O FLAMENGO – DE ZICO A FELIPE LUIS
- Jose Roberto Sampaio

- 12 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

Devo confessar caro leitor. Para mim, um botafoguense raiz, não é fácil falar sobre um adversário histórico. Ainda mais para elogiar. Um time que foi responsável por muitos momentos de tristeza – e outros tantos de alegria, é bem verdade - na minha sexagenária existência. Mas não posso deixar de fazê-lo, nas atuais circunstâncias. Devo esta homenagem a queridos familiares e amigos, com quem divirto-me, compartilhando a catarse do futebol.
O Flamengo, neste ano de 2025, se impôs como um monarca que, no campo de batalha - ou melhor dizendo, nos gramados do Brasil e da América Latina -, com suas vitórias, inicia uma dinastia. Tal qual João de Avis, em Portugal, no século XIV, ao vencer a batalha de Aljubarrota. O futuro do futebol brasileiro, neste momento de empolgação, notadamente para os torcedores flamenguistas, parece pertencer ao Flamengo. Palmeiras e Botafogo, talvez seus maiores rivais na atualidade, não se mostraram, ao menos este ano, páreo.
Com a conquista da Libertadores e do Brasileirão de 2025, o Flamengo atingiu a incrível marca de 8 títulos nacionais e 4 sul-americanos. Sem contar o mundial de 1981, ganho pelo Flamengo de Zico. Ganhou com mérito. Jogou mais, fez mais gols, defendeu melhor, superou seus adversários em todos os quesitos.
Nem mesmo o clamoroso erro da arbitragem na final da Libertadores, a meu ver, foi capaz de ofuscar o brilho do sucesso rubro-negro. Se tivesse sido expulso o jogador do Flamengo e a Taça Libertadores fosse perdida, consumar-se-ia uma grande injustiça, como volta e meia acorre no futebol.
Ganhou o melhor time e não foi o arbitro que fez a diferença. Como na célebre vitória da Argentina contra a Inglaterra, na Copa de 1986. Não foi “Lá mano de Dios” que definiu a vitória sul-americana. Venceu o melhor time, do craque Maradona. O futebol tem seus mistérios, suas surpresas, seus caminhos, muitas vezes tortos. E é por este motivo que desperta tantas emoções.
E há que se fazer justiça. O Flamengo não é um time ganhador de ocasião. As vitórias do Flamengo, em 2025, não são fatos isolados. Tem toda uma história de conquistas, desde a fundação deste clube secular, em 15 de novembro de 1895. Além dos títulos já elencados, foi o time que mais ganhou campeonatos cariocas (39).
Teve elencos memoráveis. Nós últimos cinquenta anos - que eu possa, pessoalmente, testemunhar - destaca-se um, em especial: o Flamengo de Zico. Arthur Antunes Coimbra ou, como sua torcida carinhosamente o chamava, o galinho de Quintino, foi, para mim, um dos maiores jogadores que já pude assistir jogar, seja aqui ou alhures. Eu tive, ao longo da minha já longa existência, oportunidade de assistir jogar craques verdadeiramente fora de série.
Não vi Garrincha, Nilton Santos ou Didi, lendas do futebol brasileiro e mundial. Mas vi Pelé, no finalzinho de sua carreira, no Cosmos. Assisti jogando, também, Maradona, Platini, Rivelino, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Zidane, Messi entre outros. Craques que ficaram na história do futebol por seu toque refinado, controle de bola, rapidez de raciocínio e movimentos. Coisas difíceis de ver no futebol de hoje, marcado por toques rápidos e jogo coletivo, em que, muitas vezes, vale mais um bom técnico, no banco, do que um craque, em campo.
O Flamengo de Zico, embora trocasse passes precisos e rápidos, diferenciava-se não pelo coletivo. Mas sim por sua individualidade. Foi um time de craques que verdadeiramente me impressionou. Até hoje lembro-me, de cabeça, da escalação deste elenco, embora torcedor de um adversário histórico.
Vou arriscar – pode acreditar caro leitor, sem consultar Google ou congêneres -: Raul/Cantarelli, Leandro – craque magnífico, um controle de bola excepcional - Manguito, Rondinelli – o Deus da Raça -, Junior – o maestro -, na defesa. Carpegiani/Andrade, Adílio – uma habilidade com a bola totalmente incomum - e Zico, no meio de campo. Tita, Nunes e Julio Cesar – o entortador.
Desculpe-me se errei nomes ou a grafia dos nomes estimado leitor…afinal sou botafoguense, não se pode esquecer. Não tenho obrigação de saber de cor a escalação do time de um arquirrival. Todavia eu guardei estes nomes. Por trauma, pelo sofrimento que me causaram – quem bate esquece, mas não quem apanha - ou quiçá por minha enorme admiração por este time fantástico.
Antes do Flamengo de Zico, nos jogos entre o Botafogo e os urubus, o “bicho” – leia-se prêmio por vitória pago a cada jogador – era antecipado aos jogadores do alvinegro carioca. Com Zico, tudo mudou. O Flamengo era “freguês do Botafogo. Atualmente o Flamengo tem mais vitórias do que o Botafogo, no histórico de disputas.
Umas das primeiras vezes que fui ao Maracanã com meu pai - também botafoguense é claro -, foi em um Botafogo versus Flamengo. Meu pai, diferentemente de mim, pegou a época de ouro do alvinegro carioca. Estava acostumado a ver seu time do coração bater o Flamengo, como um lutador faixa preta, em seu adversário magrelo de óculos, sem experiencia em lutas. Era covardia. Não hesitou em me levar. Deve ter pensado: “Meu filho vai assistir a mais uma vitória do Botafogo”.
Não foi o que aconteceu. Estava em campo um garoto franzino, naquela época não muito conhecido, que driblava com extrema facilidade, penetrava na zaga, como se esta não existisse, e fazia gols. Acho que o Flamengo venceu. Não tenho certeza. Era pequeno. Lembro-me de ter ficado muito triste. Diferentemente da geração do meu pai, a minha via o Flamengo, nos jogos contra o alvinegro carioca, como favorito – o que não acontece mais hoje, no Botafogo de John Textor. Voltou a ordem natural das coisas...
Zico foi um carrasco para o Botafogo e um vingador para o Flamengo. O maior responsável pela reversão da “escrita”. Participou do jogo que “devolveu” o inolvidável 6x0, que tive a infelicidade de assistir, nos anos 80.
Com a queda do império romano ocidental em 476 DC, muito da cultura, da arte, da arquitetura, do passado se perdeu. Nos mil anos que se seguiram, até pelo menos o Renascimento, no ocidente, desaprendeu-se a fazer muitas coisas. Com a aposentadoria de Zico, arrisco dizer, no mundo todo, desaprendeu-se a bater falta. Posso estar cometendo injustiça com um ou outro, mas não o suficiente para invalidar esta afirmação.
Não há mais, em todo mundo, verdadeiros grandes batedores de falta, especialmente aquelas próximas à área. Zico foi o melhor. Ninguém foi maior, em toda a história do futebol mundial. Até mesmo Didi, o inventor do método de bater na bola, chamado de “folha seca”, usado pelo galinho de Quintino, em suas magistrais cobranças de falta, não foi capaz de superá-lo.
Digo como torcedor adversário: falta próxima da área, em favor do Flamengo, nos anos 80, era quase como um pênalti. Os oponentes tremiam de horror. E a torcida do Flamengo, ao som do apito do arbitro, marcando a falta, comemorava como se fosse uma penalidade máxima. Hoje quase não se vê mais gols de falta. Sinto-me, ainda que um pouco contrariado, obrigado a dizer: Zico deixou saudades no futebol brasileiro, especialmente para mim, na seleção brasileira.
Recordo-me, quando esta geração de ouro parou de jogar bola, parecia que o rubro negro carioca iria desaparecer da face da terra. Contudo, o Flamengo se reinventou sem Zico, Junior, Leandro, Adílio e cia. Após o Flamengo de Zico, surgiram outros bons times. O de maior glamour, o Flamengo de Jorge Jesus.
Veja, caro leitor, em 2019, não era o Flamengo de um atleta qualquer. Era um time do técnico. Atualmente, repito, os técnicos, no banco, no mais das vezes, têm mais importância do que os craques, em campo.
E no caso do Botafogo, a situação é mais extrema: é o time de um dirigente esportivo, como mencionei acima. Este fenômeno é universal. Cada vez mais ouço, na narração das partidas de futebol, comentaristas esportivos dizendo: “O Barcelona ou Manchester City de Pep Guardiola” ou “o PSG da Qatar Sports Investments”. Esse é o futebol moderno. O Flamengo deste ano, ao que me parece, será o Flamengo de Felipe Luis, que com mérito, ganhou os principais títulos da temporada, na América Latina.
Milão, dezembro de 2025.
José Roberto Sampaio
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