autorização de qualquer ministério da educação. Ainda assim, foi provavelmente a escola mais frequentada da história.


Seu nome é Escola da Curiosidade.


As aulas aconteciam em qualquer lugar. Bastavam uma concha esquecida na areia, uma formiga carregando uma folha maior do que ela, uma poça d'água depois da chuva ou uma noite repleta de estrelas para que o mundo inteiro se transformasse numa sala de aula.


Os professores tinham um hábito curioso: respondiam muitas perguntas com outra pergunta. Não por desconhecerem a resposta, mas porque pareciam compreender que existem respostas que encerram uma conversa e perguntas capazes de inaugurar uma vida inteira de descobertas.


Foi nessa escola que nasceram algumas das perguntas mais extraordinárias que conhecemos. Por que o céu é azul? Para onde vai o Sol quando anoitece? Quem ensinou os pássaros a cantar? Onde termina o universo? E, talvez a mais desconcertante de todas: por que existe alguma coisa em vez de nada?


Ninguém se envergonhava de não saber responder. Pelo contrário. A ignorância ainda não havia adquirido sua má reputação. Era apenas o primeiro capítulo da aventura chamada conhecimento.


Depois veio a outra escola.


Uma escola igualmente necessária, onde se aprendia a cumprir horários, pagar contas, interpretar contratos, administrar agendas e criar senhas tão seguras que, de vez em quando, impediam o próprio autor de entrar na própria conta.


Era um excelente currículo. A vida adulta depende dessas habilidades.


O problema nunca foi ingressar nessa nova escola. O problema foi imaginar que, para isso, seria preciso abandonar a primeira.


As perguntas continuaram. Apenas mudaram de natureza.


Passamos a perguntar quanto custa, quanto rende, quanto falta, quanto tempo leva, qual é o prazo, onde estacionar, como aumentar a produtividade, qual é a senha do Wi-Fi.


São perguntas indispensáveis. Graças a elas, pontes são construídas, aviões decolam, hospitais salvam vidas e as cidades despertam todas as manhãs.


Mas existe uma discreta conspiração da realidade: de tempos em tempos, ela nos oferece um instante em que nenhuma dessas perguntas basta.


Uma criança pergunta por que a Lua parece acompanhar o carro. Um neto quer saber se os peixes sentem sede. Um eclipse interrompe a rotina. Um livro desperta uma dúvida que jamais havia existido. De repente, o mundo deixa de ser apenas conhecido e volta a ser misterioso.


É nesse instante que antigos alunos reencontram, quase sem perceber, o caminho de volta.


Talvez a curiosidade não seja um privilégio da infância.


Talvez seja uma maneira de permanecer vivo.


É por isso que cientistas, artistas, filósofos e grandes inventores parecem conservar algo que o tempo não conseguiu envelhecer. Não é apenas inteligência. É espanto. Continuam desconfiando das respostas definitivas e tratando cada descoberta como o início da pergunta seguinte.


A civilização nunca avançou apenas porque alguém encontrou uma resposta. Avançou porque alguém teve a ousadia de fazer uma pergunta que, naquele momento, parecia não servir para nada. Quem imaginaria que perguntar por que uma maçã cai, como a luz se comporta ou o que existe dentro de um átomo acabaria transformando o destino da humanidade?


Talvez amadurecer não seja deixar de fazer as perguntas da infância. Talvez seja reencontrá-las com a profundidade que apenas a experiência pode oferecer. As perguntas práticas continuam indispensáveis: organizam o cotidiano, constroem pontes, curam doenças e fazem a sociedade funcionar. Mas são as perguntas aparentemente inúteis que ampliam os horizontes da ciência, alimentam a filosofia, inspiram a arte e renovam nossa compreensão de quem somos.


Talvez ninguém jamais tenha se formado na Escola da Curiosidade. Não porque lhe faltem professores ou porque o curso seja longo demais, mas porque ela nunca pretendeu formar especialistas. Seu verdadeiro propósito sempre foi outro: conservar vivo o espanto e lembrar que toda grande descoberta começou quando alguém se recusou a aceitar que já não havia mais perguntas a fazer.


Há quem imagine que essa escola pertença apenas à infância. Talvez seja exatamente o contrário. Ela acompanha cada etapa da vida, esperando pacientemente o momento em que alguém volta a olhar o céu sem pressa, escuta uma criança com verdadeira atenção, abre um livro disposto a mudar de ideia ou simplesmente aceita conviver, por algum tempo, com uma pergunta sem exigir dela uma resposta.


A boa notícia é que a Escola da Curiosidade nunca fechou as portas.


As matrículas continuam abertas.


Não importa a idade, a profissão ou o número de respostas que alguém já acumulou ao longo da vida.


Para estudar ali, basta chegar trazendo uma boa pergunta.



David Gertner, Ph.D., é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, prepara o lançamento de A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e mantém o website www.davidgertner.com⁠�.

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