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O Fim Ainda Não Chegou

Por David Gertner, Ph.D.
Por David Gertner, Ph.D.

Entre Shakespeare e Fernando Sabino existe um oceano, quatro séculos e duas línguas. Ainda assim, ambos parecem sussurrar a mesma esperança.


Há frases que não resolvem os problemas da vida. Não eliminam a dor, não desfazem perdas nem impedem despedidas. Ainda assim, permanecem conosco porque realizam algo talvez ainda mais importante: ajudam-nos a atravessar os dias em que nada parece fazer sentido.


Uma delas nasceu na Inglaterra elisabetana, quando Shakespeare deu o título de All's Well That Ends Well a uma de suas peças. Outra ecoou na literatura brasileira pelas páginas de Fernando Sabino, que recordava uma máxima de seu pai: "No fim tudo dá certo. E, se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim."


Separadas por quatro séculos, ambas parecem compartilhar a mesma compreensão da condição humana: sofremos, muitas vezes, por acreditar que um capítulo representa o livro inteiro.


Existe em nós uma estranha pressa de transformar acontecimentos provisórios em sentenças definitivas. Perdemos um emprego e concluímos que fracassamos. Um relacionamento termina e decretamos o fim do amor. Um projeto não prospera e passamos a acreditar que jamais prosperará. Julgamos a obra quando o autor ainda escreve as últimas páginas.


Talvez isso aconteça porque vivemos aprisionados ao presente, enquanto o verdadeiro significado dos acontecimentos costuma chegar atrasado. A vida raramente explica suas escolhas no instante em que elas acontecem. Muitas respostas só aparecem anos depois, quando percebemos que uma porta fechada nos conduziu a outra que jamais imaginaríamos abrir.


O que parecia uma interrupção era apenas uma mudança de direção.


A natureza compreende isso melhor do que nós. Nenhuma árvore acredita ter morrido porque perdeu as folhas. Nenhum inverno convence a primavera de que ela desistiu de chegar. Há estações em que crescer significa simplesmente permanecer vivo, mesmo quando nada floresce à superfície.


Com os seres humanos acontece algo semelhante. Há períodos em que a transformação é invisível. Continuamos aprendendo, amadurecendo e nos reconstruindo justamente quando imaginamos estar parados. A esperança realiza boa parte de seu trabalho em silêncio.


Isso não significa que tudo terminará exatamente como desejamos. A vida não assina contratos de felicidade. Existem perdas irreparáveis, ausências definitivas e cicatrizes que permanecerão conosco.


Mas até elas continuam produzindo significado. O sofrimento pode aprofundar a compaixão. Uma despedida pode ensinar a intensidade dos afetos. Um fracasso pode libertar alguém de uma vida que nunca lhe pertenceu. Nem sempre recuperamos aquilo que perdemos; às vezes, encontramos algo que jamais procuraríamos se nada tivesse sido perdido.


Talvez essa seja a verdadeira promessa escondida nas palavras de Shakespeare e Fernando Sabino. Não a de que tudo terminará bem, mas a de que nunca devemos julgar uma história antes que ela tenha tido tempo suficiente para revelar seu sentido.


A esperança nunca faz muito barulho.


Ela apenas permanece.


E permanece porque sabe que aquilo que hoje chamamos de fim pode ser apenas o ponto exato em que a história, silenciosamente, começa a mudar de direção.




David Gertner, Ph.D., é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, prepara o lançamento de A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim) e mantém o website www.davidgertner.com⁠�.

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